Transtorno de Personalidade Borderline: o que é, sintomas, tem cura?

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Revisado por: Dr. Emerson Rodrigues Barbosa (CRM/PR 25901) – Psiquiatra

O que é Transtorno de Personalidade Borderline?

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), também conhecido como Transtorno de Personalidade Limítrofe (TPL), é um distúrbio mental caracterizado por instabilidade no humor, comportamento e relacionamentos. Os pacientes diagnosticados sofrem com o medo de abandono real ou imaginado, impulsividade e comportamento autodestrutivo.

Muitos dos sintomas estão associados às relações interpessoais e não necessariamente afeta todos os relacionamentos do paciente, pois ele pode ter um bom relacionamento com os colegas de trabalho, mas ter muitas dificuldades com a família, por exemplo.

No começo, acreditava-se que o TPB era um subtipo do transtorno bipolar ou da esquizofrenia, por ter sintomas em comum. Há relatos dos sintomas da síndrome desde 1938, mas apenas nos anos 80 foi adicionado como um transtorno de personalidade ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais Terceira Edição (DSM-III).

O nome borderline vem do fato de que antes se acreditava que as pessoas com o transtorno estavam na borda entre a neurose e a psicose. A neurose indica pessoas que estão sofrendo com problemas mentais, porém conseguem diferenciar suas percepções da realidade, enquanto a psicose se refere a indivíduos que não conseguem diferenciar a realidade daquilo que percebem ser real, podendo sofrer delírios e alucinações.

O transtorno afeta principalmente jovens adultos, com os primeiros sintomas podendo aparecer durante a adolescência. Quanto mais cedo for diagnosticado, maior é a efetividade do tratamento.

Nomenclaturas para o Transtorno de Personalidade Borderline

O conjunto de sintomas que caracterizam o TPB já estava presente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais desde a primeira edição (DSM-I), mas com outro nome.

Especialistas julgam que “borderline” não é o melhor nome para o transtorno, pois não é preciso e pode ser mal interpretado, mas concordam que, até hoje, não foi inventado um nome melhor para descrever a condição.

Atualmente, existem diversos nomes para se referir a este transtorno, dentre eles estão:

  • Síndrome de Borderline;
  • Transtorno de Personalidade Limítrofe;
  • Personalidade Emocionalmente Instável;
  • Transtorno de Intensidade Emocional.

As nomenclaturas mais comumente usadas, no Brasil, são Transtorno de Personalidade Borderline ou Limítrofe.

Índice — neste artigo você irá encontrar as seguintes informações:

  1. O que é Transtorno de Personalidade Borderline?
  2. Tipos e Classificações
  3. Grupos clínicos
  4. Causas e Fatores de risco
  5. Sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline
  6. Diagnóstico
  7. O Transtorno de Personalidade Borderline tem cura?
  8. Qual é o tratamento?
  9. Como conviver
  10. Complicações
  11. Prevenção

Tipos e Classificações

No meio científico, ainda não há consenso sobre os tipos de personalidade borderline e nenhum dos manuais utilizados para diagnósticos categorizam diferentes tipos. Entretanto, há pesquisadores e especialistas que sugerem determinadas subdivisões que pretendem uma melhor descrição da condição.

Embora essas classificações sejam conhecidas por muitos que estudam o transtorno, pesquisadores concordam que não são o suficiente para categorizar os pacientes borderline. Ainda há pesquisas sendo feitas para investigar maneiras de classificá-los mais precisamente, uma vez que os sintomas se manifestam diferentemente em indivíduos distintos.

Uma das mais conhecidas é a de Randi Kreger, presente em seu livro The Essential Family Guide to Borderline Personality Disorder, que classifica o transtorno entre o Convencional (de Funcionamento Baixo) e o Invisível (de Funcionamento Alto).

Confira abaixo todas classificações que o TPB possui:

Borderline Convencional

Também classificado como Borderline de Funcionamento Baixo, este tipo de borderline tem sintomas mais autodestrutivos, podendo ser frequentemente internado por suas tentativas de automutilação e comportamento suicida. O autor usa o termo acting in para descrever este tipo de borderline, que tenta aliviar a dor emocional através de si mesmo, tomando decisões arriscadas que podem ter consequências graves para sua saúde e futuro.

Devido às frequentes hospitalizações, este tipo pode impedir a pessoa de trabalhar ou estudar normalmente.

Borderline Invisível

A pessoa do tipo invisível é mais difícil até mesmo de ser vista como portadora do transtorno, pois, por fora, aparenta levar uma vida normal. Consegue trabalhar e estudar, não é internado com frequência e o comportamento autodestrutivo pode não ser tão acentuado. Por isso, é classificado como Borderline de Funcionamento Alto.

Entretanto, o transtorno se manifesta nas relações interpessoais, através do abuso verbal, das críticas e até mesmo violência física. A raiva intensa é descontada nos outros, ao invés de em si mesmo. O autor chama isso de acting out.

Subtipos de Milton

Outra classificação conhecida são os subtipos propostos por Theodor Milon: Desencorajado, Petulante, Impulsivo e Autodestrutivo. Sua sugestão é de que o portador de TPB pode exibir nenhuma, uma ou mais das seguintes características:

Desencorajado

Pode incluir características da personalidade esquiva (incluindo isolamento), pode ser flexível, submisso, leal. Tende a se sentir vulnerável e em constante perigo.

Petulante

Comportamento passivo-agressivo, pode ser negativista, impaciente, inquieto, teimoso, desafiante, pessimista e rancoroso. Cansa-se facilmente e é rapidamente desiludido.

Impulsivo

Pode ter características histriônicas e antissociais. Tende a ser caprichoso, superficial, distraído, indeciso, frenético e sedutor. Agitam-se ao temerem a perda, tornam-se sombrios e irritáveis. Potencialmente suicida.

Autodestrutivo

Pode ter características depressivas ou masoquistas, é mais voltado para si. Sua raiva é autopunitiva. Tende a ser conformista, tenso e ranzinza, não é muito respeitoso ou insinuante. Possivelmente suicida.

Grupos clínicos

É possível, ainda, classificar os indivíduos borderline em 4 grupos clínicos distintos:

  • Grupo A: Predominam as características esquizoides e/ou paranoides, aproximando-se da psicose;
  • Grupo B: Predomínio das características distímicas e afetivas;
  • Grupo C: Predomínio das características antissociais e perversas, satisfazem quase todos os critérios do DSM-5 (5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais);
  • Grupo D: Predomínio das características neuróticas graves, como obsessivo-compulsivas, histéricas e fóbicas.

Causas e Fatores de risco

Não há consenso sobre as causas do Transtorno de Personalidade Borderline. Há, entretanto, alguns fatores que os pesquisadores acreditam estarem relacionados ao desenvolvimento do transtorno, sendo ligados à genética, fatores sociais e até mesmo anomalias cerebrais.

Importante ressaltar que o TPB é uma condição multifatorial, ou seja, geralmente dependente da manifestação conjunta de fatores de risco. Nesse sentido, a presença de um aspecto não determina o acometimento da pessoa.

Genética

Existem evidências de que o desenvolvimento do TPB está ligado à genética, mas não é certo se existe um gene responsável por isso.

Estudos em gêmeos mostram que, se um dos gêmeos sofre com o transtorno, há uma grande chance de que o outro irmão também sofra. Além disso, pessoas que tem um dos pais (ou os dois) borderline também tem maiores chances de desenvolver o transtorno.

Mesmo assim, é preciso ser cauteloso com esses resultados, pois podem estar mais relacionados ao ambiente familiar do que com a genética em si.

As pessoas podem herdar alguns traços da personalidade de seus pais e, caso tenha crescido com pais emocionalmente instáveis e agressivos, é possível que tenha herdado isso deles, ao invés de ter herdado o TPB geneticamente.

Ambiente familiar

Entre os pacientes borderline, há relatos de infância conturbada por um ambiente familiar instável. Pais e cuidadores com personalidades hostis, e ambientes onde haviam muitos conflitos e instabilidade nos relacionamentos podem estar ligados ao desenvolvimento de traços borderline.

Entre os fatores sociais, que são permeados pelas relações familiares e afetivas, pode ocorrer situações de invalidação emocional, em que a pessoa sente que seus sentimentos e emoções estão incoerentes ou indevidos ao momento.

A invalidação pode ocorrer por meio de repressões ou críticas que, muitas vezes, são sutis. No entanto, a construção de que os sentimentos estão errados pode ser extremamente prejudicial e se tornar um fator condutor ao TPB, desde que associado à outras condições.

Além disso, a convivência com portadores de outros tipos de transtorno de personalidade também podem ter influência.

Traumas de infância

Muitos pacientes relatam traumas como abuso emocional, verbal ou até mesmo sexual durante a infância. Há relatos de pais e cuidadores negligentes que tinham a tendência de invalidar os pensamentos e sentimentos da criança, além de não proporcionar os cuidados físicos necessários.

Entretanto, é importante frisar que nem todos os pacientes borderline passaram por traumas durante a infância, sendo este apenas um fator de risco e não uma causa direta.

Anomalias cerebrais

Pesquisadores descobriram, através de exames de ressonância magnética, que algumas partes dos cérebros de portadores do TPB são menores que o normal ou, ainda, que seus níveis de atividade eram incomuns.

As amígdalas cerebelosas se mostraram menores e mais ativas em pessoas com TPB. Essa parte do cérebro é responsável por regular as emoções, inclusive as negativas, o que pode explicar a intensidade das emoções dos portadores deste distúrbio.

O hipocampo, que auxilia no comportamento e autocontrole, também tende a ser menor em indivíduos borderline.

O córtex pré-frontal auxilia na regulação de emoções negativas, freando os impulsos e diminuindo a intensidade dessas emoções. Em pessoas borderline, descobriu-se que essa parte do cérebro é menos ativa, especialmente quando os pacientes experienciam a sensação de abandono.

Há também anomalias no neurotransmissor serotonina. Tais anomalias estão ligadas à depressão, agressividade e dificuldade de controlar impulsos destrutivos. Outros neurotransmissores suspeitos de sofrerem alterações são a dopamina e a noradrenalina, relacionados à instabilidade emocional.

É importante ressaltar que ainda não se determinou se as alterações cerebrais são causadas pelo TPB ou se desencadeiam o transtorno. A dificuldade dos pesquisadores em determinar esse direcionamento faz com que as anomalias assumam papel de causa ou de consequência.

Hormônios

Em indivíduos com TPB, descobriu-se que a produção de cortisol, um hormônio diretamente relacionado ao estresse, é aumentado.

Em relação às mulheres, o ciclo do estrogênio revelou a possibilidade de prever alguns sintomas de acordo com os níveis do hormônio.

Assim como as alterações cerebrais, as mudanças hormonais ainda são pesquisadas e não se sabe determinar se o TPB afeta a produção hormonal ou se ela é afetada pelo transtorno.

Sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline

O sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline são variados, podendo ser agrupados em 4 categorias:

  • Instabilidade emocional (ou desregulação afetiva);
  • Distorções cognitivas e na percepção;
  • Comportamento impulsivo;
  • Relações interpessoais intensas e instáveis.

Instabilidade emocional

As emoções dos indivíduos borderline são muito instáveis, podendo mudar em um período curto de tempo, em questão de horas e com duração máxima de poucos dias. É comum que estes pacientes sintam desespero juntamente com ideações suicidas e, poucas horas depois, tenham emoções positivas, como se nada tivesse acontecido.

As mudanças de humor mais frequentes em pacientes borderline são entre raiva e ansiedade, assim como depressão e ansiedade.

Emoções intensas

Indivíduos borderline sentem as emoções com mais intensidade e mais facilmente do que outras pessoas. As emoções também podem durar mais tempo, fazendo com que o borderline demore para se recuperar de alguma emoção. Os portadores de TPB tem a tendência a sentirem euforia ao invés de felicidade, luto ao invés de tristeza, ódio intenso ao invés de raiva.

Especialmente com a raiva, há dificuldade em controlar a intensidade e as próprias ações. Essas pessoas tendem a ficar com muita raiva facilmente, sem um motivo plausível para observadores externos. Respostas secas e sarcásticas podem ocorrer repentinamente. Engajar-se em brigas e violência física também é comum.

Sensibilidade à rejeição e críticas

Outro sintoma marcante relacionado às emoções é a alta sensibilidade à rejeição e críticas. Pacientes borderline podem sentir que uma crítica direcionada ao seu trabalho é, na verdade, uma crítica à sua pessoa, ou que a impossibilidade de uma pessoa querida de comparecer a um compromisso é um sinal de que essa pessoa não quer ver o paciente.

Distorções cognitivas e na percepção

Instabilidade na autoimagem e autoidentidade

O portador de TPB pode relatar não ser capaz de saber quem é ou o que gosta. Tem problema para identificar o que é importante para ele, assim como descrever a si mesmo. Pode mudar de planos e objetivos em pouco tempo. Sexualidade e identidade de gênero também podem ser afetadas.

Devido a essa instabilidade, é comum que os pacientes tenham sentimentos crônicos de vazio. Alguns chegam a achar que a vida não faz sentido.

Baixa autoestima

Outro sentimento que os portadores de TPB experienciam é a autoestima baixa. Pensam que não são bons o suficiente e até mesmo que são pessoas ruins. Às vezes, podem chegar a pensar que não existem.

Pensamentos paranoicos

O paciente com TPB pode ter pensamentos paranoicos, como achar que uma pessoa querida está o abandonando quando na verdade esta pessoa está ocupada (com o trabalho, estudos e afins), achar que as pessoas estão querendo fazer mal a ele, entre outros pensamentos semelhantes a esses.

Alguns pacientes relatam não conseguir recordar a existência de um sentimento quando ele não é frequentemente demonstrado e, portanto, a ausência de pessoas amadas podem levá-lo a pensar que ele não é mais amado, que foi abandonado e que as pessoas querem que ele sofra.

Dissociação

Muitas vezes induzido pelos pensamentos paranóicos, o indivíduo borderline pode experienciar um fenômeno chamado dissociação. A dissociação é a sensação de estar se desligando do que está ao seu redor, podendo sentir-se até mesmo fora do próprio corpo.

O paciente pode sentir como se estivesse sonhando, ou como se tivesse uma ruptura com a sua personalidade. Suas palavras e gestos podem se tornar mecânicas e a pessoa pode sentir que está em outro lugar, controlando o corpo como se fosse um boneco.

Também pode apresentar amnésia dissociativa, onde memórias importantes são reprimidas. A pessoa pode esquecer quem ela é, os últimos dias, meses ou anos.

Comportamento impulsivo

Para se livrar da dor emocional, o borderline pode se engajar impulsivamente em atividades que podem causar danos à sua saúde e até mesmo ao seu futuro.

O paciente pode se envolver com abuso de substâncias ilícitas, bebedeiras, gastar muito dinheiro em compras impulsivas ou em apostas, sexo de risco e promíscuo, inclusive com estranhos, entre outros.

Automutilação e suicídio

Outros impulsos que o indivíduo pode não conseguir controlar são vontades autodestrutivas como automutilação (se cortar, se queimar, se bater, entre outros) e suicídio.

No DSM-5, a automutilação e o comportamento suicida são um dos critérios mais importantes para se realizar o diagnóstico do TPB.

Pacientes relatam que a automutilação nem sempre tem intenções suicidas, sendo uma maneira de aliviar a dor emocional ou de voltar à realidade durante um episódio dissociativo. Alguns podem também usar a automutilação como uma maneira de punir a si mesmos.

O risco de suicídio em pacientes borderline durante toda a vida varia entre 3% e 10%. Homens diagnosticados com o transtorno são mais propensos a cometer suicídio do que as mulheres.

Relações interpessoais intensas e instáveis

Ao mesmo tempo em que desejam intimidade, indivíduos com TPB têm dificuldade em confiar nas pessoas, criando insegurança em seus relacionamentos. Muitas vezes podem evitar as pessoas que amam ou ter sentimentos ambivalentes (gostar e desgostar, por exemplo) em relação à elas.

Medo intenso de abandono e esforços frenéticos para evitá-lo

Borderlines tendem a ser muito apegados às pessoas mais próximas e podem fazer de tudo para evitar serem abandonados, mesmo que esse abandono seja imaginado (por conta dos pensamentos paranóicos).

Se uma pessoa amada vai viajar durante um final de semana, o borderline pode encarar isso como abandono por parte dessa pessoa e brigar com ela por isso. Pode gritar, xingar e até mesmo se tornar violento fisicamente, além de usar ameaças como suicídio para impedir que a pessoa viaje.

Idealização e desvalorização

Os portadores de TPB têm pensamento dicotômico no que tange suas relações interpessoais. Esse tipo de pensamento, também conhecido como preto-e-branco, tudo ou nada, 8 ou 80, os levam a idealizar e desvalorizar uma pessoa importante em pouco tempo.

Quando uma pessoa importante para o portador do transtorno borderline faz uma coisa boa para ele, o paciente enxerga essa pessoa como inteiramente boa, merecedora de amor e carinho. Entretanto, quanto essa mesma pessoa faz alguma coisa capaz de magoá-lo, ele começa a acreditar que essa é uma pessoa ruim e que merece ser punida.

Combinado aos pensamentos paranoicos e medo de abandono, muitas vezes a pessoa pode não ter feito nada para o paciente e mesmo assim é alvo de ataques de raiva e ódio. Isso porque o paciente pensa que a pessoa fez algo de errado, quando na verdade não fez.

Diagnóstico

Não existe um teste ou exame específico para diagnosticar o TPB, sendo necessário fazê-lo por outros meios. Apenas um profissional da saúde mental pode fazer este diagnóstico e, muitas vezes, é preciso fazer uma série de exames antes para ter certeza de que os sintomas não estão sendo causados por alguma doença ou deficiência (como problemas na tireoide que podem causar sintomas parecidos).

Além disso, o médico pode requisitar participação do paciente no diagnóstico, através de questionários, perguntando como o paciente tem se sentido, entre outros. Se necessário, pode haver entrevista com a família e amigos próximos.

Para que a pessoa seja diagnosticada com TPB, ela deve satisfazer pelo menos 5 dos 9 critérios presentes no DSM-5:

  1. Instabilidade afetiva acentuada devido a reatividade intensa do humor (por exemplo: episódios de disforia, irritabilidade, ou ansiedade, geralmente durando, no mínimo, algumas horas e, no máximo, alguns dias).
  2. Ira, ódio ou raiva inapropriados, intensos e de difícil controle (por exemplo: apresenta frequentes demonstrações de irritação, raiva constante, sentimento de vingança, lutas corporais recorrentes).
  3. Sentimentos crônicos de vazio e tédio.
  4. Conduta recorrente de tentativas ou ameaças de suicídio e comportamentos de automutilação.
  5. Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado por extremos de idealização e desvalorização, ou amor e ódio, bom ou mau, etc.
  6. Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por exemplo, exageros em: gastos financeiros, sexo, drogas, álcool, direção imprudente, comer, cleptomania ou outros tipos de compulsões.) Nota: não incluir comportamento suicida ou automutilante estabelecido no critério 4.
  7. Esforços frenéticos para evitar um abandono/rejeição real ou imaginado. Nota: não incluir comportamento suicida ou automutilante estabelecido no critério 4.
  8. Instabilidade na identidade: autoimagem, preferência sexual, gostos e valores persistentemente instáveis.
  9. Ideação paranoide transitória relacionada ao estresse ou severos sintomas dissociativos.

O diagnóstico do TPB geralmente não é feito em crianças e adolescentes pois, nesta fase, a personalidade ainda está em formação e alguns traços supostamente borderline podem deixar de existir com o tempo, em decorrência do amadurecimento da pessoa. Entretanto, é importante que esses traços sejam observados e, se necessário, tratados, a fim de evitar o desenvolvimento do transtorno.

É importante também levar em consideração que algumas comorbidades podem estar mascarando o transtorno, levando a um diagnóstico errado, onde se faz necessário tratar a comorbidade para poder então diagnosticar o TPB.

Comorbidades

Comorbidades são outras doenças e distúrbios que podem aparecer juntamente com o TPB. Estas doenças podem tornar o diagnóstico mais difícil, pois alguns sintomas podem mascarar os sintomas do transtorno borderline.

  • Transtornos de humor como depressão nervosa, distimia e transtorno bipolar;
  • Transtorno de ansiedade, pânico, fobia social e transtorno de estresse pós-traumático;
  • Outro transtorno de personalidade;
  • Abuso de substâncias;
  • Transtornos alimentares, como anorexia e bulimia;
  • Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade;
  • Transtorno somatoforme;
  • Transtorno dissociativo.

Biomarcadores

Há funções biológicas que acabam sendo atingidas pelo transtorno borderline. Algumas delas são:

  • Cerca de 1/3 dos pacientes possui tirotropina reativa com hormônio liberador limitada, além de anticorpos serem encontrados na tireoide. Por isso é preciso eliminar a suspeita de problemas na tireoide antes de diagnosticar o TPB.
  • Alguns pacientes possuem sintomas neurológicos leves.
  • Podem apresentar irregularidades no sono.
  • Reações anormais às drogas.
  • Anormalidades no eletroencefalograma, sendo algumas características típicas da esquizofrenia.
  • Anormalidades bioquímicas.
  • Anormalidades na tomografia axial computadorizada da cabeça.
  • Pode ser encontrado baixos níveis de vitamina B12.

Reações anormais às drogas

Procaína e anestésicos opioides podem provocar aumento na irritabilidade dos pacientes TPB. Além disso, algumas drogas podem ter período de impregnação mais elevados, podendo parecer necessário doses maiores.

O alprazolam pode piorar a falta de controle dos pacientes, assim como a amitriptilina pode aumentar as tendências agressivas e ideações paranoides, além das ameaças de suicídio.

Anomalias bioquímicas

Pode haver dificuldade no transporte da serotonina plaquetária e na atividade da monoaminoxidase. Além disso, a paroxetina pode ter capacidade de ligação inferior a esta enzima, perdendo eficácia.

São encontrados baixos níveis de melatonina em pacientes borderline, assim como alguns apresentam baixo nível de transporte de íons, especialmente do lítio, que age interagindo com neurotransmissores e receptores.

O Transtorno de Personalidade Borderline tem cura?

Tecnicamente falando, o TPB não tem cura, mas seus sintomas podem ser amenizados e até mesmo entrar em remissão com tratamento. Na verdade, é raro que adultos maiores de 40 anos continuem com os sintomas.

Qual é o tratamento?

O tratamento é feito majoritariamente através de psicoterapia, podendo ser associada a medicamentos estabilizadores de humor, antidepressivos e antipsicóticos. Outro método para tratar é o internamento em clínica psiquiátrica quando o paciente está passando por muito estresse e seus impulsos autodestrutivos e suicidas estão mais acentuados.

Psicoterapia

Existem diversas abordagens que apresentam efeitos satisfatórios em pacientes borderline. Algumas são mais recomendadas que as outras, enquanto alguns psicólogos preferem usar abordagens mistas que melhor se adaptam às necessidades do paciente. Abaixo há uma lista das abordagens mais comumente usadas para tratar portadores de TPB:

Terapia Cognitivo Comportamental

A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) auxilia os indivíduos borderline a modificar algumas crenças e comportamentos que dão sustentação às percepções imprecisas de si mesmos e dos problemas com as outras pessoas. Esse tipo de terapia ajuda a lidar com os pensamentos paranóicos, a compreender melhor as emoções e controlá-las, assim como ajuda a reduzir a ansiedade e comportamentos autodestrutivos.

Terapia Comportamental Dialética

Baseada no conceito de consciência plena, o objetivo da Terapia Comportamental Dialética é promover a eficácia interpessoal, regulação emocional, tolerância ao estresse e autocontrole.

O comportamento social, ou seja, o modo com que cada pessoa age e reage diante das situações comuns (estudos, trabalho, interação social) pode ser bastante afetado pelo TPB. Nesse sentido, o Treino de Habilidades Sociais (THS) também pode ser eficaz na terapia, pois consiste em observar e compreender fatores limitantes na vida do paciente e trabalhá-los, de modo que o paciente possa adequar os comportamentos.

Tendo consciência de seus sentimentos, pensamentos e dificuldades emocionais, o paciente TPB pode diminuir os impactos negativos em diversas situações. Esse tipo de terapia é geralmente feito em grupo com suporte de terapia individual.

Terapia do Esquema

A Terapia do Esquema amplia a Terapia Cognitivo Comportamental ao integrar técnicas derivadas de diferentes escolas de terapia e é focada na maneira que as pessoas veem a si mesmas. É uma abordagem que se baseia na ideia de que o TPB vem de uma autoimagem disfuncional possivelmente causada por situações negativas durante a infância.

Pesquisas empíricas mostram que a Terapia do Esquema não é muito eficaz em indivíduos TPB, mas que pode ser melhor do que deixá-lo sem terapia alguma.

Terapia familiar ou matrimonial

A terapia também pode ser feita nas relações que são abaladas pelo TPB. A terapia familiar auxilia os familiares a compreender melhor a condição do paciente, a desenvolver técnicas para evitar conflitos e melhorar a comunicação, além de prover suporte aos membros da família.

Medicamentos para TPB

Não existe um medicamento específico para tratar o TPB, mas existem diversos medicamentos que são usados para tratar as comorbidades que podem acometer o paciente borderline.

No que tange o próprio transtorno, são usados antidepressivos para reduzir a sensação de vazio, antipsicóticos para diminuir quadros impulsivos (incluindo autodestrutivos) e sintomas dissociativos, e os estabilizadores de humor são usados para diminuir a oscilação emocional nos pacientes.

Alguns medicamentos que podem ser indicados aos pacientes borderline são:

É importante que os medicamentos usados no tratamento borderline sejam seguros, pois há pacientes com tendência a tomar mais do que a dose indicada devido ao comportamento suicida. Também é válido ressaltar que apenas médicos especialistas podem indicar medicamentos para o controle do TPB, pois eles sabem o diagnóstico preciso e o que é necessário para o tratamento. A automedicação pode causar reações adversas e resultados indesejáveis.

Atenção!

NUNCA se automedique ou interrompa o uso de um medicamento sem antes consultar um médico. Somente ele poderá dizer qual medicamento, dosagem e duração do tratamento é o mais indicado para o seu caso em específico. As informações contidas nesse site têm apenas a intenção de informar, não pretendendo, de forma alguma, substituir as orientações de um especialista ou servir como recomendação para qualquer tipo de tratamento. Siga sempre as instruções da bula e, se os sintomas persistirem, procure orientação médica ou farmacêutica.

Como conviver

Por afetar diretamente as relações interpessoais, conviver com um indivíduo borderline pode não ser fácil. É importante que os amigos e familiares estejam cientes do transtorno e que conheçam mecanismos para lidar com o paciente, evitando conflitos e complicações.

A família e os amigos podem e devem conversar com o terapeuta do paciente sobre comportamentos autodestrutivos e outras situações que ele possa ter omitido em suas sessões (por vergonha, medo etc.), assim como buscar terapia familiar.

É comum que os pacientes não busquem ajuda por si mesmos, seja por orgulho ou por achar que está bem e não precisa, e muitas vezes essa tarefa cai sobre os parentes e amigos durante uma crise. As pessoas mais próximas devem estar preparadas e ter o telefone do terapeuta em casos de urgência.

Enquanto o paciente estiver fazendo tratamento, os sintomas podem ser amenizados e com o tempo a convivência se torna mais fácil. Com o passar dos anos, é comum que os sintomas entrem em remissão, até mesmo por consequência do amadurecimento emocional do paciente.

É importante que as pessoas próximas não deixem de viver suas vidas em função da pessoa borderline, mas que também levem em conta os sentimentos e pensamentos dela enquanto estiverem ausentes. Como o borderline tende a se sentir abandonado, uma maneira de lidar melhor com isso é demonstrar que está lá e que se importa, mesmo que seja através de mensagens eletrônicas.

Complicações

Devido aos problemas com autoimagem e impulsividade, diversas áreas da vida de um borderline podem ser afetadas. As complicações podem aparecer na carreira, relacionamentos, educação, entre outros.

Algumas das possíveis complicações são:

  • Mudanças de emprego ou demissões frequentes;
  • Largar a faculdade, nunca se graduar;
  • Problemas com a lei, incluindo possibilidade de prisão;
  • Relacionamentos conflituosos, divórcio;
  • Automutilação e internações frequentes;
  • Envolvimento em relacionamentos abusivos;
  • Gravidez não planejada;
  • Infecções e doenças sexualmente transmissíveis;
  • Acidentes automobilísticos;
  • Lutas físicas;
  • Overdose de medicamentos;
  • Tentativas de suicídio.

Além disso, TPB aumenta o risco de desenvolver outros distúrbios (comorbidades), como depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, dependência química, entre outros.

Prevenção

Não existe uma maneira de prevenir o Transtorno de Personalidade Borderline em si, mas é possível prevenir que ele se desenvolva para um nível severo caso seja diagnosticado cedo, inclusive na adolescência.

Campanhas de conscientização podem ajudar mães, pais e cuidadores a compreender melhor o comportamento dos filhos adolescentes que podem estar começando a desenvolver o distúrbio, o que aumenta a possibilidade de um tratamento prévio e, consequentemente, mais efetivo.


É importante que essas informações sejam compartilhadas, pois estima-se que ainda há muitos casos borderline não diagnosticados por falta de conhecimento. Se você conhece alguém que apresenta traços ou sintomas do TPB, mostre este texto. Compartilhe para que mais pessoas saibam sobre o distúrbio e, mais importante, busquem tratamento.

Publicado originalmente em: 30/06/2017 | Última atualização: 16/11/2018

Fonte consultada

Dr. Emerson Rodrigues Barbosa (CRM/PR 25901), graduado em Medicina pela Universidade Federal do Paraná. Especialista em Sexualidade Humana e em Estimulação Magnética Transcraniana, ambas pela USP. Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Diretor clínico do Instituto de Psiquiatria do Paraná (IPP)

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19 Comentários

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  1. Luna
    Boa noite ! amei esse artigo e queria poder conversar c alguém q tem TPB e trocar experiencias, descobri aos 17 anos, não agente sofre muito, realmente perdemos relacionamentos amorosos, empregos,amigos etc. Ha muito tempo procurava um artigo onde pudesse obter informações.

  2. Minha filha é borderline, estou passando pelos momentos mais difíceis da minha vida!! Mas nunca vou a abandonar!! Amo muito ela!!

  3. Infelizmente nunca consegui de fato me relacionar por muito tempo.
    As pessoas não tem paciência, eu acredito que elas não sejam obrigadas, felizmente ainda não cheguei a me auto mutilar.
    Mas as vz é por muito pouco, espero que os outros que sofrem disso encontrem um caminho, abandonei os remédios pq não aguentava mais os efeitos colaterais.
    Além de boderline eu tenho ansiedade e depressão, disforia de gênero.
    Mas me identifiquei demais com coisas no artigo.

  4. Muito bom o artigo, parabéns! O termo “borderline” atualmente está sendo usado para definir a personalidade de algumas pessoas, como também usam o termo “bipolar”. Normalmente são pessoas que não conhecem o transtorno e são movidas pelo preconceito.
    Acredito que este artigo pode ser muito esclarecedor, ajudando bastante no combate ao preconceito.

  5. Eu tenho esse problema desde os 13 anos e já perdi muitas oportunidades na vida. Tomo medicações fluoxetina e volproato diariamente desde os 32 anos. Tenho 41 atualmente e sinto relativa melhora com amadurecimento da idade e os medicamentos, mas tenho muita recaidas depois de acessos de raiva ou stress. Já tentei me matar, tenho varias marcas no corpo causado por facas e cigarro e antes dos 32 anos eu era alcoólatra e quase me viciei em drogas. Mas o que eu tento fazer é esquecer tudo isso que eu fiz, os meus últimos 20 anos foram perdidos e tento recomeçar todos os dias. Eu penso assim: hoje vou passo por passo. Dou o primeiro e depois o segundo, sempre tendo consciência da minha situação de boderline. As vezes me torno um pouco sem atitude, mas é melhor do que causar um prejuízo ou ter um ato imaturo. Tenho que agir com consciência que eu tenho esse problema, não posso deixar de tomar meus remédios se não a crise volta instantaneamente. Tudo eu tenho que fazer com calma e sem pressa. Devagar e sempre, mas nunca desistir.

    • Olá Lenita!

      Existem alguns centros especializados no país, a facilidade em encontrar depende da região em que você mora. No geral, você pode buscar por institutos de psiquiatria. Mesmo que não atendam exclusivamente pacientes com Boderline, locais especializados em transtornos também oferecem um tratamento mais personalizado.

  6. Muito difícil mesmo, estive em um relacionamento assim por 2 anos, e como não conseguia entender terminamos e voltamos muitas vezes. Hoje estou procurando entender sobre tudo isso, mas infelizmente ele não quer minha ajuda e se afastou procurando outro relacionamento, mas esse artigo me ajudou a entender ainda mais.
    Obrigada.

  7. Minha filha apresenta quadro de bordeline realmente muito dificil estamos procurando um terapeuta, mas até agora não encontramos, somente clinicos gerais, mas especialista neste disturbio não. Caso alguem tenha conhecimento e possa indicar, agradeço. Atualmente ela esta com 21 anos.

  8. Boa tarde!Eu fui diagnosticada a pouco tempo e estou sofrendo muito,minha vida virou de pernas pro ar,meu casamento quase acabou e minha família não acredita que estou doente,acha que estou fingindo e mentindo o tempo todo,penso em me matar pois pra mim a vida não faz mais sentido,sou monitorada,vigiada,sem privacidade alguma,as vezes não sei quem sou,as vezes amo demais,mais também odeio demais principalmente família!Por favor me ajude!Preciso que acreditem em mim!😥

    • Olá,

      Tente mostrar este texto para seus familiares, ou convença eles a conversar com seu psiquiatra ou psicólogo. Esses dois profissionais podem ajudar a esclarecer a doença para sua família. Infelizmente é muito difícil, pois todos tendem a ver como uma falha de caráter, quando na verdade se trata de um transtorno mental real. Contudo, se bons profissionais conseguirem explicar o problema para sua família, existem maiores chances de eles aceitarem que se trata de uma doença e te apoiarem no tratamento.

      Melhoras!

    • LBO, tenha calma. Eu tenho alguns problemas que acredito ter haver com um monte de situações aqui descritas na materia de borderline, nome esse que nunca tinha visto falar. Não é fácil, como nada é tão fácil nessa vida, mas coloque a sua vida e a sua existência em primeiro lugar. Vá em busca de ajuda. Não sei quantos anos vc tem, mais hj, com a internet à mão, vc consegue mts respostas para aquilo que vc procura. Por exemplo: eu hj aqui nesse momento estou procurando entender alguma cousa que eu acho um tanto errado comigo, até pq, lendo essas matérias, eu vejo e encontro problemas que tenho vivido. Tenha calma, confie em Deus, e vá em busca pq vc vai encontrar.

  9. Artigo muito bom, minha esposa possui TPB e como família sei que realmente não é fácil conviver, mas amo muito ela e sempre estarei disposto a ajudar. Ler constantemente artigos bons como esses me ajuda a cada vez mais ajudar minha esposa. As vezes que ela está bem parece que a doença foi embora, mas de repente tudo muda, é bom os familiares sempre participar no tratamento e sempre estar lembrando que, apesar da pessoa estar bem a doença ainda está ali, e a qualquer momento pode se manifestar. Mais uma vez obrigado pelo excelente artigo.

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