O que é alcoolismo?

O alcoolismo, também conhecido como etilismo, é um termo usado para descrever a dependência do álcool. Pessoas que sofrem desse mal costumam ter compulsão por bebidas alcoólicas, dificuldade em parar de beber e acabam por desenvolver tolerância aos efeitos da substância.

Trata-se de uma doença psiquiátrica, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como “doença com componentes físicos e mentais”. Isso porque a dependência, muitas vezes, é puramente psíquica, mas há também componentes fisiológicos envolvidos. A maior parte das pessoas, aliás, consegue beber esporadicamente sem ter maiores problemas.

O alcoolismo é mais comum em homens do que em mulheres, mas elas não estão a salvo do problema: 30% dos alcoolistas são do sexo feminino, e o número vem crescendo cada vez mais. A causa disso provavelmente está relacionada à maior liberdade que as mulheres conquistaram nos tempos modernos, podendo fazer o consumo de bebidas alcoólicas sem serem julgadas como seriam algumas décadas atrás.

Ainda que a saúde seja o principal fator que está em jogo com o consumo excessivo de álcool, as relações afetivas e os papéis sociais também são afetados por ele. Vale lembrar, porém, que a dependência do álcool pode ser tratada e controlada. Existem diversos programas e profissionais habilitados para ajudar nesse desafio, sendo que o grupo mais conhecido é o Alcoólicos Anônimos.

Índice — neste artigo você encontrará as seguintes informações:

  1. O que é alcoolismo?
  2. Alcoólatra ou alcoolista?
  3. Como o álcool age no organismo?
  4. Causas
  5. Fatores de risco do alcoolismo
  6. Como reconhecer um alcoólatra? Sintomas do alcoolismo
  7. Embriaguez: a intoxicação pelo álcool
  8. Quantidade de álcool no sangue e suas consequências
  9. Como é feito o diagnóstico do alcoolismo?
  10. Alcoolismo tem cura? Qual o tratamento?
  11. Consequências físicas e psíquicas do alcoolismo
  12. Recaídas: como lidar?
  13. Como prevenir o alcoolismo?

Alcoólatra ou alcoolista?

Durante muitos anos, o termo “alcoólatra” foi difundido como sinônimo para dependente do álcool. Nos últimos tempos, entretanto, muitos pesquisadores acreditam que essa nomenclatura é inadequada.

Se formos olhar a etimologia da palavra, veremos que alcoólatra significa, literalmente, adorador do álcool. Essa nomenclatura leva a entender que o indivíduo ama o álcool e escolhe continuar bebendo por gostar tanto, quando, na realidade, há uma dependência química da substância.

Pessoas que sofrem com a dependência já são mal faladas, chamadas de “sem vergonha”, e o termo alcoólatra só piora a situação. Por isso, a palavra é considerada estigmatizante e deve ser evitada ao se referir a uma pessoa que tem problemas com bebidas alcoólicas.

Já o termo alcoolista tem a conotação de distúrbio, deixando claro que o indivíduo não é o responsável por sua doença, e sim o álcool. Popularmente, o termo ainda é estranho e pouco conhecido, mas pesquisadores e profissionais da saúde buscam difundí-lo cada vez mais.

Por conta da maior difusão, este texto adota o termo “alcoólatra” como correto também.

Como o álcool age no organismo?

O álcool é uma droga depressora do sistema nervoso e, embora sempre tenha aqueles amigos que ficam tristes nas festinhas, isso não quer dizer que ele causa tristeza. Na verdade, isso significa que ele desacelera funções vitais.

Já percebeu como aquele amigo bêbado não fala nada com nada, tem dificuldade para se equilibrar, demora para reagir às situações e ainda por cima reclama que está vendo em dobro? Pois é isso mesmo que o álcool faz ao deprimir o sistema nervoso.

Para entender melhor, devemos ter em mente que o sistema nervoso central é formado por neurônios, células que conduzem energia elétrica e passam “mensagens” umas para as outras por meio de substâncias químicas, chamadas neurotransmissores. Cada neurotransmissor tem um efeito no organismo, sendo alguns relacionados ao prazer, outros ao medo etc.

São essas mensagens — parte elétricas, parte químicas — que fazem com que o nosso cérebro mantenha o nosso corpo funcionando. Tenha certeza que qualquer movimento que você realizar e qualquer pensamento que você tem em sua cabeça é graças ao funcionamento desse sistema!

Enfim, vamos ao que interessa: como o álcool altera essa brincadeira toda?

Ao adentrar o corpo, o etanol (tipo de álcool utilizado nas bebidas alcoólicas) chega rapidamente ao cérebro. Lá, ele estimula a liberação de neurotransmissores excitatórios como a serotonina, dopamina e endorfinas, responsáveis pelas sensações de prazer e bem-estar. É nesse momento que as pessoas no bar começam a ficar animadas com a festa!

Logo após isso, acontece exatamente o efeito contrário: o álcool estimula o principal neurotransmissor inibitório do cérebro, o ácido gama-aminobutírico, mais conhecido como GABA. Esse neurotransmissor se conecta aos neurônios e os tornam mais chatões, fazendo com que eles sejam menos receptivos às novas mensagens vindas de outros neurônios. Desse jeito, a comunicação entre um neurônio e outro é dificultada.

Entende agora porque se trata de uma droga “depressora” do sistema nervoso? Justamente porque ela torna o cérebro menos ativo! E é isso que faz com que os sintomas da embriaguez apareçam: a fala arrastada, falta de coordenação motora, dificuldades com equilíbrio, confusão mental e alterações na percepção são bem comuns.

Curiosidade: por que as pessoas fazem tanta coisa errada quando bebem?

Você com certeza já ouviu histórias de conhecidos que fizeram muitas besteiras enquanto estavam bêbados. Situações como tentar pular de lugares altos demais, dar em cima de uma pessoa claramente comprometida (na frente do namorado!) ou ficar com alguém que não seria tão interessante caso o indivíduo estivesse sóbrio são bem comuns. Mas por que será que isso acontece?

Estudos mostram que a atividade depressora do álcool tem um efeito bastante potente no córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelo julgamento de valores e tomada de decisões. Com a atividade defasada nessa região, nossa capacidade de avaliar os riscos é prejudicada e acabamos ficando otimistas demais.

Por isso, da próxima vez, não julgue aquela amiga que bebeu demais e saiu pagando micão: ela simplesmente não se ligava que estava fazendo besteira!

Metabolismo do álcool

A maior parte do álcool é metabolizado pelo fígado, e o resto é eliminado pelos rins, pele e pulmão. É por isso que, mesmo após ter parado de beber, a pessoa continua com bafo de álcool por algumas horas.

Durante o metabolismo, cada grama de álcool produz 7,1 kcal, pouco menos que 1 grama de gordura (8 kcal). Sendo assim, pessoas que desejam emagrecer devem se manter longe do álcool.

Por fim, pessoas que bebem álcool com frequência conseguem 50% das calorias necessárias diariamente por meio da bebida e, assim, acabam tendo problemas nutricionais como deficiência de proteínas e vitaminas com complexo B.

Causas

O que leva uma pessoa a beber? Ou pior: o que leva uma pessoa a continuar bebendo, mesmo que isso já tenha afetado sua saúde, carreira e relacionamentos? Eis uma questão bastante complexa que não tem uma resposta clara. O fato é que se trata de uma doença — e não de uma escolha — com causas obscuras, mas fatores de risco bem definidos:

Fatores de risco do alcoolismo

Facilidade de acesso

Um dos maiores fatores de risco para o alcoolismo é, óbviamente, a facilidade de acesso. Por estarmos inseridos numa sociedade na qual o consumo do álcool é visto como algo positivo e divertido, não é de se espantar ao ver como a droga é acessível.

Vale ressaltar que pessoas que nunca beberam álcool não podem virar alcoolistas, pois o alcoolismo acontece com o uso crônico da bebida que, por sua vez, é favorecido e encorajado em nossa cultura.

Ambiente social

O consumo de bebidas alcoólicas é, muitas vezes, associado a diversos rituais sociais modernos: festas, bares, baladas, noites de diversão, entre outros.

Quanto mais pessoas bebem ao redor do indivíduo, maior a possibilidade de ele passar a beber também. Isso porque somos seres sociais e precisamos fazer parte de grupos com os quais temos algo em comum.

Ao frequentar esses lugares e participar de situações assim, o indivíduo se expõe cada vez mais à droga, aumentando as chances de desenvolver uma tolerância e dependência.

No entanto, beber socialmente não significa que você se tornará alcoolista, mas fazer isso com frequência certamente é um fator de risco para o desenvolvimento da doença.

Histórico familiar

Existem evidências de que há um fator genético envolvido no alcoolismo, que podem ser buscadas ao analisar o histórico familiar de diversos pacientes dependentes do álcool.

Filhos de pais alcoolistas têm maiores chances de desenvolver a doença. Quando um gêmeo univitelino (igual) manifesta a dependência, muito provavelmente o outro manifestará também.

Problemas com saúde mental

Por conta de necessidades de escapismo, impulsos e dificuldades em lidar com o que se sente e pensa, pessoas com distúrbios mentais têm maiores chances de se tornarem dependentes do álcool e de outras drogas, inclusive ilícitas.

Diversas teorias da psicologia acreditam, também, que o hábito de beber está associado a experiências ruins na infância, em especial durante a amamentação, quando o prazer da criança se dava em relação às sensações recebidas em sua boca. Esses traumas repercutem, também, em diversos traços da personalidade do indivíduo e, muitas vezes, o alcoolismo acaba sendo só uma consequência.

Idade

No Brasil, grande parte das pessoas começa a beber na adolescência. No entanto, é preciso algum tempo para que o cérebro crie tolerância ao álcool e o indivíduo passe a necessitar mais e mais de bebidas alcoólicas.

Por isso, a maior parte dos alcoolistas são adolescentes e adultos, mas podem existir pessoas fora dessa faixa etária que também têm problemas com o álcool.

Gênero

O alcoolismo é mais comum em homens, embora afete as mulheres também. Acredita-se que isso se dê por conta de aspectos culturais, como a repressão para que mulheres não bebam e, caso bebam, que seja pouco.

Fases de evolução do alcoolismo

O alcoolismo, assim como diversas doenças, possui fases. A primeira delas é a mais tranquila, e muitos de nós já passamos. Começa a complicar quando vamos para a segunda. Entenda:

Adaptação

Logo após o primeiro contato com a bebida alcoólica, ocorre a fase de adaptação. É nela que se começa a beber para socializar, fazer parte da galera, enfim, usar a bebida como uma muleta para ter uma vida social.

Muitos adolescentes aproveitam bastante essa fase por conta dos efeitos inibitórios do álcool, que os ajudam a aliviar a ansiedade e angústias dessa fase da vida.

Tolerância

Quando o sistema nervoso central se adapta ao álcool, o indivíduo passa a não sentir muito seus efeitos. É o caso daquele cara que sempre enche a cara e nunca fica bêbado, além de se gabar que não é derrubado pela bebida.

Pois é bem nessa fase que surgem os apagamentos, ou síndrome de blackout, caracterizada por uma amnésia dos momentos em que esteve sob efeito do álcool.

Dependência e síndrome de abstinência

Nessa fase, há sintomas físicos de abstinência ao se passar muito tempo sem beber. Assim, o indivíduo continua bebendo para se livrar desses sintomas, sendo um verdadeiro dependente da droga. É nessa fase que começa a deterioração física, mental e social de maneira mais visível.

Em geral, é nessa fase que começam a aparecer os problemas de saúde relacionados ao consumo excessivo de álcool.

Como reconhecer um alcoólatra? Sintomas do alcoolismo

Assim como qualquer doença, o alcoolismo também traz consigo sintomas. Muitas vezes, esses sintomas só são notados pelas pessoas que convivem com o dependente, pois este tende a negar sua necessidade.

Em geral, os alcoolistas:

  • Bebem sozinhos e sem motivos aparentes;
  • Continuam a beber, mesmo que estejam perdendo coisas importantes: família, emprego, entre outros;
  • Perdem o emprego ou ano letivo;
  • Ficam agressivos quando bebem;
  • Não conseguem passar um dia sem beber uma bebida alcoólica;
  • Após começarem a beber, tem dificuldades para parar;
  • Bebem cada vez mais para manter a concentração de álcool no corpo;
  • Podem apresentar paranoia e alucinações;
  • Sempre têm uma desculpa para beber;
  • Se afastam de amigos, família e eventos sociais para beber;
  • Evitam ir em locais onde não podem beber;
  • Tentam esconder o consumo exagerado de álcool;
  • Comem mal ou deixam de comer;
  • Apresentam tremores e sintoma de abstinência quando passam muito tempo sem ingerir bebidas alcoólicas;
  • Perdem a memória.

Caso tenha percebido algum desses comportamentos em algum amigo, familiar ou conhecido, tente conversar abertamente, sem repressão, sobre esse problema. Ofereça ajuda, mas não force-o a nada.

Abstinência de álcool

Bebedores crônicos sofrem com sintomas graves se ficarem muito tempo sem beber. Isso acontece porque, para compensar o efeito depressor do álcool, o cérebro aumenta a atividade em circuitos excitatórios.

Ao passar muito tempo sem beber, o cérebro se sobrecarrega com a atividade excitatória desses circuitos, que não encontram a resistência da ação depressora do álcool, podendo causar inúmeros sintomas. São eles:

  • Tremores;
  • Taquicardia;
  • Hipertensão;
  • Náuseas e vômitos;
  • Suor excessivo;
  • Ansiedade;
  • Irritabilidade;
  • Inquietação;
  • Insônia;
  • Aumento da temperatura corporal.

Delirium tremens: abstinência com alucinações

Delirium tremens é o nome que se dá a uma espécie de episódio psicótico causado pela abstinência do álcool em pacientes alcoolistas. Ocorre, em geral, cerca de 3 dias após os primeiros sintomas de abstinência, e o episódio pode durar vários dias.

O principal sintoma do delirium tremens, que o difere da crise de abstinência comum, é a confusão mental. Nesses casos, o alcoolista pode apresentar:

  • Desorientação espaço temporal;
  • Ansiedade intensa;
  • Delírios (crenças irreais e irracionais);
  • Alucinações visuais, táteis e auditivas;
  • Crises convulsivas.

Quando um paciente se encontra nesse estado, ele deve ser levado a um hospital para receber acompanhamento médico. Muitas vezes, ele é tratado com medicamentos ansiolíticos, como os benzodiazepínicos e barbitúricos.

Esse episódio é observado mais frequentemente em pessoas que fazem abstinência após terem consumido grandes quantidades de álcool por mais de um mês.

A mortalidade durante o estado de delirium tremens varia de 15% a 40%. Na maioria dos casos, isso ocorre por conta das convulsões, que podem ser muito violentas.

Embriaguez: a intoxicação pelo álcool

De acordo com a velocidade em que a pessoa bebe e a quantidade de álcool consumido, ele se acumula na corrente sanguínea, dando início ao processo de embriaguez. Na realidade, o nome real da embriaguez é “intoxicação por álcool”. Ou seja, toda vez que você sai com os amigos pra beber e “ficar louco”, você está saindo para intoxicar seu organismo com uma droga. Não soa tão legal, né?

A intoxicação ocorre quando os níveis de etanol no organismo passam de um determinado ponto, o que gera seus efeitos. Os sintomas dependem muito da quantidade de álcool ingerida, mas os mais comuns são:

  • Agitação;
  • Euforia;
  • Dificuldades com a coordenação motora;
  • Rubor facial;
  • Fala arrastada;
  • Dificuldade para avaliar bem as situações e riscos (impulsividade);
  • Náusea e vômitos;
  • Diarreia;
  • Dor de cabeça;
  • Dificuldade para respirar;
  • Percepção alterada.

Síndrome de blackout

Após uma longa noite de bebedeira, seus amigos não param de falar das coisas que você fez ontem à noite, e você simplesmente não se lembra de nada. Soa familiar?

Trata-se da síndrome de blackout, uma espécie de amnésia causada pela intoxicação alcoólica. Isso acontece porque a substância interfere justamente nos circuitos de neurônios responsáveis pelo armazenamento de novas informações. Basicamente, o cérebro para de registrar o que acontece.

Quantidade de álcool no sangue e suas consequências

Diversos efeitos do etanol dependem da concentração da substância no sangue. Quanto mais álcool, mais perigosas são suas consequências. Abaixo, há uma explicação do estágio de embriaguez e suas consequências.

Vale lembrar que algumas pessoas precisam de menos e outras mais para atingir determinado estágio.

Estágio subclínico

Quando há entre 0,1 e 0,3g/L de álcool no sangue, o indivíduo apresenta um quadro subclínico — sem consequências para a saúde — e comportamento normal.

Euforia

Ocorre quando a concentração de álcool no sangue é de 0,3 e 0,9g/L. Nesse estágio, o indivíduo apresenta uma leve euforia, torna-se mais falante e sociável.

Há um aumento da autoconfiança, desinibição, diminuição da atenção, da capacidade de julgamento e um pouco do controle sobre si mesmo. Aqui começa o prejuízo na coordenação motora, dando aquela leve sensação de tontura.

Excitação

O pico da atividade excitatória após o consumo do álcool se dá numa concentração de 0,09 e 1,8g/L. Há uma atenuação da incapacidade de julgamento, além de já haver prejuízos na memória, compreensão e percepção das coisas ao redor.

O indivíduo tem menos resposta sensitiva, ou seja, sente menos as sensações físicas, e as respostas reativas (capacidade de reagir a algum acontecimento) ficam mais lentas. A visão periférica é menor e a pessoa tende a enxergar borrado ou duplo.

Equilíbrio e coordenação motora são afetados, há maior dificuldades para manter-se em pé e realizar movimentos precisos. No final desse estágio, a sonolência passa a dar as caras.

Confusão

O período de confusão se dá entre 1,8 e 2,7g/L de álcool no sangue. Ele é caracterizado por desorientação, confusão mental e, algumas vezes, adormecimento. As emoções ficam exageradas, a percepção visual de forma, cor e dimensão é prejudicada, além de haver uma piora na coordenação motora.

A fala é arrastada e se torna difícil entender o que o indivíduo está dizendo. Além disso, ele pode apresentar apatia e letargia.

Estupor

Esse estágio se aproxima à perda da consciência, com as funções motoras extremamente prejudicadas. Pode haver vômitos, incontinência urinária e fecal, além de pouca resposta à estímulos. Muitas vezes, o indivíduo não consegue nem mesmo se manter em pé, quem dirá andar. O estupor acontece em concentrações entre 2,7 e 4,0g/L.

Coma

Caracterizado pela perda da consciência, o coma ocorre em concentrações de 4,0 e 5,0g/L no sangue. Os reflexos são tão poucos que parecem não existir, a temperatura corporal fica abaixo do normal, há incontinência e prejuízo da respiração e circulação sanguínea.

É o último estágio antes da morte.

Morte

Em concentrações acima de 5,0g/L, a morte acontece por bloqueio respiratório central: o cérebro deixa de mandar mensagens para o pulmão respirar.

Como é feito o diagnóstico do alcoolismo?

Sabemos que é muito difícil diagnosticar o alcoolista, não porque os sintomas não são claros, mas porque eles são muito relutantes em admitir que tem um problema e procurar ajuda. Infelizmente, algumas pessoas precisam que ocorra uma complicação antes de correr atrás de sua saúde. É o caso de muitos alcoolistas.

Não existe exame laboratorial ou de imagem que seja capaz de diagnosticar a doença. Ao invés disso, muitos psiquiatras usam questionários e se baseiam nos critérios diagnósticos do Código Internacional de Doenças (CID).

Critérios diagnósticos do CID-10

De acordo com a décima edição do CID, o diagnóstico da dependência alcoólica é dado quando o indivíduo, nos últimos 12 meses, sentiu ou exibiu pelo menos 3 das seguintes condições:

  • Forte desejo ou compulsão por consumir álcool;
  • Dificuldade para controlar o comportamento de consumir bebidas alcoólicas em termos de início, término ou níveis de consumo;
  • Estado de abstinência fisiológico ao cessar ou reduzir o consumo da substância ou uso da mesma para aliviar os sintomas da abstinência;
  • Evidência de tolerância: o indivíduo necessita cada vez mais de doses maiores a fim de alcançar os efeitos do álcool;
  • Abandono progressivo de atividades e outros interesses em detrimento da bebida, além de maior quantidade de tempo necessária para se recuperar dos efeitos da mesma;
  • Persistência no consumo do álcool, mesmo com evidências claras de que isso está prejudicando sua saúde, seu humor e cognição.

O questionário CAGE

Um dos questionários para diagnosticar o alcoolismo é o CAGE, desenvolvido por Mayfield e colaboradores. A sigla CAGE está relacionada às palavras chaves de cada pergunta. Ao todo, são 4 perguntas:

  1. Você já tentou diminuir ou cortar (“cut down”) a bebida?
  2. Você já ficou incomodado ou irritado (“annoyed”) com outras pessoas por criticarem seu jeito de beber?
  3. Você já se sentiu culpado (“guilty”) pelo seu jeito de beber?
  4. Você já teve que beber para aliviar os nervos (estresse/tensão) ou reduzir os efeitos de uma ressaca (“eye-opener”)?

Caso haja respostas positivas, por mais que seja apenas uma, há indícios de que se pode ter problemas com álcool. Quanto mais respostas positivas, maiores as chances de se tratar de alcoolismo.

Teste de Detecção de Alcoolismo de Michigan, versão breve

Desenvolvido por Pokorny e colaboradores, a versão breve do Teste de Detecção de Alcoolismo de Michigan consiste em 10 perguntas que podem ser respondidas com “sim” ou “não” e que recebem uma pontuação. Confira a tabela abaixo:

Pergunta

Sim

Não

Você se considera uma pessoa que bebe de modo normal?

0 pontos

2 pontos

Seus amigos ou parentes acham que você bebe de modo normal?

0 pontos

2 pontos

Você já foi a algum encontro dos Alcoólicos Anônimos (AA)?

5 pontos

0 pontos

Você já perdeu amigos/amigas ou namorado/namorada por causa da bebida?

2 pontos

0 pontos

Você já teve problemas no trabalho/emprego por causa da bebida?

2 pontos

0 pontos

Você já abandonou suas obrigações, sua família ou seu trabalho por 2 ou mais dias em seguida por causa da bebida?

2 pontos

0 pontos

Você já teve delirium tremens, tremores, ouviu vozes, viu coisas que não estavam lá depois de beber muito?

2 pontos

0 pontos

Você já procurou algum tipo de ajuda por causa da bebida?

5 pontos

0 pontos

Você já foi hospitalizado por causa da bebida?

5 pontos

0 pontos

Você já esteve preso ou foi multado por dirigir embriagado?

2 pontos

0 pontos

Se, ao responder todas essas perguntas, a somatória for maior ou igual a 3, não há porque se preocupar. Caso a somatória seja 4, há indícios de problemas com álcool — mas não ainda alcoolismo — e, acima de 5, pode-se pensar em alcoolismo.

Alcoolismo tem cura? Qual o tratamento?

Infelizmente, o alcoolismo não tem cura. Existe apenas a remissão dos sintomas, mas o alcoolista nunca mais poderá tomar um gole sequer de álcool. O processo de tratamento é complexo e demorado, mas pode ser feito com segurança quando acompanhado por profissionais capacitados. Saiba mais:

Desintoxicação

A primeira etapa do tratamento é a desintoxicação, na qual o paciente entra em um período de abstinência do álcool. Ele deve ser feito com o acompanhamento de um psiquiatra e pode ser necessário internação.

Durante esse período, avalia-se os danos físicos e mentais do consumo de álcool em grande quantidade e por tanto tempo.

Algumas vezes, o médico pode receitar medicamentos para auxiliar na desintoxicação. Eles trabalham controlando a impulsividade e dando sensações desagradáveis ao consumir álcool, por exemplo.

Psicoterapia

Após a desintoxicação, a psicoterapia é a próxima etapa para a remissão dos sintomas. A abordagem mais utilizada nesses casos é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que envolve a aprendizagem de técnicas para evitar recaídas, além de auxiliar na mudança de hábitos e pensamentos que podem servir de gatilho para a bebedeira.

Outras abordagens psicoterápicas como a psicanálise e a gestalt-terapia também podem ajudar, especialmente se o hábito de beber está associado a outros transtornos mentais.

Terapia de grupo

Embora a psicoterapia individual auxilie, alguns estudos mostram que a terapia de grupo é mais eficaz na prevenção de recaídas, mudança de hábitos e situações sociais. Existem muitas clínicas e programas especializados na recuperação de alcoolistas.

Alcoólicos Anônimos

Talvez a maior organização voltada à recuperação de alcoolistas do mundo, a Alcoólicos Anônimos (AA) é uma comunidade de caráter voluntário que promove reuniões de alcoolistas em abstinência para alcançar e manter a sobriedade.

Nascida nos Estados Unidos, a AA é facilmente encontrada em diversas cidades ao redor do mundo, sob a premissa de manter a sobriedade e o anonimato. A instituição é mantida por meio de doações dos próprios membros e não aceita financiamento de qualquer outra fonte.

Medicamentos para alcoolismo

Para ajudar na fase de desintoxicação, o médico pode recomendar alguns medicamentos. São eles:

  • Dissulfiram: Este fármaco promove uma sensação desagradável se o indivíduo ingere qualquer quantidade mínina de álcool, criando uma aversão às bebidas alcoólicas;
  • Naltrexona: Ajuda a reduzir a compulsividade e a vontade de beber;
  • Acomprosato: Não se sabe exatamente o mecanismo de ação deste medicamento, mas acredita-se que ele restabeleça o equilíbrio químico prejudicado pelo uso de álcool;
  • Oxibato de sódio: Melhora a neurotransmissão de GABA e diminui os níveis de glutamato, auxiliando no período de desintoxicação.

Atenção!

NUNCA se automedique ou interrompa o uso de um medicamento sem antes consultar um médico. Somente ele poderá dizer qual medicamento, dosagem e duração do tratamento é o mais indicado para o seu caso em específico. As informações contidas neste site têm apenas a intenção de informar, não pretendendo, de forma alguma, substituir as orientações de um especialista ou servir como recomendação para qualquer tipo de tratamento. Siga sempre as instruções da bula e, se os sintomas persistirem, procure orientação médica ou farmacêutica.

Consequências físicas e psíquicas do alcoolismo

O álcool é um grande fator de risco para o desenvolvimento de diversas doenças, sendo muitas delas bem graves. Atente-se sempre à saúde daquela pessoa querida que teve ou tem problemas com o álcool, pois muitas doenças podem levar à morte.

Algumas das principais consequências são:

Danos no sistema nervoso

O consumo exagerado de álcool está relacionado a danos tanto no sistema nervoso central quanto periférico. Quando se trata do SNC, o abuso da substância pode levar à demência, enquanto, no periférico, há possibilidade de diminuição de sensibilidade e força muscular das pernas.

Gastrites e úlceras

Não raramente, o álcool leva à erosão das paredes do estômago, desencadeando uma inflamação da mucosa estomacal (gastrite), assim como úlceras gástricas, feridas que podem se desenvolver no estômago, esôfago ou intestino.

Danos hepáticos

O fígado é, definitivamente, o órgão que mais sofre com as agressões do álcool.

Começa com um simples acúmulo de gordura no fígado, que logo evolui para hepatite (inflamação) e fibrose, por uma tentativa de defesa do fígado. Aos poucos, a situação piora, até chegar na cirrose, doença caracterizada por cicatrizes e insuficiência hepática.

Pancreatite e diabetes

A agressão do álcool pelo trato digestivo também pode causar inflamação no pâncreas. Essa inflamação pode levar a destruição de tecido pancreático, juntamente com as células produtoras de insulina. Desse modo, pode-se desenvolver também diabetes.

Síndrome de Wernicke-Korsakoff

Como o álcool afeta a absorção de alguns nutrientes, é comum que alcoolistas sofram também com a síndrome de Wernicke-Korsakoff. Essa doença é caracterizada pela falta de vitamina B1 (tiamina), causando paralisia de alguns músculos, problemas oftalmológicos e distúrbios de estado mental.

Alterações circulatórias

O álcool também promove alterações na circulação sanguínea, podendo levar a doenças como hipertensão (pressão alta) e aumentar o risco de acidente vascular cerebral (AVC).

Aterosclerose

Por alterar o funcionamento do fígado, o abuso do álcool prejudica os níveis de colesterol na corrente sanguínea. Dessa forma, o colesterol pode se acumular nas paredes das artérias, levando ao endurecimento e estreitamento das mesmas. Essa condição é chamada de aterosclerose.

Câncer

O consumo frequente de álcool é um grande fator de risco para o desenvolvimento de câncer, especialmente no aparelho digestivo, que envolve a boca, esôfago, estômago, intestinos e fígado. No entanto, os riscos de câncer não se limitam à esse trajeto, podendo aumentar em outros órgãos também.

Síndrome do alcoolismo fetal

Mulheres alcoólatras em idade fértil devem tomar muito cuidado para não engravidar enquanto não conseguirem ficar em abstinência total. Isso porque o consumo de álcool enquanto grávida, independente de quantidade, causa danos ao feto, levando a malformações congênitas.

Complicações sociais

O alcoólatra também pode sofrer com muitos problemas sociais ao não se tratar.

Não raramente, o dependente acaba faltando no trabalho, escola, faculdade ou outras ocupações, por serem locais nos quais não pode beber, ou por conta dos sintomas da ressaca. Isso pode levá-lo ao desemprego.

As relações interpessoais ficam em segundo plano e muitas acabam sendo desfeitas. O alcoolista pode acabar ficando violento, tanto quando bebe quanto quando está em abstinência. A família e os amigos podem abandoná-lo, ou ele mesmo pode acabar saindo de casa para se entregar inteiramente à bebida, indo morar na rua.

Morte

Tanto pela intoxicação aguda quanto pelas complicações, o álcool leva à morte. Enquanto o acúmulo acima de 5g de álcool por litro de sangue pode levar à parada respiratória, diversas doenças causadas pelo álcool facilmente levam ao óbito.

Recaídas: como lidar?

Após alguns meses ou anos sem beber qualquer coisa, vem a notícia: o alcoolista em remissão voltou a beber. É uma situação horrível, na qual o próprio indivíduo se sente uma falha e as pessoas ao seu redor podem acabar decepcionados ao invés de compreender.

Algumas dicas do que fazer quando isso acontecer são:

  • Entenda que recaídas fazem parte do processo de recuperação e não se deve culpar ou julgar o indivíduo que, no fundo, só estava buscando aliviar os sentimentos ruins que vem junto com a abstinência;
  • Quando o indivíduo demonstra irritabilidade, passa a faltar nas reuniões dos grupos de apoio, parece estar frustrado e piora seu desempenho no trabalho e/ou escola, pode ser que ele esteja tendo uma recaída. Nesses casos, é importante buscar ajuda o mais rápido possível;
  • Incentivar o dependente a criar novos hábitos saudáveis ajuda a mantê-lo ocupado com outras coisas, evitando uma recaída;
  • Exercícios físicos são ótimos substitutos para o álcool, visto que liberam neurotransmissores relacionados ao prazer no cérebro, evitando sentimentos como angústia e ansiedade causados pela abstinência;
  • Evite situações que lembrem ao vícios: festas, pessoas envolvidas nos vícios, comemorações onde há bebidas, etc.;
  • Estimule novas amizades, relacionamentos saudáveis com pessoas que tenham bons hábitos e, principalmente, não bebem;
  • Em caso de recaída, estimule o dependente a voltar para a clínica. Deixar como está e fingir que vai ficar tudo bem só piora a situação;
  • Auxilie o paciente numa reorganização da própria rotina, com novas atividades como um novo emprego, cursos, terapias, entre outros. Manter a mente ocupada é importante para resistir às tentações;
  • Incentive o alcoolista a nunca abandonar o acompanhamento profissional, pois muitos casos de remissão, quando param a terapia ou os grupos de apoio, voltam a beber;
  • O apoio da família e dos amigos é indispensável para uma boa recuperação. Jamais repreenda o alcoolista, principalmente após recaídas, e sempre demonstre apoio e carinho.

Como prevenir o alcoolismo?

Levando em conta que a dependência do álcool é desencadeada, principalmente, pelo seu uso crônico, a melhor maneira de prevenir o problema é manter-se longe de bebidas sempre.

Não importa se é em uma festa, ou só uma vez na semana: indivíduos predispostos ao problema devem evitar o consumo de bebidas alcoólicas.

Se você não tem histórico familiar de alcoolismo na família, isso não significa estar livre para beber o quanto quiser. Caso você beba, o ideal é manter-se dentro do nível saudável estipulado pela OMS de, no máximo, 1 drink por dia para as mulheres e, para os homens, 2 drinks.


Por mais que a pessoa negue, um diagnóstico de alcoolismo é uma coisa séria. Muitas vezes, o indivíduo demora muito para procurar ajuda porque simplesmente nega ter qualquer problema com álcool.

Se você conhece alguém que não consegue parar de beber, ou se você mesmo se identifica com esses sintomas, procure ajuda! O tratamento pode melhorar muito sua qualidade de vida e aspectos sociais.

Compartilhe esse texto com seus amigos e familiares para que mais pessoas saibam identificar e ajudar um alcoólatra! Qualquer dúvida, pode perguntar que responderemos com prazer.

Referências

https://drauziovarella.com.br/drauzio/artigos/alcoolismo/
https://www.einstein.br/doencas-sintomas/alcoolismo
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