Tatuagem do bem faz alerta para doenças e esconde cicatrizes

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Às vezes é um sinal de nascença, vezes é uma cicatriz e, outras, é um desenho que representa um afeto ou uma emoção. As marcas na pele são diversas e trazem histórias de uma vida.

Colorida ou preta, a tinta é depositada entre as camadas da pele. Mas, nos casos que se relatam ao longo do texto, pode ser entre as camadas da alma.

Tatuagens que trazem alertas sobre alergias, intolerâncias, doenças ou que cobrem cicatrizes recebem um nome bastante significativo: tatuagens do bem. Uma ação que registra na pele a condição que já acompanha a rotina de quem a vive.

O que são tatuagens do bem?

Determinar o início dessa campanha é um pouco incerto, mas as primeiras iniciativas registradas foram nos Estados Unidos, a partir de 2006, em que profissionais começaram a oferecer tatuagens sobre doenças a preços reduzidos.

Houve também o caso de David Allen, um tatuador que transformou o corpo de pacientes mastectomizadas em obras de arte, sendo um dos precursores e incentivadores de outros projetos semelhantes.

(Foto: allentattoo.com)

Há alguns anos surgiram movimentos de tatuadores que reconstruíram as auréolas de mulheres mastectomizadas. A repercussão foi tamanha que hoje há uma plataforma chamada P.ink.org para reunir tatuadores especializados em tatuagens após a mastectomia ou cirurgia na mama e conectá-los às pacientes.

As iniciativas, talvez, tenham sido inspirações para os outros movimentos que se estenderam pelo mundo e que, agora, começam a ascender, espalhando traços e cores de afeto.

Essas iniciativas motivam a participação de diversos estúdios e tatuadores independentes, que ajudam a tornar o mundo um pouco mais colorido — mesmo que a tatuagem seja apenas preta.

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A iniciativa de aliar a arte de rabiscar a pele com a vontade de ajudar alguém fez nascer a campanha nacional “Tattoo do Bem”, que divulga tatuagens envolvendo desenhos ou frases alertando sobre a presença de alergias, intolerâncias ou doenças, cobrindo cicatrizes ou marcas na pele.

Para algumas pessoas, ter problemas de saúde, como diabetes ou alergias graves ainda pode ser uma condição difícil de lidar.

Dezenas de pacientes relatam que ainda preferem não falar sobre as doenças, seja pela dificuldade em aceitá-la, ou pela reação das outras pessoas. Sentir pena ou constrangimento perante às condições do outro pode ser bastante prejudicial.

Quando as tatuagens de alerta começaram a ganhar visibilidade, portadores de diferentes doenças entraram no projeto. Vale lembrar que cada projeto atende públicos diferentes e o objetivo das campanha é, geralmente, alertar sobre condições que possam colocar a vida do paciente em risco.

Entre os alertas tatuados, estão o uso de medicamentos anticoagulantes, a epilepsia, o HIV, o Alzheimer e hepatite C.

Índice – neste artigo você vai encontrar as seguintes informações:

  1. O que são tatuagens do bem?
  2. Por que fazer uma tatuagem de alerta médico?
  3. Tatuagem para ajudar no controle da glicemia
  4. Quem pode fazer?
  5. Como escolher a tatuagem?
  6. Como é feita?
  7. Tatuagem dói?
  8. Quais os riscos?
  9. Cuidados para a primeira (ou próximas) tattoos
  10. A arte de quem desenha
  11. A evolução das tatuagens

Por que fazer uma tatuagem de alerta médico?

As motivações são variadas, mas geralmente envolvem uma demonstração de boa convivência com a doença ou alergia, além de um cuidado em casos de emergência.

O melhor é nunca precisar usá-la como alerta ao médico, mas imagina se o paciente com alergia grave é hospitalizado inconsciente?

Antes mesmo da equipe fazer uma coleta de sangue, a tatuagem no braço avisando sobre a sensibilidade pode evitar uma série de complicações.

E já que não se pode escapar da doença, por que não conviver de modo artístico com ela?

Foi o que fizeram Sofia Azevedo e Giovani Marchalek. Eles não se conhecem, mas carregam em seus braços o símbolo de uma rotina compartilhada: a diabetes tipo 1.

Sofia descobriu a diabetes há 13 anos. A tatuagem é mais recente, feita no finalzinho de 2016. O desejo de fazer o desenho veio da precaução, pois em uma emergência seria bem mais rápido identificar a doença.

Sem esquecer a estética, Sofia deu um toque bastante pessoal ao desenho, mostrando que cuidado e beleza estão alinhados. Na verdade, pintados em seu braço. (Foto: Reprodução)

Precauções são medidas importantes para pacientes com diabetes, pois alguns minutos podem ser determinantes para evitar que uma hipoglicemia se agrave severamente. Sofia nunca precisou utilizar a função emergência da tatuagem, mas agora os 3 — paciente, tatuagem e tratamento — caminham juntos.

Os projetos e campanhas que oferecem tatuagens de alerta são ainda recentes, mas têm se popularizado. Tanto que Sofia já tinha ouvido falar da proposta, mas só depois de um tempo fez a sua em São Paulo.

Foi também o caso de Giovani, 39, que resolveu unir o útil ao agradável, como ele mesmo define, pois o gosto pela arte se uniu a diabetes, que o acompanha há 30 anos.

(Foto: Reprodução)

Ter um desenho ou uma referência a doença desperta a curiosidade das pessoas. Além do alerta de saúde, é uma forma de desmistificar a diabetes, pois ela ainda é encoberta com muitos dilemas e prejulgamentos.

Mesmo que a diabetes tipo 1 seja bem mais comum em crianças e jovens por condições do próprio organismo, muita gente continua associando a doença à idade e ao consumo de açúcar. Mas na verdade, o tipo 1 é uma condição autoimune.

Também é frequente que as pessoas, em geral, mantenham uma ideia um tanto inadequada de que diabetes é um diagnóstico catastrófico e incapacitante.

Normalmente são essas pessoas que mais se chocam ao perceber os braços e pulsos jovens e saudáveis marcados pelo símbolo da doença.

Mas essa visão de que diabetes é uma doença da terceira idade está sendo alterada, graças aos próprios pacientes.

Uma das provas de que a abordagem e o modo que o portador de diabetes se autopercebe têm mudado é que existem vários grupos em redes sociais e aplicativos que reúnem portadores da doença para facilitar a interação, a informação e a quebra de preconceitos. Muitos dos participantes são jovens, com menos de 30 anos e vários têm a tatuagem.

Mas não são apenas os tatuados que carregam boas histórias, afinal, quem faz o desenho na pele alheia também fica um pouco marcado.

Tatuagem para ajudar no controle da glicemia

Tatuar o símbolo da diabetes pode auxiliar em momentos de emergência, mas já imaginou se um simples desenho — como um pequeno círculo do pulso — pudesse alertar sobre as taxas de glicemia e, portanto, ser um auxiliador no controle da doença?

É isso que pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e de Harvard podem oferecem à sociedade em pouco tempo. A denominada tatuagem biossensorial é realizada com uma tinta especial, com componentes químicos que mudam de cor conforme a taxa de glicemia.

Além da glicemia, elas podem ser úteis para detectar alterações no sódio e no pH sanguíneo, indicando desidratação ou alterações do sangue.

Paciente com diabetes precisam fazer várias picadas no dedo durante o dia para medir as taxas de glicemia. Assim, a tattoo acompanha constantemente os valores e evita que o teste glicêmico através do medidor precise ser feito.

Mas o paciente não vai poder escolher muitas cores, já que para detectar os valores da glicose, os biossensores mudam de azul para marrom se houver hiperglicemia (indicando que a pessoa precisa de insulina).

Já se houver mudanças no pH, o desenho irá alterar de roxo para rosa e a tattoo biossensorial de sódio precisa ser iluminada por uma luz negra, fazendo com que ela emita tonalidades verdes mais ou menos vibrantes, de acordo com a concentração de sal no sangue.

A novidade ainda está em fase de pesquisas, mas promete ser um auxílio mais charmoso no tratamento e acompanhamento das doenças.

Quem pode fazer uma tatuagem do bem?

Basta digitar em uma rede social a hashtag #tattoodobem para descobrir dezenas de trabalhos e iniciativas que reforçam a afetividade.

O público-alvo é variado, podendo ser pacientes portadores de doenças ou alergias, mulheres vítimas de câncer de mama, pessoas que passaram por cirurgia, mulheres que sofreram violência física ou quem possui cicatrizes de automutilação.

Cada tatuador destina seu tempo a atender uma causa. Conheça mais sobre algumas opções:

Mulheres que fizeram cirurgia de câncer de mama

(Foto: p.ink.org)

O câncer de mama é uma doença que sensibiliza a paciente e as pessoas próximas. A intensidade da situação, muitas vezes, compromete a rotina, inclusive depois que a doença é estabilizada ou tratada.

E nem sempre é apenas o estado físico que é acometido, pois as condições emocionais também são fragilizadas. A autoestima, o modo de se perceber e lidar com a vida podem ser impactados.

Porém, certamente as histórias inspiradoras são carregadas pelas pacientes na memória. Elas levam nos olhos e, algumas vezes, na pele as lembranças — não da doença, mas da superação.

Para as pacientes que foram submetidas à cirurgia, a tatuagem do bem visa cobrir a cicatriz. Seja para adicionar uma boa memória à marca de resistência, seja para esquecer um pouco os momentos difíceis, os desenhos se tornam um tracejar de alma.

Mulheres que fizeram mastectomia

Em alguns casos, é preciso que a paciente com câncer retire a mama para evitar o agravamento da doença. O procedimento é chamado de mastectomia e, geralmente, o impacto emocional tende a ser maior.

Então, através de um desenho simples — porém de imensurável valor —, se devolve a autoestima da mulher: um pequeno círculo no tom adequado da pele da paciente, na região do peito. Uma auréola desenhada vem junto com um acalanto tatuado no coração.

A micropigmentação quase não dói, pois a área tende a ter menos sensibilidade devido à mastectomia. O procedimento leva cerca de 30 a 40 minutos e resulta em um pequeno círculo da região da mama. Apesar de simples, o desenho possui um significado imensurável.

Alergias

As tatuagens que fazem alertas sobre sensibilidade precisam ser de fácil leitura e em um local visível. Aliás, esse é o único jeito de colocar na pele dos pacientes a substância que causa alergia.

Alergias a AAS, anti-inflamatórios, penicilina, alimentos ou insetos são alguns avisos tatuados e que podem salvar vidas ou reduzir riscos em atendimentos emergenciais.

Doenças

Diabetes e pressão baixa, quando bem acompanhadas e tratadas, não impedem que o paciente tenha uma boa qualidade de vida. Mas nem sempre é possível evitar os casos de emergência.

Às vezes um simples desenho ou alerta tatuado pode facilitar na identificação das causas durante uma emergência, como durante uma hipoglicemia (queda de açúcar no sangue).

Mesmo que o controle seja bem rigoroso, todos os pacientes com diabetes estão suscetíveis à queda drástica da glicemia. Só que a condição nem sempre é fácil de ser reconhecida por quem não conhece a doença.

Como as hipoglicemias precisam de procedimentos diferentes dos desmaios comuns, uma tatuagem pode evitar complicações, como convulsões e até o coma.

Automutilação

(Foto: p.ink.org)

O tema ainda é bastante sensível e envolve uma alta carga emocional. As dores e angústias da vida, às vezes, ficam marcadas na pele. As tatuagens de cobertura se costuram à pele vezes para apagar a dor, vezes para lembrar da resistência.

Há alguns anos, houve a popularização da tatuagem de ; (ponto e vírgula). O sinal era feito para demarcar uma etapa de recuperação após a tentativa de suicídio. A escolha do ponto e vírgula remete à noção de pausa e recomeço.

Há uma tendência das pessoas que se mutilam ferirem os braços, na região dos pulsos ou antebraço. Como as marcas e cicatrizes ficam, em geral, bastante expostas para os outros e para o próprio paciente, os desenhos tentam amenizar as memórias.

Como escolher a tatuagem?

Se você tem cicatrizes ou possui alergias ou doenças que deseja marcar na pele, é importante conversar com seu médico antes de decidir investir no desenho.

Depois de tudo acertado, é hora de conversar com o tatuador ou tatuadora. Juntos, vocês irão escolher a arte e avaliar as possibilidades, principalmente se for a cobertura de uma cicatriz.

As indicações e sugestões serão dadas pelo profissional, que precisa adequar o desenho à marca do corpo (nos casos de cicatrizes).

Existem inúmeros catálogos de significados de tatuagem, que compreendem os mais diversos desenhos. Você pode encontrar uma referência que goste, ter um desenho que queira fazer devido ao significado ou pedir para o profissional fazer uma arte exclusiva.

Além disso, busque conhecer o trabalho do profissional para ver se o estilo e o traço se adequam ao que você deseja.

Como é feita?

Basta o tatuador iniciar algum trabalho e uma boa parte das pessoas já percebe do que se trata: uma pele sendo rabiscada. Se você já fez uma tatuagem ou já foi em um estúdio, sabe que o barulhinho da máquina é bastante reconhecível.

A nossa pele é composta por 3 camadas: a epiderme, a derme e a hipoderme, indo da mais externa à mais interna. Quando as microagulhas carregadas de tintas penetram cerca de 2 milímetros a camada mais superficial (epiderme), a tinta é depositada na derme, que é camada do meio.

É preciso que a tinta seja acomodada nessa parte do meio, pois as células da derme não sofrem renovação. Se a tatuagem fosse feita na camada mais externa, seria rapidamente apagada, quase como um desenho feito à caneta.

As agulhas fazem pequenas lesões e o organismo inicia um processo inflamatório para que seja possível cicatrizar a região.

Ou seja, as células do sistema imunológico (glóbulos brancos) vão se mobilizar e agir sobre a ferida. Para realizar a proteção, as células englobam as partículas de tinta para tentar combater a inflamação.

Porém, essas partículas são grandes demais para serem eliminadas pelas células de defesa (que são chamadas de macrófagos).

O resultado é que a tinta acaba absorvida por células especiais chamadas de fibroblastos que ficam paradas na região que a tattoo foi feita. Ou seja, a tinta se eterniza abaixo da epiderme.

Tatuagem dói?

A sensibilidade da dor é diferente para cada pessoa. Certamente você conhece alguém que achou bastante dolorida a sessão e outra que saiu do estúdio planejando um retorno próximo. Talvez seja até você uma dessas pessoas.

Determinar quanta dor a pessoa vai sentir é difícil, mas existe um certo indicativo de onde as tatuagens doem mais.

Rosto, virilha, tornozelo, costela, parte interna das pernas e braços, mãos e pés tendem a ser regiões mais doloridas pela espessura da pele ou pela vascularização (quantidade de vasos sanguíneos na região).

Apesar da região dos seios ser dolorida, a reconstrução da aréola ou desenhos após a mastectomia são menos doloridos porque a região sofre uma perda ou redução de sensibilidade devido à cirurgia.

Quais os riscos?

(Foto: p.ink.org)

Os riscos da tatuagem envolvem infecção no local, contaminação por hepatite B e C, HIV ou outras doenças contagiosas, reação alérgica às tintas ou outras substâncias.

Por isso é importante escolher um profissional responsável, que esteja atento à qualidade dos produtos, à esterilização e descarte dos materiais.

Você também precisa cuidar da higienização após realizar a tattoo, limpando e protegendo a região adequadamente.

Se você possui alergia a substâncias diversas, converse com seu médico e com o tatuador ou tatuadora sobre as tintas que são utilizadas. Algumas podem conter ferro, alumínio, manganês e cádmio, capazes de desencadear reações alérgicas.

Nas pessoas que possuem alergia a corantes, como os utilizados em alimentos ou roupas, pode ser que haja alguma reação alérgica à tinta da tatuagem. É possível solicitar que o tatuador faça um teste antes da sessão.

Apesar de alguns casos demorarem dias ou meses para manifestar a reação, o procedimento pode evitar reações imediatas. Mas se não houver alergias diretas ao componente da tintas ou látex, por exemplo, os casos em que ocorrem reações costumam ser pouco frequentes ou severos, sendo controlados com o uso de antialérgicos.

Poucos quadros comprometem de forma grave a pele do paciente, mas nesses casos pode ser preciso remover o desenho com a técnica de remoção à laser.

Pacientes com diabetes devem conversar com seus médicos antes de realizar o procedimento. Se a glicemia for bem controlada, a maioria dos pacientes faz a tatuagem e não apresenta alterações de pele durante a cicatrização.

Mas os cuidados são necessários pois a diabetes pode dificultar a cicatrização e favorecer a infecção do local. No entanto, se tomadas as devidas precauções e medidas recomendadas, o procedimento em pacientes com diabetes representa os mesmos riscos que em pessoas sem a doença.

Cuidados para a primeira (ou próximas) tattoos

(Foto: p.ink.org)

Os cuidados são sempre recomendados pela tatuadora ou tatuador que fará o trabalho. No entanto, algumas dicas podem auxiliar nos cuidados e cicatrização.

Geralmente, as mulheres podem apresentar mais sensibilidade à dor nos dias próximos ao período menstrual. Tanto alguns dias antes ou alguns dias depois podem acentuar o desconforto, então se você estiver com medo da dor, prefira marcar em outras datas.

Prepare a sua pele para a tatuagem usando hidratantes na semana que antecede a tattoo. Além de deixar a pele mais bonita, ela vai lidar melhor com as lesões causadas pela agulha.

Os cuidados com o sol também são essenciais. É recomendável que você não tome sol durante alguns dias após fazer a tatuagem e, preferencialmente, evite exposição solar nos dias anteriores à sessão.

Para quem possui cicatrizes, mesmo sem ter nenhuma tatuagem, é importante lembrar de usar protetor solar com frequência, pois o sol pode afetar a pele, produzindo uma pigmentação alterada da região cicatrizada, evidenciando ainda mais as marcas.

E depois de fazer a tattoo, o uso de protetor solar na região deve ser intensificado para evitar que o desenho desbote.

Se você fizer a tatuagem com a pele queimada ou bronzeada pelo sol, pode ser que o resultado do desenho seja afetado, pois após tomar sol, o tecido pode descamar.

Os cuidados com a alimentação também são essenciais, então beba bastante líquido e nos dias próximos da tatuagem (antes e depois). Prefira alimentos mais leves, com pouca gordura, e evite o consumo de álcool.

Assim seu desenho vai ficar mais bonito e a cicatrização vai ser mais acelerada.

A arte de quem desenha

(Foto: Reprodução)

O estúdio Bronco Tattoo, em Curitiba, atende diferentes estilos. Quando o cliente chega, em algumas horas, eternizam-se em sua pele frases, dragões, silhuetas ou uma infinidade de outras possibilidades.

E Tamy Antunes, que já esboçou linhas e cores intensas, rabiscou flores e personagens ao longo dos 2 anos em que atua como tatuadora, cria também histórias de afeto.

Desde o início de 2018, quando entrou para a corrente da Tattoo do Bem, a tatuadora doa um pouco do seu talento para pigmentar histórias.

Inicialmente, o projeto foi uma parceria com um estúdio de São Paulo para o dia das mulheres, que visava atender as clientes com cicatrizes e oferecer um novo significado às suas marcas. Mas a procura foi tamanha, fazendo com que algo despertasse a necessidade de Tamy prosseguir com a iniciativa.

O projeto “Vamos ressignificar cicatrizes?” atende exclusivamente mulheres vítimas de violência doméstica e automutilação, fazendo com que os sinais de uma vida sejam lembranças melhores.

O surgimento e o impacto de projetos assim faz com que Tamy — e demais profissionais — ajude a esboçar um sem fim de histórias de luta, de recuperação e de resistência. Faz, também, com que as clientes carreguem em suas peles uma iniciativa de afeto.

Ainda que, por questões éticas e profissionais, a tatuadora não se envolva ou questione sobre as cicatrizes das clientes — afinal, tudo que permeia aquela pele, certamente, tem grandes relações íntimas e sensíveis — a cada desenho feito, um pedaço da trajetória do paciente é deixado no estúdio também.

Mesmo sem saber nada sobre quem se tatua, fica o resultado: um registro na pele para toda a vida e um projeto que emociona.

Às vezes o desejo é cobrir, às vezes o desejo é tornar as marcas um símbolo de resistência. Não importa o intuito, certamente há um relato emocionante misturado às tintas, ao traço, às cores da tattoo.

Para Tamy, o projeto que ainda é pouco conhecido, traz imensos impactos à autoestima, ao reconhecimento e pertencimento do cliente. Isso porque cobrir a pele com as cores escolhidas dá à cliente um modo alternativo de lidar com tudo aquilo que nem sempre é possível escolher.

Os preços para a campanha são reduzidos — sendo cobrado apenas o valor do material ou nem isso — e cada profissional atende conforme suas determinações. Há quem participe de eventos ou estipule períodos para atender especificamente esses clientes, há também quem mantenha um fluxo contínuo de tatuagens especiais.

Tamy, por exemplo, trabalha com atendimento durante todo o ano. Para conhecer o trabalho que encanta e inspira, você pode entrar em contato diretamente com a tatuadora pela sua rede social.

A pele que toca é também tocada. É marcada.

A evolução das tatuagens

A foto acima, de 1907, mostra Maud Stevens Wagner, que nasceu em 1877 e era contorcionista e acrobata. A imagem revela que cobrir o corpo com tatuagens não é algo tão recente.

Além de carregar diversos desenhos, Maud aprendeu a técnica hand-poked, que não usava a máquina de tatuagem, e ficou conhecida como a primeira mulher a se tornar tatuadora nos Estados Unidos.

Marcar a pele é um modo de delinear uma expressão própria, trazer no corpo uma história que nem sempre se escolheu viver, mas se escolheu mostrar ao mundo. Mas não foi sempre assim, pois os desenhos eternizados na pele já tiveram diferentes funções e significados.

Não se sabe exatamente o porquê, mas marcar o corpo parece ser bastante atrativo para o ser humano desde as épocas mais antigas.

Seja relacionada com as tradições culturais, culto a deuses ou rituais, ter o corpo marcado pela tinta é uma maneira de registrar a história individual e social.

Há indicativos de que a primeira tatuagem tenha sido feita há cerca de 3500 anos. Isso porque foram encontradas múmias de mulheres egípcias com o abdômen marcado por traços e inscrições. Não se sabe exatamente as motivações, mas acredita-se que estejam ligadas à crença de que a pele poderia perder a cor com o passar do tempo, por isso era preciso pintá-la e retocá-la.

Depois disso, desenhos na pele já assumiram diferentes utilidades, envolvendo cultos religiosos, separação de grupos sociais, camuflagem e até mesmo a marcação de prisioneiros e escravos, como ocorreu em Roma, na época entre 509 a.C. e 27 a.C.

Com o passar do tempo, povos indígenas, egípcios, africanos, marinheiros, presidiários, roqueiros e jovens rebeldes do anos 1970 experimentaram, empregaram e atribuíram diversos sentidos coletivos (e individuais) à ação de enfeitar o corpo.

Houve um tempo em que a tatuagem foi considerada imprópria pelo cristianismo, sendo proibida à sociedade. Somente em 1769 é que os desenhos voltaram a ganhar espaço, quando James Cook foi à Polinésia e descobriu que mulheres e homens pintavam e decoravam os corpos.

Apesar de não ser aceita em todos os grupos religiosos, os desenhos não criam mais tantas polêmicas no meio. Exemplo disso foi o Papa Francisco que, em março de 2018, foi questionado sobre as tatuagens e disse que a sociedade (e os grupos religiosos) não devem ter medo, pois são parte de um pertencimento (a grupos, a épocas, a escolhas).

Foi em 1891, com a invenção da máquina de tattoo elétrica, que o trabalho se difundiu ainda mais pela Europa e pelos EUA, até conquistar um status de individualidade, rebeldia, demonstração de afeto, pertencimento, estética ou quaisquer outros significado que o tatuado queria atribuir a ele.

O ser humano, mesmo que participante de uma cultura, também deseja traçar sua percepção do mundo. A tatuagem, nesse sentido, é única.


Os traços e cores preenchem a pele dos tatuados. Sejam pequenos ou grandes, espalhados, únicos ou se misturando aos outros desenhos, as tatuagens decoram o corpo das pessoas ao longo dos séculos.

Mas entre o barulho constante das máquinas de tatuagem, entre as cores intensas e os estilos variados, surgem iniciativas que marcam a pele, marcam a vida.

Ainda que, de modo geral, as tattoos possuam algum valor bastante especial à pessoa, há iniciativas capazes de atribuir ainda mais significado ao desenho.

Campanhas como a Tatuagem do Bem envolvem profissionais que querem doar um pouco do talento, da arte, do tempo em prol de uma causa que previne emergências ou contribui com a autoestima.

A tatuagem é uma ação que caminha com a sociedade há séculos e constantemente ganha novas interpretações, novos usos, novas formas de ser significada. Agora, ganha novos traços também: linhas de afeto, de solidariedade. Entre tatuadores e clientes se esboçam vivências únicas.

Para saber outras novidades sobre saúde e bem-estar, acompanhe o Minuto Saudável!

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1 comentário

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  1. que bonitinho. EU falei mal quando minha filha fez uma tatuagem, mas agora eu tenho uma cicatriz e fiquei com vontade cubrir também

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