Musicoterapia: o que é, para que serve, como funciona e benefícios

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A música nunca esteve tão presente em nossas vidas quanto nos dias atuais. A tecnologia, a capacidade de gravar e editar e os serviços de streaming fizeram com que a música se tornasse um aspecto comum do nosso cotidiano.

Basta olhar para as pessoas andando nas ruas, nos terminais de ônibus ou estações de trem. Com uma rápida passada de olhos já é possível ver muitas delas com fones de ouvido pendurados.

Lojas, restaurantes e até mesmo elevadores se utilizam de música de fundo para tornar o ambiente mais agradável.

Essa disponibilidade e acessibilidade tão simples talvez tenha nos tornado acomodados a ponto de nem prestarmos mais tanta atenção à música quanto antigamente, quando as pessoas eram obrigadas a se dirigir à teatros para poder apreciar uma peça musical.

Refletimos pouco à respeito dessa arte, que se tornou uma indústria de consumo gigantesca, e muitos de nós nunca paramos para pensar nos efeitos que a música pode ter em nossas vidas.

Tão pouco que o potencial terapêutico da música é desconhecido e sequer foi cogitado por muitos. É aí que mora a musicoterapia, uma técnica terapêutica que pode ajudar pessoas com dificuldade de comunicação, depressão e até mesmo problemas de memória!

Pois, como diria Rubem Alves (1933-2014), um educador, psicanalista, teólogo e escritor brasileiro:

“Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos de volta um passado. Lembramo-nos de lugares, objetos, rostos, gestos, sentimentos. (…) Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu.” — Trecho do livro “Na Morada das Palavras” (Papirus Editora, 2003).

O que é musicoterapia?

A musicoterapia é uma técnica terapêutica que se utiliza da música para tratar seus pacientes. Trata-se de um híbrido entre arte e saúde e serve para promover a comunicação, expressão e aprendizado. Além disso, busca facilitar a organização e a forma de se relacionar dos seus pacientes.

Pode ser utilizado em qualquer área que haja demanda, seja promovendo saúde, reabilitando ou atuando como medida de prevenção ou simplesmente para melhorar a qualidade de vida.

Além disso, existe a musicoterapia comunitária, ou social, que visa empoderar grupos e possibilitar o engajamento e organização necessários para que os indivíduos do grupo tenham plenas capacidades de enfrentar os desafios comuns da vida em sociedade.

Segundo a Federação Mundial de Musicoterapia, “a musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e restabelecer as funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida”.

Índice – neste artigo você vai encontrar as seguintes informações:

  1. O que é musicoterapia?
  2. Anatomia do cérebro
  3. Como a música age no cérebro?
  4. Como funciona a musicoterapia?
  5. Benefícios
  6. Musicoterapia no Brasil
  7. Oliver Sacks — “Eu penso em nós como sendo uma espécie musical”
  8. Instituto Music & Memory: musicoterapia para idosos
  9. A história da musicoterapia

Anatomia do cérebro

Para que possamos entender de maneira definitiva como a música age no nosso cérebro, precisamos entender um pouco da anatomia desse órgão.

Por se tratar de um aparelho muito complexo, vamos nos ater às regiões do cérebro que sofrem influência direta da música.

Seja quando estamos tocando um instrumento ou quando estamos passivos, somente ouvindo uma música, diversas áreas do cérebro se ativam e começam a funcionar.

Confira na imagem e nos tópicos explicativos abaixo:

Corpo caloso (em laranja)

O corpo caloso é uma estrutura cerebral que conecta os dois hemisférios cerebrais, direito e esquerdo. Sua função é a transferência de informações de um hemisfério para o outro. Quando sob influência de música, essa área se ativa mais do que o normal.

Córtex sensorial (em vermelho)

O córtex sensorial é responsável pelo processamento de informações sensoriais, como tato, visão e audição. Ele consiste de uma série de neurônios sensoriais que traduzem as informações coletadas para o nosso cérebro.

Quando sob influência de música, essa área do cérebro não somente processa parte da informação auditiva como também controla a resposta tátil quando tocamos instrumentos ou quando dançamos.

Córtex auditivo (em azul)

O córtex auditivo é quem “escuta” os sons e os processa na nossa mente. É quem percebe as variações de tom, ritmo e melodia.

Córtex motor (em amarelo)

O córtex motor também está imensamente envolvido em todo o processo de resposta tátil quando dançamos e tocamos instrumentos.

Córtex pré-frontal (em verde)

O córtex pré-frontal é a parte anterior do lobo frontal do cérebro e está relacionada ao planejamento de comportamentos e pensamentos complexos, expressão da personalidade, tomada de decisões e modulações de comportamento social.

A música ativa fortemente essa área do cérebro e, como muitos pesquisadores indicam uma ligação entre a personalidade de uma pessoa e o córtex pré-frontal, é possível especular com certo respaldo científico sobre a influência da música na personalidade.

Córtex visual (em roxo)

O córtex visual, como o próprio nome nos leva a deduzir, é responsável pelo processamento de informações visuais. É uma área bastante ativa quando sob influência de música. Isso pode ser constatado não somente através de estudos com máquinas de ressonância magnética, como por nós mesmos, em casa. Afinal, quem foi que nunca ouviu uma música e visualizou uma cena na própria cabeça, não é mesmo?

Cerebelo (em rosa)

O cerebelo é a parte do cérebro responsável pela manutenção do equilíbrio, pelo controle do tônus muscular, dos movimentos voluntários e dos processos de aprendizagem motora.

É de se esperar que essa área do cérebro esteja bastante ativa quando estamos sob influência de música, seja dançando, cantando ou tocando um instrumento, tendo em vista que todos esses atos requerem o uso das nossas funções motoras.

Hipocampo (em cinza)

O hipocampo é uma estrutura localizada nos lobos temporais do cérebro humano. É a principal sede da memória, sendo um importante componente do sistema límbico e de fundamental relevância para a navegação espacial.

A influência da música no hipocampo é outra coisa que pode ser facilmente constatada por qualquer um de nós. As músicas, por estarem intimamente ligadas à emoções, despertam, muitas vezes, memórias profundas.

Quem nunca ouviu aquela música que te fez lembrar do ex parceiro e ser atingido por um sentimento intenso de melancolia, que atire a primeira pedra.

Amigdala (em marrom)

As amígdalas são um grupo de neurônios que, juntos, formam o polo temporal do hemisfério cerebral. Essa região do cérebro faz parte do sistema límbico e é um importante regulador do comportamento sexual, do comportamento agressivo, das respostas emocionais e da reatividade a estímulos biológicos.

É principalmente essa região do cérebro que é mais afetada quando ouvimos a uma música que nos toca profundamente.

Como a música age no cérebro?

A música evoca emoções intensas e age no cérebro ativando todas essas regiões citadas no tópico anterior.

Um estudo publicado em 2014 na revista PLoS One analisou como o cérebro funciona quando sob influência de música.

Nesse estudo, os pesquisadores colocaram músicos de jazz para tocar seus instrumentos enquanto faziam uma ressonância magnética do cérebro. Essa prática serviu para averiguar quais partes do cérebro se acendiam quando os músicos estavam tocando.

Além de se constatar que todas aquelas regiões foram de fato ativadas, os pesquisadores pediram que os músicos improvisassem em conjunto. Isso possibilitou a constatação de que o cérebro, quando estamos improvisando uma música em conjunto, funciona de uma maneira muito similar a quando estamos conversando oralmente com outra pessoa.

Essa descoberta serve de respaldo para musicoterapia e seus benefícios para processos comunicativos, visto que as mesmas áreas de comunicação se acendem tanto quando estamos conversando como quando estamos tocando algum instrumento com outra pessoa.

Além disso, a música ativa diversas regiões do cérebro responsáveis pela memória, como o hipocampo. Isso faz com que ela possa ser utilizada de forma terapêutica em pacientes que sofrem com doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. Veja mais no tópico “Instituto Music & Memory”.

Como funciona a musicoterapia?

É bastante difícil descrever o que acontece em uma sessão de musicoterapia, pois existem diversas abordagens de tratamento.

Ele pode ser realizado com o paciente passivo, somente escutando o musicoterapeuta tocando, ou ativo, ou seja, participando e fazendo música com o terapeuta.

Essas sessões de terapia são muito úteis para ajudar no desenvolvimento de habilidades comunicativas e de autoexpressão.

Também é possível da musicoterapia ser utilizada em grupos, em que todos os membros tocam algum instrumento em conjunto e participam da execução de uma música. Segundo os estudos de caso, as sessões ajudam os pacientes a se soltarem mais e expressarem as próprias emoções com mais facilidade.

Para crianças com autismo

O autismo é uma doença que dificulta muito os processos de comunicação da criança. É para tratar esse problema que a musicoterapia tem sua valia.

Em uma sessão com uma criança autista, os musicoterapeutas normalmente decidem tocar instrumentos com a criança, para estimular que ela se expresse através da música. A partir daí, os terapeutas podem escolher tanto musicar os sons que a criança emite como também simplesmente deixá-la livre para tocar do jeito que bem entender.

Nota-se, ao longo da sessão, uma melhora da criança. No começo, ela tende a tocar notas, melodias e ritmos sem muito sentido lógico musical, mas, conforme os terapeutas vão se aproximando da criança, ao final da sessão, é capaz de eles estarem tocando notas similares ou então tocarem no mesmo ritmo.

Essa é uma forma de comunicação impressionante. Ao tocarmos junto com outras pessoas, as áreas do cérebro ativadas são as mesmas de uma conversa. Portanto, o potencial terapêutico da música nesses casos se torna praticamente inegável.

Benefícios da musicoterapia

Existem diversos benefícios que podem ser proporcionados pela musicoterapia. Listamos aqui os principais cientificamente comprovados:

Doenças cardíacas

Segundo um review publicado pela Cochrane Library, uma organização sem fins lucrativos parceira de pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o simples ato de ouvir música pode melhorar as frequências cardíaca e respiratória, além da pressão sanguínea em pacientes com Doença Arterial Coronária (DAC).

Ainda são necessários mais estudos para comprovar a real eficiência e aplicabilidade de musicoterapia para pacientes com DAC, mas a pesquisa indica que a música ajuda a reduzir a pressão sanguínea, melhorar a frequência cardíaca e diminuir os níveis de estresse, sendo ela uma peça de Mozart ou um show do Exaltasamba.

Transtornos neurológicos

Apesar da musicoterapia já ter sido usada de maneira persistente para tratar diversos problemas psicológicos, foi somente nos anos 1980 que pesquisas empíricas (que se apoiam em experimentos) começaram a ser feitas nesse campo.

Desde então, diversos estudos na área vêm sido desenvolvidos, levando em conta diversas patologias. Até hoje, a musicoterapia se mostrou mais eficaz no tratamento de sintomas negativos, como a ansiedade e o isolamento.

AVC

A música age em diversas razões do cérebro, razão pela qual se mostra tão efetiva no tratamento de vítimas de derrames. Isso acontece porque a música é capaz de despertar emoções e estimular interações sociais, auxiliando na recuperação do paciente.

Demência

É justamente por ativar tantas áreas do cérebro e de maneira tão intensa que a música serve como via terapêutica para tratar sintomas como a demência, tão comum em doenças como o mal de Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas.

Ao escutar música, o paciente ativa diversos padrões neuronais (sinapses) que não eram estimulados há muito tempo, fazendo com que a pessoa que está sofrendo com a demência “acorde”, de certa forma.

Esse tipo de terapia tem sido muito empregada nos Estados Unidos e vêm ganhando bastante popularidade nos últimos anos.

Amnésia

Alguns sintomas da amnésia foram amenizados através de diversas interações com a música, seja quando o paciente toca algum instrumento, ou quando está passivo, somente ouvindo uma canção.

Um caso famoso de paciente amnésico que se beneficia da música até os dias de hoje é o do musicólogo, maestro e tenor Clive Wearing, que veremos com mais detalhes no tópico “Oliver Sacks — ‘Eu penso em nós como sendo uma espécie musical’”.

Afasia

Existe uma técnica usada por musicoterapeutas e fonoaudiólogos chamada Terapia da Entonação Melódica, que serve para ajudar pessoas com distúrbios de comunicação causados por danos no hemisfério esquerdo do cérebro.

A técnica busca envolver habilidades de canto, estimulando as regiões não danificadas do hemisfério direito a “aprenderem” a falar. Nessa técnica, frases comuns são transformadas em frases melódicas.

No início, o paciente fala quase que cantando e aos poucos vai reaprendendo a entonação típica e os padrões rítmicos comuns da fala do dia a dia.

Autismo

O autismo, também conhecido como Transtorno do Espectro Autista, é um transtorno que causa problemas no desenvolvimento da linguagem, nos processos de comunicação, na interação e no comportamento social das crianças.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 70 milhões de pessoas em todo mundo possuem algum grau de autismo, sendo que esse número, só no Brasil, ultrapassa os 2 milhões.

Apesar de não possuir cura e de suas causas serem incertas, crianças com autismo podem se beneficiar bastante da musicoterapia, pois a utilização de instrumentos pode servir como uma importante ferramenta para incentivar a comunicação e a autoexpressão, trazendo qualidade de vida para o portador da doença.

Vida social

A musicoterapia estimula o potencial criativo e a capacidade comunicativa, mobilizando aspectos psicológicos, biológicos e culturais. É aí que a musicoterapia comunitária ou social entra.

Essa modalidade de musicoterapia busca empoderar grupos e possibilitar engajamentos, troca de experiências entre pacientes, para que eles possam se organizar e realizar todos os enfrentamentos necessários para uma vida social de maior saúde.

Musicoterapia no Brasil

A musicoterapia é bastante utilizada no Brasil. Por se tratar de um híbrido entre arte e saúde, os profissionais da área, os musicoterapeutas, se formam em cursos superiores oferecidos em escolas de arte, tendo em vista que, para praticar a profissão, é necessário ter um domínio avançado de instrumentos musicais como o piano e o violão.

Os musicoterapeutas trabalham em clínicas, hospitais psiquiátricos, instalações de reabilitação, ambulatórios, centros de tratamento de creche, agências que atendem pessoas com problemas de desenvolvimento, centros de saúde mental, centros de idosos, instalações correcionais, escolas e diversos outros lugares.

Além disso, a musicoterapia é ofertada gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) desde janeiro de 2017. A adoção da técnica visa oferecer um tratamento mais humanizado, sendo que o Ministério da Saúde também passou a oferecer sessões de arteterapia, meditação, quiropraxia e outras técnicas alternativas.

Oliver Sacks — “Eu penso em nós como sendo uma espécie musical”

Oliver Sacks (1933-2015) é um neurologista britânico e autor de diversos best sellers. Ele atuou como neurologista na cidade de Nova York a partir dos anos 1960 e são as histórias dos seus pacientes que lhe serviram de inspiração para escrever a maioria dos seus livros, em grande parte relatos clínicos da vida de seus pacientes.

Além disso, teve um papel importantíssimo na criação e fundamentação científica do Instituto para Música e Funções Neurológicas (em tradução livre, do inglês “Institute for Music and Neurologic Function”).

Para dar uma ideia de quem é Oliver Sacks, veja o vídeo abaixo, em que o médico explica um pouco sobre a importância da música em sua vida pessoal e profissional e relata o caso de uma de suas pacientes com mal de Parkinson.

Atenção! Ative as legendas: clique no ícone “definições” (seu símbolo é uma engrenagem) e depois em legendas “Português – PORT-BR”.

O caso de Clive Wearing

Clive Wearing foi um musicólogo, maestro e tenor estadunidense que desenvolveu um severo caso de amnésia, adquirida após contrair encefalite causada por um vírus da herpes que atacava o seu Sistema Nervoso Central (SNC).

A doença que o acometeu foi tanto anterógrada quanto retrógrada. Isso significa que ele tem perdido acesso à memórias do passado e que também não é capaz de formar memória recente.

Segundo os familiares, é como se Wearing estivesse sempre achando que acabou de acordar de um coma, pois não entende o salto temporal que ocorreu desde a última memória à qual teve acesso.

É como se ele passasse os dias “acordando” a cada 20 segundos, “reiniciando” sua consciência, já que o período de tempo de sua memória de curto prazo é de mais ou menos 30 segundos.

O interessante no caso de Wearing, entretanto, está no fato de ele conseguir tocar piano e outros instrumentos sem problemas, por mais que a amnésia o ataque. Clive não se lembra de todo o seu processo de educação musical, mas ainda toca seus instrumentos e conseguiria muito bem reger uma orquestra.

Para o Dr. Sacks, seu paciente continua tendo as habilidades de tocar instrumentos porque a sua memória procedural não foi danificada pelo vírus.

Apesar das memórias de acontecimentos simplesmente desaparecerem, memórias como a muscular continuam intactas, o que faz com que Wearing consiga, inclusive, aprender novas músicas, esquecer que as aprendeu, e executá-las no piano posteriormente.

Dr. P

Dr. P, o personagem que dá título ao livro mais famoso de Oliver Sacks, “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (1985), era um professor universitário, culto e com amplos conhecimentos musicais.

Do dia para a noite, Dr. P passou a não reconhecer os rostos das outras pessoas e a perceber rostos onde não existia nenhum. Ainda assim, ele trabalhava normalmente, reconhecendo seus alunos pela voz ou pelo jeito que tocavam.

Isso o levou a algumas situações embaraçosas, como acariciar um hidrante, pensando que se tratava da cabeça de uma criança.

Foi somente quando a diabetes de que sofria começou a piorar que ele achou que estava tendo algum problema de visão e se dirigiu ao oftalmologista. O médico disse que sua visão estava perfeita e que ele talvez estivesse passando por um problema neurológico, mandando Dr. P ir se consultar com Oliver Sacks.

Sacks ficou impressionado com o caso. Dr. P não conseguia reconhecer boca, nariz, nenhuma expressão facial.

O neurologista, então, depois da consulta, pediu que ele colocasse o sapato e Dr. P acatou. Passado algum tempo, quando Sacks voltou para a sala, Dr. P ainda não havia colocado o sapato e, quando indagado sobre o porquê, disse que achava já tê-lo posto.

Sacks constatou que Dr. P confundia o próprio pé com o sapato e a suspeita se tornou verdadeira quando, ao final de uma consulta, o paciente pegou sua esposa pela cabeça e a puxou para cima, achando se tratar de um chapéu.

Para continuar o diagnóstico, Sacks foi até a casa do paciente para jantar, onde constatou que ele não conseguia reconhecer familiares nas fotos de família, exceto se tivessem traços físicos muito característicos. Mas a verdadeira surpresa veio durante o jantar.

Dr. P cantarolava alegremente e comia de forma tranquila e regrada. Entretanto, quando sua canção foi interrompida de repente, foi como se todos os objetos que estivessem na sua frente desaparecessem. Dr. P sequer se lembrava que estava comendo.

Ao conversar com a família, constatou que essa era uma situação recorrente. Enquanto Dr. P cantarolava, conseguia executar suas funções normalmente e, quando era interrompido pelo barulho de uma campainha, por exemplo, ficava impossibilitado de realizá-las.

Sacks percebeu que o homem gradativamente substituiu sua representações visuais de realidade pela música, que agora regia desde as suas ações mais simples, como trocar de roupa de manhã.

Quando o Dr. P lhe perguntou o que fazer, vendo-se em uma situação sem saída, Dr. Sacks lhe recomendou simplesmente que continuasse vivendo através da música, preferencialmente usando uma música específica para cada ação, podendo assim realizá-las com certo grau de normalidade.

O caso de Tony Ciciora

Tony nunca foi um entusiasta da música. Nunca teve nenhum interesse em particular, nem aprendeu a tocar qualquer instrumento.

Tudo isso mudou em 1993, quando foi atingido por um raio. Desde então, ele tem se queixado de alucinações musicais. Ele escuta música o tempo todo na sua cabeça. Solos de piano, principalmente.

Dr. Oliver Sacks explica, em seu livro “Alucinações Musicais” (2007), que a pancada elétrica pode ter, de certa forma, “reconfigurado” algumas regiões do cérebro de Tony.

“Células nervosas supostamente foram danificadas ou ocorreu algum tipo de novo crescimento, de forma que certas partes do cérebro que antes estavam inativas se tornaram ativas de forma constante”, disse o médico em uma entrevista à revista alemã Der Spiegel, em 2008.

O mais impressionante, entretanto, com relação ao caso de Tony, é que ele não somente ficou com essas alucinações musicais, como também desenvolveu aptidão musical.

Não somente consegue tocar peças de Chopin e encher um auditório, como também faz suas próprias composições!

No vídeo abaixo, Ciciora executa uma de suas próprias composições, intitulada “Lightning Sonata” ou “Sonata para o Raio”, em tradução livre. Confira:

É interessante notar também que o título da obra que ele toca possui um duplo sentido que só pode ser entendido em inglês.

“Lightning Sonata”, ao pé da letra, significa “Sonata para o Raio”, entretanto, também pode ser entendido como “Sonata da iluminação”, uma vez que a palavra “lightning” assume esses dois significados, tornando o título da obra ainda mais poético.

Instituto Music & Memory: musicoterapia para idosos

Dan Cohen é muito fã de músicas dos anos 60. Quando começou a envelhecer, pensou em como seria sua vida se por acaso fosse parar em alguma casa da terceira idade. A ideia de ser privado de ouvir suas músicas favoritas o atormentava.

Foi então que teve a ideia de criar o Instituto Music & Memory (Instituto da Música e Memória), em Nova York, que tem como missão levar música para idosos em casas de repouso ao redor dos Estados Unidos.

E a forma que ele usou para fazer isso é que foi a mais interessante. Ao invés de reunir grupos de músicos para performar para os idosos, ele decidiu utilizar a tecnologia a favor de sua causa: usa ipods.

Cohen viaja os Estados Unidos distribuindo ipods individuais para os idosos e ensinando as equipes dos asilos a como fazer uma playlist individual para cada um dos pacientes.

Tratamento personalizado

O uso de playlists individuais permite que seja bolado um plano de tratamento musical próprio para cada paciente.

A busca de Cohen é por músicas que possuam algum significado especial para os pacientes, pois a música está diretamente associada a eventos e aspectos particulares da nossa vida.

“Mesmo com a perda da memória de curto prazo, as músicas que nós mais gostamos está intimamente atrelada ao nosso sistema emocional. E o interessante a se notar é que o nosso sistema emocional continua intacto mesmo quando não conseguimos mais reconhecer o rosto de nossos próprios familiares”, diz Cohen.

A partir dessas ideias, Cohen estuda caso a caso, vendo o histórico musical da cada paciente para que possa elaborar uma playlist única, especialmente direcionada ao idoso. Se um paciente não consegue mais articular palavras, Cohen e sua equipe recorrem à família e os resultados são impressionantes.

Quando lhe perguntei por que ele achava que a música funcionava tão bem com os idosos, Dan me respondeu:

“A música ‘funciona’ com praticamente todo mundo. O que eu penso é que os idosos, por conta das circunstâncias, ficaram desconectados da própria música que lhes toca, que estão privados do acesso à música. Então, o que fazemos aqui no M&M é simplesmente reconectá-los à própria música.”

Benefícios incontáveis

Os resultados que essas playlists personalizadas geram nos idosos são impressionantes. É como se esses pacientes, que já sofrem com demência profunda, “acordassem” subitamente e voltassem a ser quem eram.

Confira um trecho do documentário “Alive Inside”, que conta a história de Cohen e seu instituto:

Depois de assistir a esse vídeo, fica difícil não acreditar nas ideias dos filósofos antigos, do Dr. Oliver Sacks e nas próprias palavras de Cohen:

“As pessoas tendem a se comunicar melhor quando em contato com as próprias músicas. Sentem menos dor, apresentam melhores resultados na reabilitação, engolem mais devagar e melhor (quando têm dificuldade de engolir), se tornam mais relaxadas e diminuem suas necessidades de medicamentos antipsicóticos, antidepressivos ou ansiolíticos. Além disso, alucinam menos, ficam menos agressivas, têm uma melhora do humor e entram em contato consigo mesmas, se tornando pessoas mais sociáveis.”

A história da musicoterapia

“Davi tocando a harpa para Saul” – Bernardo Cavallino (1625 – 1650)

A história da musicoterapia é antiga. Nossos antepassados já tinham alguma noção de que a música possuía um poder terapêutico que poderia ser de muita valia para o tratamento de diversos problemas.

Desde o Egito antigo

O primeiro registro escrito falando sobre musicoterapia ao qual temos acesso são os Papiros de Lahun, uma coleção de textos egípcios antigos que relatam tópicos da vida comum do cidadão do Egito antigo, como problemas administrativos, matemáticos e relatos médicos.

Através desses arquivos arqueológicos, pode-se constatar que a musicoterapia, mesmo não sendo a mesma de hoje, era amplamente utilizada nos templos egípcios.

Além disso, acredita-se que a prática tenha sido realizada nos tempos bíblicos. Essa hipótese advém de um trecho do velho testamento que conta a história do rei Davi.

Antes de ganhar notoriedade por ter enfrentado o gigante Golias, Davi era um tocador de harpas na corte do rei Saul e usava o instrumento para acalmar os ânimos do nobre. Em Samuel, capítulo 16, versículo 23, podemos ler o seguinte trecho:

E sempre que o espírito mau de Deus acometia o rei, Davi tomava a harpa e tocava. Saul acalmava-se, sentia-se aliviado e o espírito mau o deixava.”

Os gregos

Existem, ainda, registros que mostram que a música tinha importância social e terapêutica desde a Grécia antiga.

Tanto é que o panteão (conjunto de deuses gregos) contava com entidades como Apolo, o deus grego da música e medicina, ou então Esculápio, outro deus da medicina, que curava as doenças da mente através de músicas e canções.

A obra de filósofos gregos pré-socráticos já discutem sobre os possíveis benefícios terapêuticos da música.

Platão, por exemplo, dizia que a música afeta as emoções e pode influenciar o caráter de um indivíduo. Aristóteles ensinava que a música afeta a alma e a descrevia como “uma força capaz de purificar as emoções”.

Por enquanto, vale ressaltar somente que por volta de 400 a.C., Hipócrates, outro filósofo, tocava música para doentes mentais e que essa prática continuou influente até depois do fim da Grécia antiga.

Aulo Cornélio Celso, um grande enciclopedista romano, defendia que o som de címbalos e água corrente seriam efetivos para o tratamento de transtornos mentais.

Primeiros estudos

Século XII

A primeira vez que o potencial terapêutico da música foi reconhecido foi no século IX, durante a Idade de Ouro Islâmica. Nessa sociedade, a música tinha ampla utilização terapêutica.

O cientista, psiquiatra e musicólogo Al-Farabi (872 a 951 – 79 anos) fez referência ao efeito terapêutico da música em seu tratado Significados do Intelecto, sendo que os hospitais árabes do século XII contavam com salas de música para os pacientes.

Século XVII

Robert Burton foi um acadêmico inglês e vigário da Universidade de Oxford no século XVII e autor do livro “A Anatomia da Melancolia”, por muitos considerado a maior obra literária da época.

O livro é um compêndio de textos e análises acadêmicas sobre o sentimento que dá título à obra: a melancolia (o que inclui o que chamamos hoje de “depressão”).

No seu livro, o acadêmico escreve a música e a dança eram fundamentais para o tratamento de doenças mentais, especialmente a melancolia.

Seu trabalho foi muito influente, dando origem à diversos outros à respeito da relação do ser humano com a música.

A origem da musicoterapia contemporânea

Não menos interessante que todas as especulações feitas por sociedades antigas, a história da musicoterapia moderna tem suas raízes em um local bastante curioso: os hospitais militares da segunda guerra mundial.

A música nunca deixou de gerar interesse em médicos, mas foi somente aplicada de forma sistematizada e estudada por conta do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. A música era utilizada nesses hospitais para ajudar na recuperação de soldados que voltaram da guerra, sendo especialmente voltada para pacientes transtornos mentais e emocionais.


A musicoterapia não é uma técnica nova. Muito pelo contrário. Gerou por muito tempo fascinação e é somente a partir do século XX que investigações mais científicas puderam ser feitas a respeito do seu potencial terapêutico.

Além disso, hoje, mais do que em qualquer outro momento da história da humanidade, estamos em contato direto com a música. Ela se faz presente o tempo todo, nos nossos fones de ouvido, nos nossos carros e até no trabalho.

Muitas vezes, não temos o tempo necessário para apreciá-la como deveríamos e ela acaba servindo como simples ruído de fundo. Entretanto, se enxergarmos o potencial terapêutico e as mudanças que ela pode proporcionar a nossa vida, talvez possamos levar uma vida saudável. Se não saudável, pelo menos mais sonoramente colorida.

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Referências

https://edition.cnn.com/2013/04/15/health/brain-music-research/index.html
http://www.imnf.org/
http://www.wfmt.info/WFMT/Home.html
https://www.npr.org/2007/11/13/16110162/oliver-sacks-observes-the-mind-through-music

Bradt J, Dileo C, Potvin N (December 2013). “Music for stress and anxiety reduction in coronary heart disease patients”. The Cochrane Database of Systematic Reviews doi:10.1002/14651858.CD006577.pub3
Johns Hopkins Medical Institutions. “This Is Your Brain On Jazz: Researchers Use MRI To Study Spontaneity, Creativity.” ScienceDaily, 2008
Peixoto, M., & Teixeira, C. (2013). Community Music Therapy – contributions to the community’s mental health. Cardenos Brasileiros De Saúde Mental, 5(11), 102 – 113.
Cunha, R. (2016). Musicoterapia social e comunitária: uma organização crítica de conceitos. Revista Brasileira De Musicoterapia, 21, 93 – 116.

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