Redação Minuto Saudável
26/03/2018 08:00

O que é Febre de Lassa, vírus, transmissão, sintomas e tratamento

O que é febre de Lassa?

Febre de Lassa ou febre hemorrágica viral (CID-10 A96.2) é uma doença infecciosa e contagiosa que pode atingir vários órgãos humanos e lesionar vasos sanguíneos. O vírus é zoonótico, ou seja, é transmitido para o homem através de animais.

O agente foi reconhecido pela primeira vez em 1969 devido à morte de duas enfermeiras que trataram um paciente contaminado na cidade de Lassa, Nigéria, de onde recebeu o nome.

Nigéria, Guiné, Libéria, e Serra Leoa são os países mais atingidos, totalizando cerca de 300 mil a 500 mil pessoas infectadas, culminando numa estimativa de 5 mil mortes anuais. Porém, países vizinhos também estão em risco, visto que o principal hospedeiro (roedor da espécie Mastomys natalensis) pode ser encontrado por toda a região.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de casos desde o início do ano já é maior que de todo o período de 2017. São 317 pessoas atingidas contra 143 casos registrados em todo o ano passado.

Apesar da taxa de mortalidade ser baixa (por volta de 1%), foram registradas 90 mortes em toda a Nigéria desde janeiro de 2018, segundo dados da OMS. Neste novo surto, os dados revelam mais de 20% de mortes entre os pacientes confirmados e suspeitos.

Além da hemorragia em órgãos internos, o paciente pode sofrer de dores abdominais e perda de audição. Em casos mais graves, a surdez é permanente.

Índice – neste artigo você vai encontrar as seguintes informações:

  1. O que é febre de Lassa?
  2. Causas
  3. Transmissão
  4. Febre de Lassa pode chegar ao Brasil?
  5. Fatores de risco
  6. Sintomas
  7. Como é feito o diagnóstico?
  8. Febre de Lassa tem cura?
  9. Qual o tratamento?
  10. Medicamentos
  11. Prognóstico
  12. Complicações
  13. Prevenção e controle

Causas

Ela é causada por um vírus RNA (ribonucleic acid, em tradução “ácido ribonucleico”), integrante da família Arenaviridae. O vírus é acelular, ou seja, não possui células, mas sim uma cápsula de proteínas, chamada de capsídeo.

Para se proliferar, o vírus necessita inserir seu material genético dentro das células. Para fazer isso, se incorpora à parede celular ou à membrana, se unindo com moléculas receptoras que ficam na superfície da célula.

Terminado este processo, o agente invasor passa a afetar o funcionamento da célula infectada, além de extrair substâncias presentes com a finalidade de multiplicar seu material genético e de gerar capsídeos para os novos vírus.

O vírus de RNA afeta células dendríticas (glóbulos brancos), células apresentadoras de antígeno (APC) e células endoteliais (que recobrem a parte interna de vasos sanguíneos), de onde vem à hemorragia.

O período de incubação do vírus é de 2 a 21 dias.

Transmissão

O contágio da febre de Lassa pode ocorrer de animal para humano ou de humano para humano. A transmissão acontece no próprio meio social do indivíduo ou em hospitais.

Transmissão por animais

A contaminação é feita através do contato com urina, fezes e saliva de roedores — em especial a espécie Mastomys natalensis, encontrados em savanas e florestas do oeste da África e que podem chegar a portar o vírus durante toda a vida — e aranhas infectadas, podendo ser por via oral ou respiratória.

Devido à precariedade de condições sanitárias em determinadas regiões da África, os alimentos ficam expostos ao animal, que irá se alimentar da comida que posteriormente será consumida por seres humanos.

Atividades de limpeza, como varrer o chão, podem ocasionar inalação de partículas minúsculas derivadas de excrementos do rato contaminado. Além disso, é comum para os moradores o consumo dos roedores da classe Mastomys.

Transmissão entre humanos

A transmissão também pode ser feita pelo contato direto com o conteúdo contaminado através de fluidos corporais, como urina, sangue, saliva e vômito. Esse tipo de contágio também é comum no ambiente hospitalar, podendo se espalhar em equipamentos médicos contaminados, incluindo agulhas reutilizadas.

Vale ressaltar, no entanto, que o contato pele a pele não é suficiente para causar a propagação da doença viral. Há indícios ainda de que o contágio seja propagado sexualmente.

De acordo com a Nigeria Centre for Disease Control (NCDC) — centro de controle de doenças da Nigéria —, os tipos de contato podem ser classificados em 3 categorias, considerando o risco de contágio:

Categoria 1 – Sem risco
  • Nenhum contato direto com o paciente ou fluidos corporais
  • Contato casual, sem contato com substâncias potencialmente infecciosas
  • Manipulação de amostras de laboratório sob condições contidas
Categoria 2 – Baixo risco
  • Contato direto com paciente
  • Manuseio de fluidos corporais com a devida proteção
  • Quebra de contenção laboratorial sem contato direto com espécime
Categoria 3 – Alto risco
  • Exposição desprotegida da pele ou membranas mucosas a sangue ou fluidos corporais potencialmente infecciosos, incluindo ferimento por agulha, contato sexual, manuseio desprotegido de amostra laboratorial

Febre de Lassa pode chegar ao Brasil?

Apesar da facilidade em se espalhar a doença justamente pelas diversas opções de locomoções entre um país e outro, a probabilidade da doença chegar até aqui é baixa.

Além de o vírus estar associado ao clima tropical, de acordo com especialistas, o surto é endêmico, ou seja, acontece em determinada região geográfica e de forma esporádica. Além disso, países mais pobres estão mais propensos por possuírem menos estrutura na saúde pública e no combate de doenças contagiosas.

Fatores de risco

A febre de Lassa acomete pessoas de todas as idades e de ambos os sexos, em situações que incluem:

  • Residir ou viajar para regiões com incidência de casos da doença;
  • Entrar em contato com a urina, fezes, saliva ou sangue de roedores;
  • Compartilhar agulhas com pessoas infectadas;
  • Manter relações sexuais sem camisinha com um paciente com suspeita ou diagnóstico confirmado da doença;
  • Ficar exposto a gotículas salivares de pessoas portadoras do vírus, como espirros ou tosse;
  • Ter contato direto com o sangue infectado, em casos de lesões, por exemplo;
  • Viver em local com falta de saneamento básico;
  • Mulheres em fase de gestação, especialmente no 3º trimestre.

Profissionais de saúde que tenham contato com a pessoa infectada e que não respeitem as devidas precauções também apresentam um alto risco de contrair a doença. Fazem parte da lista: médicos, enfermeiros e pessoas que manipulam amostras de sangue em casos suspeitos de febre de Lassa.

Sintomas

Os sintomas são similares aos da malária e da dengue e o infectado pode apresentá-los somente 3 semanas após a contração do vírus. É por essa razão que é tão difícil identificar a febre de Lassa.

A doença começa de forma leve, não sendo diagnosticada em 80% dos casos. Nesta etapa, o paciente apresenta os seguintes sinais:

  • Febre;
  • Dor de garganta;
  • Dor no abdômen;
  • Dor retroesternal (na região do tórax);
  • Fraqueza;
  • Náusea;
  • Vômito;
  • Diarreia;
  • Conjuntivite;
  • Perda de audição;
  • Encefalite (inflamação no cérebro);
  • Proteinúria (excesso de proteínas na urina).

16 a 45% dos casos mais graves são fatais. A morte de infectados normalmente se dá devido a falhas múltiplas de órgãos. Já em mulheres grávidas, essa estimativa chega a 92%. Para amenizar as perdas, são feitos partos induzidos no terceiro trimestre da gestação. Os sintomas nestes casos compreendem:

  • Hemorragia em órgãos internos, pelo nariz, boca e vagina (vista em apenas 20% dos casos);
  • Inchaço facial;
  • Tremores.

Os estágios clínicos da febre de Lassa severa podem ser divididos em 4 estágios, segundo o NCDC:

Estágio 1 1º a 3º dia
  • Fraqueza generalizada e mal-estar
Estágio 2 4º a 7º dia
  • Dor de garganta
  • Dores de cabeça, nas costas, peito ou abdômen
  • Conjuntivite
  • Náusea e vômito
  • Diarreia
  • Hipotensão (pressão baixa)
  • Anemia
Estágio 3 Após o 7º dia
  • Edema (inchaço) no rosto e pescoço
  • Convulsões
  • Sangramento da mucosa (boca, nariz, olhos)
  • Sangramento interno
  • Confusão e desorientação
Estágio 4 Após o 14º dia
  • Coma
  • Morte

Vale ressaltar que a gravidade da doença irá depender de alguns fatores, como a resposta imune natural do organismo, modo de transmissão, duração da exposição, dose infectante e fase da doença.

Como é feito o diagnóstico?

Os exames são recomendados quando há risco de contaminação, para pessoas que moram ou viajam para as áreas suscetíveis ao contágio, além de mulheres no final de sua gestação.

Estes testes devem excluir outras causas de febre e necessitam de uma análise detalhada, visto que o paciente pode apresentar qualquer estágio da doença. Ao mesmo tempo, o diagnóstico precoce é fundamental para que o tratamento com o medicamento antiviral garanta bons resultados. A análise abrange:

Teste ELISA

Trata-se de um exame laboratorial que permite identificar anticorpos específicos, como o antígeno da febre de Lassa.

Ele também é capaz de apontar os anticorpos imunoglobulina G (IgG) e imunoglobulina M (IgM) que são criados quando os sintomas são evidentes, em resposta ao microrganismo invasor. O IgC tem como característica precaver futuras contaminações durante toda a vida.

Imuno-histoquímica

Este é um procedimento que tem como objetivo a busca por antígenos de tecidos do corpo por meio de um microscópio. Com o resultado, é possível determinar patologias inflamatórias, infecciosas e neoplasias (doenças que destroem o tecido humano).

PCR

O PCR é um exame sanguíneo que avalia a quantidade de proteína C reativa (PCR). O PCR é produzido no fígado e está ligado ao surgimento de inflamação ou infecção no organismo. O aumento de produção indica que há um agente nocivo no corpo e que está sendo combatido.

Febre de Lassa tem cura?

A febre de Lassa tem cura somente quando tratada no seu estágio inicial, que ocorre dentro dos 6 primeiros dias após a infecção. O tempo de recuperação ou da piora do paciente varia de 7 a 30 dias após o surgimento dos sintomas.

Ainda não existe uma vacina para a doença, por se tratar de um recurso caro, demorado e que requer muita pesquisa.

Qual o tratamento?

Antes de iniciar o tratamento, a pessoa infectada é isolada para impedir o contágio. O contato com o paciente deve ser feito com a utilização de luvas, óculos, aventais e máscaras.

O tratamento consiste em procedimentos utilizados de forma coletiva, como a junção de medicamento e métodos que agem no reparo de fluidos e na instabilidade de eletrólitos (minerais que apresentam uma carga elétrica quando dissolvidos em líquido e que atuam no funcionamento das funções nervosas).

Antivirais

Os antivirais são indicados para cessar a ação do vírus no organismo, reduzindo sua proliferação e eliminando-o do organismo. Além dos pacientes já diagnosticados, o medicamento também costuma ser indicado em alguns casos suspeitos — pessoas que tiveram contato com um infectado e se encaixam na categoria de alto risco.

Como o agente invasor necessita estar ligado ao núcleo da célula RNA para se desenvolver, o antiviral atua no bloqueio e anulação das atividades virais e inibe a duplicação da mesma.

Ingestão de líquidos

Manter uma rotina de ingestão de líquidos ajuda a regular a produção de eletrólitos (produtores de energia imediata e responsáveis pela hidratação corporal) e minerais que atuam no desempenho de nervos e músculos, evitando a desidratação.

Diálise peritoneal

A diálise peritoneal é um processo de filtração sanguínea com o intuito de retirar o excesso de líquidos e substâncias tóxicas do organismo. Ela é indicada para pacientes que sofrem de insuficiência renal, ou seja, quando os rins deixam de retirar ou de equilibrar os fluídos do organismo.

O procedimento é feito por meio da adição de um líquido dialisante dentro da cavidade peritoneal através de um cateter – dispositivo definitivo e indolor implantado por meio de uma cirurgia no abdômen. A ação do líquido faz com que as membranas peritoneais passem a exercer as funções dos rins.

Medicamentos

A Ribavirina está na Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS). O medicamento é um antiviral intravenoso e efetivo se administrada no início da febre de Lassa.

As chances de mortalidade caem em até 10 vezes se a medicação for utilizada nos 6 primeiros dias da doença. A administração é feita em dose única seguida por aplicações de 4 dias a cada 6 horas e de 6 dias num intervalo de 8 horas.

Atenção!

NUNCA se automedique ou interrompa o uso de um medicamento sem antes consultar um médico. Somente ele poderá dizer qual medicamento, dosagem e duração do tratamento é o mais indicado para o seu caso em específico. As informações contidas neste site têm apenas a intenção de informar, não pretendendo, de forma alguma, substituir as orientações de um especialista ou servir como recomendação para qualquer tipo de tratamento. Siga sempre as instruções da bula e, se os sintomas persistirem, procure orientação médica ou farmacêutica.

Prognóstico

Em casos mais leves, a recuperação ocorre após alguns dias de hospitalização. Já nos quadros clínicos severos, pode haver a morte do paciente, sendo a taxa de mortalidade de 16% a 45% em pessoas com doença multissistêmica grave. Ambas as condições ocorrem entre 7 a 31 dias após o início dos sintomas.

Para mulheres grávidas em fase final da gestação, a taxa de mortalidade fica entre 50% a 92%. Ao mesmo tempo, a probabilidade de perder o feto é de 80%.

Complicações

A febre de Lassa pode trazer uma série de complicações, como a febre hemorrágica viral, surdez permanente e inflamações.

Febre hemorrágica viral

Febre hemorrágica viral é o nome dado para um série de doenças causadas por vírus RNA. As mais comuns são Ebola, febre Amarela, febre de Lassa e febre hemorrágica argentina.

Os sintomas incluem febre, fadiga e tonturas. Em casos mais graves, o vírus causa ferimentos nos vasos sanguíneos, resultando em hematomas e sangramentos por vários canais do corpo humano.

Não há tratamento específico para estas doenças, o que se faz é dar assistência ao órgão infectado. O paciente pode ser submetido à internamento hospitalar de forma isolada.

Febre Amarela e febre hemorrágica argentina são as únicas que possuem vacina, portanto, a prevenção é indispensável. Viagens para locais de surtos e contato com hospedeiros da doença devem ser evitados.

Aborto espontâneo

Mulheres no final da gestação que contraem a doença possuem grande probabilidade de perder o bebê ou morrer.

Surdez

A doença danifica o aparelho auditivo. Cerca de um terço dos pacientes de febre de Lassa perdem totalmente a audição independente da gravidade da doença.

Uveíte

Uveíte é a inflamação dentro do olho. Dentre os fatores que podem originá-la, está a infecção por vírus e lesões oculares. A pessoa pode apresentar dor, sensibilidade à luz e olho avermelhado. O distúrbio pode ser resolvido por meio de colírios e medicamentos.

Orquite

Caracterizada como inflamação nos testículos, a orquite pode ser causada por uma contusão na região e infecção viral.

O homem percebe a doença quando passa a urinar e ejacular com sangue, além de apresentar dor e inchaço nos testículos. O tempo de recuperação é de aproximadamente 30 dias, através de repouso e anti-inflamatórios.

Morte

Nos casos mais severos, pode ocorrer a morte do paciente devido a hemorragias graves e falência de órgãos.

Prevenção e controle

Para pessoas que vivem nas regiões de risco, é recomendado fechar buracos que facilitam a entrada de ratos em suas moradias, jogar o lixo em recipientes tampados e conservar alimentos e água em objetos lacrados.

Por se tratar de uma doença contagiosa, luvas, óculos e máscaras devem ser adotados em contato com pessoas infectadas.

Outras medidas também impedem a contração da doença:

  • Evitar contato com roedores (mortos ou vivos);
  • Lavar as mãos regularmente;
  • Dar preferência à água engarrafada;
  • Cozinhar bem os alimentos;
  • Manter uma higiene íntima correta;
  • Manter o ambiente limpo e sem fissuras para evitar o aparecimento de animais portadores do vírus;
  • Esterilizar os instrumentos médicos;
  • Isolar o paciente infectado;
  • Em caso de morte decorrente da doença, garantir um enterro seguro para evitar novos casos de transmissão, visto que o cadáver permanece contagioso por vários dias após a morte.

Para medida de controle, os profissionais de saúde devem contatar as autoridades responsáveis pela vigilância e notificação de doenças do governo local, sempre que atenderem um paciente com suspeita de infecção.

Existem ainda mais algumas medidas que podem ser tomadas por estes profissionais, a fim de evitar novas contaminações:

  • Limitar o número de funcionários e visitantes para o acesso ao quarto do paciente;
  • Desinfetar adequadamente os itens usados pelo paciente, incluindo seringas, termômetros, roupas de cama, copos e talheres;
  • Garantir o uso e descarte adequado de todos os equipamentos de proteção individual, como máscaras e luvas;
  • Descartar de maneira segura os objetos injetáveis e outros itens pontiagudos;
  • Manusear com segurança as amostras de sangue retiradas de pacientes com suspeita de infecção do vírus;
  • Manter toda a equipe da unidade de saúde informada sobre os riscos associados a doença.

A febre de Lassa é uma doença hemorrágica, altamente contagiosa. Proveniente do oeste africano, as chances de chegar ao Brasil são mínimas.

Compartilhe este texto com familiares e amigos e fique atento às suas próximas viagens!

Referências

http://www.saude.pr.gov.br/arquivos/File/FebredeLassa.pdf
https://www.medicinenet.com/lassa_fever/article.htm#what_is_the_history_of_lassa_fever
https://www.cdc.gov/vhf/lassa/index.html
http://www.ncdc.gov.ng/themes/common/docs/protocols/30_1502277315.pdf

29/11/2018 19:23

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