Minuto Investiga: tomar vacina pode causar autismo?

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Revisado por: Dra. Francielle Tatiana Mathias (CRF/PR 24612)

A desconfiança sobre a efetividade e a segurança das vacinas costuma levar algumas pessoas a questionar profissionais da saúde, laboratórios farmacêuticos e governos sobre possíveis efeitos colaterais que possam prejudicar a saúde de bebês e crianças.

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Recentemente, uma suposição ressurgiu nas redes sociais e aplicativos de mensagens. É bem possível que você tenha se deparado com “notícias” garantindo que a vacinação pode ocasionar autismo em crianças — inclusive quando a imunização ocorre em mulheres ainda em gestação.

Somada a várias outras especulações, essa suposição tem sido responsabilizada pela redução na procura pela imunização das crianças, algo que tem preocupado as autoridades de saúde.

Diante desse cenário, o Minuto Saudável entra em ação para verificar as informações pertinentes e esclarecer, com base em pareceres de especialistas renomados, se a informação que circula pela internet é falsa ou verdadeira.

O que é o autismo?

Caso você não esteja familiarizado com o termo, o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), mais conhecido apenas por autismo, é um transtorno no neurodesenvolvimento da criança que afeta a região cortical do cérebro e seu diagnóstico geralmente acontece durante a infância, perto dos 3 anos de idade.

Os sintomas característicos são a dificuldade na comunicação, a pouca interação social e a estipulação de padrões de comportamento restritivos e repetitivos.

As causas do autismo ainda não são completamente conhecidas, mas especialistas investigam a direta relação com a genética, embora intervenções ambientais ainda não tenham sido totalmente descartadas como potenciais influenciadores no desenvolvimento do TEA.

Se você quiser saber ainda mais sobre esse assunto, não deixe de conferir nossa matéria completa sobre o autismo.

Vacina e autismo: como surgiu essa relação?

Essa relação entre vacinação e autismo surgiu em 1998, quando o médico Andrew Wakefield publicou um artigo na revista The Lancet, afirmando que 12 crianças desenvolveram comportamentos autistas após receberem imunização tríplice contra sarampo, caxumba e rubéola.

Reforçou-se então a associação do timerosal ao acometimento do autismo. Esse componente é utilizado como conservante, impedindo o crescimento de bactérias e fungos, e a consequente contaminação das medicações.

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O impasse está no fato do timerosal conter mercúrio, elemento que pode causar toxicidade ao nosso organismo.

Contudo, várias pesquisas posteriores já comprovaram que a baixa concentração de mercúrio existente nas vacinas não tem potencial danoso a nossa saúde — o que já é consenso entre instituições respeitadas como a Organização Mundial da Saúde, o Institute of Medicine nos EUA e o Ministério da Saúde.

A repercussão da publicação de Wakefield prejudicou campanhas de vacinação em diversos países. Entretanto, a partir de 2004, estudos de diferentes institutos de medicina refutaram essa hipótese.

Anos mais tarde, um dos pesquisadores envolvidos no estudo declarou publicamente que não havia encontrado vestígios do vírus do sarampo nas crianças analisadas e que Wakefield ignorou essa informação para que a publicação não fosse prejudicada.

Wakefield, antes da veiculação do artigo, havia efetuado ainda um pedido de patente de vacina contra sarampo, que seria concorrente daquela utilizada para a imunização na época — fato que representa um conflito de interesse do médico com o estudo.

Em 2010, o Conselho Geral de Medicina do Reino Unido declarou Wakefield inapto para exercer a profissão de médico e cassou seu registro profissional. A revista publicou uma nota pedindo desculpas à comunidade científica e seus leitores.

A opinião dos especialistas

Para saber se há alguma possibilidade de vacinas causarem ou aumentarem a incidência de autismo em crianças, fomos buscar dados de instituições de pesquisa e especialistas na área.

As vacinas não causam autismo. Inúmeros estudos sérios têm sido conduzidos para verificar a relação e nenhum deles encontrou qualquer evidência”, afirma Karina Meira Fernandes, mestre em Bioquímica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professora do curso de Capacitação em Serviço de Vacinação em Farmácias do IBRAS.

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Um dos maiores estudos foi divulgado em 2015 e avaliou 95.727 crianças nos Estados Unidos, entre 2001 e 2012. A análise dos dados mostrou que a vacinação com uma ou duas doses da tríplice viral não estava associada com um risco aumentado de TEA em qualquer idade”, complementa.

De acordo com levantamento em 2018 da American Academy of Pediatrics, órgão norte-americano que normatiza a saúde pediátrica do país, também não foi constatado nenhum aumento de diagnósticos de TEA em crianças cujas mães receberam imunização durante gravidez — inclusive contra infecções graves.

Esse estudo analisou 81.993 registros médicos referentes à vacinação de gestantes contra tétano, coqueluche e difteria. Os resultados apontaram taxas de 1,5% no diagnóstico positivo de TEA nos grupos de mães vacinadas e 1,8% para os grupos de mães que não haviam sido imunizadas.

Todas as vacinas que hoje são ofertadas no serviço de vacinação passaram por rigorosos padrões de exigência e qualidade dos laboratórios fabricantes em todas as suas fases de desenvolvimento”, explica Fernandes.

Mesmo depois de desenvolvidas e comercializadas, essas vacinas continuam em monitoramento de farmacovigilância. Esse acompanhamento é realizado principalmente pelo Ministério da Saúde, por meio do Sistema de Vigilância de Eventos Adversos Pós-Vacinação (EAPV) do Programa Nacional de Imunizações (PNI)”, afirma a mestre em Bioquímica.

Assim como qualquer medicação, as vacinas podem apresentar eventos adversos. Os mais comuns são: dor e vermelhidão local e, às vezes, febre. Porém, estes não representam preocupação para a sociedade em geral. Portanto, os benefícios da imunização superam em muito o risco dos eventos adversos”, finaliza.

Falso ou verdadeiro?

Após pesquisa de estudos científicos e consulta a profissionais da saúde especializados em imunização, constatamos que não existe qualquer evidência que comprove o desenvolvimento de TEA como consequência de vacinações — nem quando aplicadas nas crianças, nem quando a imunização ocorre em gestantes.

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Portanto, as pessoas não devem temer a vacinação ou deixar de levar seus filhos para serem imunizados. As medicações desse gênero são exaustivamente testadas antes de serem liberadas e as autoridades da saúde acompanham seus efeitos para identificar possíveis adversidades.

Antes de compartilhar notícias alarmistas, é fundamental procurar por informações confiáveis, de fontes que possuam respaldo técnico, ou consultar as autoridades de saúde.

É importante que os pais busquem as orientações de pediatras e de outros profissionais de saúde que façam parte do serviço de vacinação para esclarecer as dúvidas que possam surgir”, orienta Karina Meira Fernandes.


O Minuto Saudável é o seu aliado na hora de buscar esclarecimentos objetivos e confiáveis sobre doenças, exames, alimentação saudável, remédios e tudo mais que envolva saúde e bem-estar.

Você conhece uma notícia ou tema relacionado à saúde que tenha informações duvidosas? Então mande sua sugestão de pauta para a gente! Basta deixar seu comentário ou enviar email para [email protected] com mais detalhes sobre a possível fake news.

Fontes consultadas

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