Victor (Minuto Saudável)
14/07/2018 08:00

Vício em jogos eletrônicos (online, offline): sintomas e tratamento

Jogos de videogame podem ter diversos benefícios para o desenvolvimento cognitivo e até mesmo para o aprendizado de outras línguas. Entretanto, seu excesso pode fazer mal.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS), incluiu o vício em games na Classificação Internacional de Doenças, a CID, que ganhou uma atualização em junho de 2018.

O problema recebe o nome de “Gaming Disorder”, algo como “Transtorno dos games” em tradução livre, mas tem sido chamado pela imprensa brasileira como vício em jogos eletrônicos.

Por mais que seja divertido, jogar videogames demais e com uma fixação exacerbada pode trazer sérias consequências para a saúde. Entenda mais sobre esse problema no texto a seguir!

Índice – neste artigo você vai encontrar as seguintes informações

  1. O que é vício em jogos eletrônicos?
  2. Vício em jogos eletrônicos é doença?
  3. Tipos
  4. Causas
  5. Fatores de risco
  6. Sintomas
  7. Como é feito o diagnóstico?
  8. Tem cura?
  9. Tratamento
  10. Convivendo
  11. Como é ter vício em jogos eletrônicos?
  12. Complicações
  13. Como prevenir
  14. Perguntas frequentes
  15. Teste: você deve procurar ajuda?

O que é vício em jogos eletrônicos?

O vício em games é um transtorno caracterizado pela presença de padrões comportamentais problemáticos com relação aos hábitos de jogo, isto é, o paciente passa muitas horas jogando, de maneira quase desenfreada.

A diversão se torna doença quando o paciente apresenta dificuldades em parar de jogar e quando dá uma prioridade excessiva aos jogos, que passam a ter precedência sobre outros interesses da vida cotidiana.

Além disso, passa a ser um problema quando há um aumento na intensidade da jogatina mesmo depois de os jogos terem trazido consequências negativas para a vida do paciente.

Para explicar de forma mais fácil, vamos utilizar o exemplo fictício de João, um aluno do curso de administração que adora passar o seu tempo livre jogando World of Warcraft (WoW), um MMORPG (“Massively Multiplayer Online Role-Playing Game” ou “Jogo de Interpretação de Personagem Online, em tradução livre) de bastante sucesso.

João tem diversas responsabilidades e diversos outros interesses na sua vida. Tem a faculdade, a namorada e está buscando por um estágio. Depois de ter sido recusado em uma empresa, João começa a passar mais e mais horas frente a tela do computador jogando o WoW.

A família e os amigos começam a notar que ele só fala a respeito do jogo. As conquistas que teve, os inimigos que enfrentou e os itens que conseguiu parecem excitá-lo mais do que a própria faculdade e, com o tempo, João desiste até mesmo de procurar o estágio com que estava sonhando tanto até um tempo atrás.

Algumas semanas se passam e o interesse de João pelo MMORPG parece não diminuir, mas somente aumentar. Ele não come mais o jantar com a família na mesa, pois está jogando uma partida importante, então pede para deixarem as sobras.

Quando interrompem João no meio do jogo, ele fica irritado a ponto de perder as estribeiras. Ele xinga, grita e maltrata as pessoas ao redor que tentam mostrar para ele que talvez ele esteja passando por um problema. Ele parece não querer ouvir ninguém.

João vai dormir muito tarde e troca o dia pela noite por causa do jogo. Deixa de frequentar as aulas da faculdade e de sair com os amigos. Com o tempo, não quer saber mais nem de sair com a própria namorada, que já não aguenta mais ouvir sobre o jogo.

Depois de uma grande briga com a namorada, ele percebe que talvez tenha um problema e decide parar ou, ao menos, reduzir a quantidade de tempo que fica em frente ao computador jogando, mas não consegue. Decide sentar para jogar só uma hora ou duas e, quando vê, passou a madrugada inteira matando inimigos e coletando itens.

É dessa maneira que o jogo se torna um problema. Trata-se de uma narrativa muito parecida com a de um usuário de drogas, é verdade, mas é importante ressaltar que, apesar das semelhanças, os mecanismos pelos quais o vício em games ocorre são diferentes daqueles da adicção em substâncias psicoativas.

Enquanto uma droga, como a cocaína, tem efeitos diretos no cérebro, bloqueando a recaptação de neurotransmissores como a dopamina, os games ativam um sistema de recompensas muito parecido, com a diferença de que há a ausência de uma substância agindo diretamente no cérebro.

Não se trata, entretanto, de um vício “menos pior”. Se ele atrapalha sua vida e causa diminuição da qualidade de vida, deve ser tratado e merece toda atenção e seriedade que um alcoolismo receberia, por exemplo.

Entenda mais sobre os mecanismos da adicção (vício) em games no tópico X.

Vício em jogos eletrônicos é doença?

Sim. O vício em jogos eletrônicos é considerado oficialmente uma doença desde junho de 2018, quando foi lançado a CID-11 pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Mas, para entender melhor essa resposta, primeiro temos de saber o que é a CID. Trata-se, na verdade, de uma espécie de “catálogo” de doenças que serve para ajudar o médico a se manter atualizado sobre os principais problemas de saúde que afetam os seres humanos.

O seu nome real é bem maior do que o que estamos acostumados: “Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde”. Para facilitar nossa vida, chamamos simplesmente de Classificação Internacional de Doenças, ou CID.

Agora, para entender um pouco melhor o porquê do vício em jogos eletrônicos ter entrado na CID e do quão importante é esse passo, conversamos com o Dr. Emerson Rodrigues Barbosa, psiquiatra e Diretor Clínico do Instituto de Psiquiatria do Paraná.

“A categorização de transtornos, doenças e suas subdivisões servem principalmente para facilitar a comunicação entre profissionais da saúde e instituições interessadas.”

O Dr. explicou que, no caso do vício em jogos eletrônicos, por exemplo, se um médico na Suécia escrever sobre um caso codificado como ‘CID11: 6C51.0’, ele será entendido em qualquer lugar do mundo. Dessa maneira fica mais fácil estimar a prevalência do transtorno e buscar métodos mais eficazes de tratamento.

Quanto ao vício em jogos eletrônicos em si, o médico afirma: “ambos os comportamentos são prazerosos de alguma maneira, e isso ativa o nosso sistema de recompensas, fazendo com que o usuário busque sempre mais e mais daquele prazer independente das consequências negativas que isso possa trazer.”

E, apesar de ser um grande jogador, Dr. Emerson é categórico:

“Se o videogame pode atrapalhar sua vida assim como o álcool ou outras drogas, por que não poderia também ser considerado um vício?”

Tipos

Apesar de ser relativamente novo no meio médico, a OMS, na CID-11, dividiu o vício em jogos eletrônicos em 3 diferentes categorias, relativas à “modalidade” de jogo: online, offline e não especificado. Entenda:

Vício em jogos predominantemente online

As características do vício em jogos online são quase as mesmas dos outros tipos, ou seja:

  • Dificuldade de controlar os hábitos de jogo (frequência, intensidade, duração, início e término);
  • Prioridade crescente dada ao jogo, ou seja, o jogo passa ser mais importante para o jogador do que outras atividades diárias, como tomar banho, comer e se relacionar com outras pessoas;
  • Insistência e acentuação dos hábitos de jogo, apesar deles terem gerado consequências negativas para a vida do paciente.

O que diferencia esse tipo dos outros é a modalidade de jogo, ou seja, neste caso, o paciente joga online. O problema particular das partidas online é que, nessas condições, não existe a possibilidade de interromper o jogo, pois ele acontece em tempo real para vários jogadores ao mesmo tempo.

Essa característica (do jogo em tempo real) é muitas vezes utilizada pelo paciente para justificar o fato dele jogar de maneira ininterrupta, afinal, os outros jogadores dependem dele para ganhar a partida e não existe a possibilidade de pausar o jogo.

Vale ressaltar que, como o próprio nome já diz, o vício em jogos predominantemente online não significa que o paciente jogue somente jogos online, mas que a principal modalidade jogada pelo paciente é a de jogos online.

Vício em jogos predominantemente offline

O vício em jogos offline é muito parecido com o vício em jogos online, com a diferença de que as partidas são particulares, isto é, o paciente joga sozinho, no próprio tempo e sem a interação de outros jogadores.

As principais características são as mesmas, ou seja, dificuldade de controlar os hábitos, prioridade acentuada dada ao jogo e insistência e acentuação dos hábitos de jogo, apesar deles terem trazido consequências negativas.

No caso dos jogos offline, o paciente não necessariamente tem fixação por um jogo específico, mas pode acontecer de ter por vários. O paciente, por exemplo, possui uma grande biblioteca de jogos e sente uma necessidade quase incontrolável de chegar ao fim de todos, ganhar todos os troféus disponíveis, “platinar” todos os jogos.

Vício em jogos não especificado

O vício em jogos não especificado diz respeito a pacientes que apresentam um tipo de vício misto. Isto é, joga online e offline. As principais características continuam as mesmas, ou seja:

  • Dificuldade de controlar os hábitos;
  • Prioridade crescente dada ao jogo;
  • Insistência e acentuação dos hábitos de jogo, apesar de consequências negativas.

Causas

Ainda não se sabe exatamente o que causa o vício em jogos eletrônicos em si, apesar de haver fatores de risco que podem deixar uma pessoa mais ou menos propensa a desenvolver esse tipo de vício.

O principal motivo para isso se deve ao fato que não é porque uma pessoa se expõe excessivamente aos games que ela tem um problema, como no caso de algumas drogas psicoativas, já que existem muitas pessoas que jogam todos os dias e não tem o transtorno.

Entretanto, a principal aposta e explicação para esse desvio comportamental se dá por conta do nosso cérebro, mais especificamente à área responsável pelo controle e regulação das emoções: o sistema límbico.

O Sistema Límbico

O sistema límbico é uma área do cérebro dos mamíferos responsável pelo controle das emoções e dos comportamentos sociais. Ele foi muito importante para o desenvolvimento da espécie humana, pois funciona como uma espécie de “centro de recompensa”.

Quando comemos alguma coisa muito calórica como, por exemplo, um chocolate, o sistema límbico libera neurotransmissores que nos dão a sensação de recompensa, dentre eles o principal sendo a dopamina, que, por sua vez, nos dá a sensação de prazer, bem-estar e euforia.

Esse sistema foi muito importante para o desenvolvimento dos mamíferos, pois ajuda os animais a saber que ações ou não tomar, quais comportamentos ele deve repetir.

Por exemplo, o homem das cavernas, ao comer uma fruta super calórica, era recompensado pelo cérebro com dopamina, e comia novamente esse fruto, que o alimentaria e não o deixaria passar fome.

Nos dias de hoje, o sistema límbico passou a ser manipulado de diversas formas, tanto pelo consumo de drogas quanto pelo consumo de comidas super calóricas ou jogos.

Quando jogamos, passamos por situações estressantes, temos que usar a habilidade e o raciocínio lógico para solucionar os problemas que os jogos nos colocam. Quando ganhamos, nosso sistema límbico nos dá essa sensação de recompensa também.

Acontece que algumas pessoas, por questões genéticas ou ambientais, começam a apresentar uma desregulação no sistema límbico, fazendo com que esse sistema de recompensa cause uma maior liberação de dopamina no organismo.

Nessas pessoas, então, o hábito de jogar é recompensado pelo cérebro e, quanto mais a pessoa joga, melhor ela vai se sentir, fazendo com que ela desenvolva problemas como o vício.

Fatores de risco

Apesar de não se saberem exatamente quais as causas do vício em games, é possível delimitar alguns fatores de risco, baseando-se nos casos que já ocorreram. Eles se dividem em fatores de risco biológicos, psicológicos, sociais e do próprio game em si. Entenda:

Fatores biológicos

Algumas pessoas apresentam um tipo de predisposição genética neuronal que as torna mais susceptíveis a desenvolver algum tipo de vício.

Nesses casos, o vício poderia acontecer tanto com games quanto com álcool ou outra substância. Infelizmente, não é possível saber se a pessoa tem ou não essa predisposição até que o problema ocorra.

Crianças e adolescentes possuem um risco maior de desenvolver o distúrbio, pois na fase do crescimento os mecanismos neurológicos ligados ao centro de recompensa do cérebro ainda estão sendo desenvolvidos, o que pode aumentar a dificuldade de controlar ou recusar os estímulos prazerosos proporcionados pelo jogo.

Fatores psicológicos

Alguns fatores psicológicos podem deixar uma pessoa mais propensa a desenvolver algum transtorno relacionado aos games, como:

Fatores sociais

Diversos fatores sociais podem ter impacto e aumentar as chances do desenvolvimento de vício em games. São eles:

  • Isolamento social;
  • Falta de limites quanto ao uso dos games;
  • Bullying;
  • Pressão excessiva na escola ou trabalho.

Além disso, muitas vezes ocorre da pessoa só ser aceita socialmente dentro do ambiente virtual, o que pode gerar um sentimento muito grande de pertencimento, que, dependendo do tempo e do contexto, pode levar a pessoa ao vício em games.

Fatores dos games

Um dos fatores de risco envolve as próprias características do game. Essa é uma questão muito polêmica e que divide opiniões, mas é fato que existem games que têm um maior número de jogadores viciados do que outros.

Se esse número significa que o game tem características mais viciantes ou não, ainda não há como dizer, pois é fato também que os jogos que possuem muitos casos de vício também são os jogos mais populares e com mais jogadores, então fica difícil fazer uma análise precisa da periculosidade de certos games em relação a outros.

O que podemos dizer é que o ambiente dos jogos online, principalmente, é muito convidativo, pois tem características de um espaço de liberdade, em que o jogador pode ser quem ele quiser.

Sintomas

O principal sintoma do vício em games é a priorização do jogo em detrimento de outras atividades, algumas delas fundamentais, como higiene pessoal, alimentação, trabalho, estudos, vida social etc.

Exemplos mais palpáveis desses sintomas seriam:

  • Deixar de realizar todas as refeições para jogar;
  • Comer em frente ao computador ou televisão;
  • Começar a faltar na escola e no trabalho para jogar;
  • Não sair com seus amigos ou familiares;
  • Deixar de tomar banho e escovar os dentes para jogar;
  • Ficar com o sono desregulado, trocar o dia pela noite ou dormir muito pouco para poder jogar mais;
  • Em casos mais graves, deixar de ir ao banheiro para jogar.

Nos casos de vício em games, é muito comum, inclusive, que a pessoa até queira realizar essas outras atividades, mas que sinta que não consegue. Mesmo sabendo de todas as consequências negativas proporcionadas pela jogatina excessiva, ela não consegue sair da frente da plataforma.

Outros sintomas bastante comuns dos jogadores com vício são:

  • Alterações do sono (ou mudança completa do “fuso horário”);
  • Tristeza, inação ou apatia.

Além disso, é comum que a pessoa, quando em abstinência, isto é, quando não está jogando, apresente sintomas como:

  • Agressividade;
  • Ansiedade;
  • Irritabilidade.

O tempo que a pessoa passa jogando também é um fator determinante, já que as pessoas que têm vício começam a desenvolver tolerância e, por isso, precisam de mais tempo expostas ao jogo para ter o mesmo prazer de antes.

Outra coisa que pode acontecer é o comprometimento das relações pessoais. Com o tempo, a relação familiar e com os amigos pode acabar se desgastando. É muito comum que jogadores com vício tornem-se agressivos quando confrontados em relação ao problema e isso pode ter diversos impactos nas relações familiares.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico do vício em games é bastante difícil de ser realizado e, assim como outras desordens, o médico responsável por essa questão normalmente é um psiquiatra.

Nesses casos, o especialista vai fazer uma análise dos principais sintomas, vai conversar com o paciente e com seus familiares para verificar se há ou não a presença do vício em games e se o tratamento é necessário.

A Organização Mundial da Saúde, na CID-11, estipula que é necessário que os sintomas estejam presentes na vida do paciente há pelo menos 12 meses, entretanto, dependendo da sua severidade, fica a critério do psiquiatra diagnosticar ou não o distúrbio.

Tem cura?

Por se tratar de um problema relativamente novo, ainda não existe consenso na área científica para confirmar a eficácia dos tratamentos para o distúrbio de games. É exatamente por esse motivo, inclusive, que OMS decidiu incluir o transtorno na CID-11.

A partir do momento que o vício em games passa a ser considerado um transtorno mental, se torna possível pesquisar com mais precisão quais tratamentos são efetivos e quais não.

Entretanto, apesar da doença só ter sido categorizada agora, já existem clínicas ao redor do mundo, como na Inglaterra e na Coreia do Sul, especializadas no tratamento desse tipo de desordem.

Os especialistas desses países dizem, a partir da própria experiência, que o tratamento tem respostas mais rápidas e efetivas com crianças e adolescentes do que com adultos, mas ressaltam que, entretanto, todos podem atingir a recuperação.

Tratamento

Como dito anteriormente, ainda não existe um tratamento cientificamente comprovado para o vício em games, mas, hoje, o mais comum é que se faça uma adaptação do tratamento para o transtorno de uso de substâncias ou transtornos de impulso.

Os principais focos do tratamento são a abstinência e a psicoterapia, em especial a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) podendo-se adotar ou não o uso de medicamentos, principalmente nos casos em que há a presença de outras desordens psiquiátricas que também precisam ser tratadas.

Terapia Cognitivo Comportamental (TCC)

A terapia cognitivo comportamental tem se mostrado bastante eficiente no tratamento de distúrbio de games, pois ela ajuda o paciente a avaliar os próprios hábitos e desenvolver habilidades sociais fora do ambiente virtual, como a comunicação, a resolução de problemas e o manejo dos sentimentos.

O ideal é que se faça pelo menos 6 meses deste tipo de terapia e, caso não haja uma boa evolução, o paciente deve ser encaminhado para o psiquiatra.

Reabilitação neuropsicológica

Outra técnica que tem se mostrado promissora no tratamento do vício em games é a reabilitação neuropsicológica.

Ela se caracteriza por um conjunto de práticas desenvolvidas entre o paciente e o profissional de saúde que visa ajudar o paciente a vencer os obstáculos ao desempenho adequado de suas tarefas cotidianas, como o vício em games.

Convivendo

Conviver com vícios não é nem um pouco fácil, mas é preciso entender que, ao menos num primeiro momento, durante o tratamento, a abstinência é essencial e é preciso bastante força de vontade para evitar uma recaída.

As recaídas, assim como em qualquer vício, podem acontecer. E, se elas acontecerem, lembre-se que você tem um problema, que deslizes acontecem e busque analisar o que te fez voltar para o seu vício. Melhor do que simplesmente se sentir culpado, é buscar por uma explicação e se esforçar para que não aconteça de novo.

Também é muito importante que você busque formas de organizar sua rotina com responsabilidades, descansos, lazeres e passatempos alternativos.

Criar metas e objetivos, promover outras formas de autocuidado e desenvolvimento pessoal também são coisas bem importantes a se fazer.

É muito importante que você esteja fisicamente presente junto às outras pessoas, pois isso contribui para o seu desenvolvimento social, além de ser uma atividade de lazer prazerosa.

Como a pessoa com vício em games passou muito tempo jogando sem dar bola para si mesma, é essencial que o indivíduo busque cuidar de si mesmo como um todo, mental e fisicamente.

Praticar atividades físicas e buscar novas formas de lazer são importantes conquistas para quem tem de lidar com o vício em games.

Além disso, dependendo do tipo de vício em games que você teve, talvez não seja necessário abandonar os jogos como um todo. Pessoas que já foram viciadas em games online, por exemplo, depois do tratamento, ainda podem aproveitar uma partida de Fifa com os amigos frente a televisão.

O que é extremamente necessário é que a pessoa esteja sempre observando a si mesma e busque o autoconhecimento. Assim, ela poderá praticar o autocontrole e avaliar o que é bom para si e aquilo que não é.

Como é ter o vício em jogos eletrônicos?

Não é muito difícil encontrar pessoas que já tiveram problemas com os games no passado. Somente aqui no meu ambiente de trabalho, consegui encontrar pelo menos 3 pessoas que contaram suas experiências problemáticas com os videogames.

A história que mais me chamou a atenção entretanto, foi a de um amigo que eu nem imaginava que pudesse ter passado por esse problema.

O designer Rafael Gonçalves, de 28 anos, me contou que, quando tinha por volta de 21 ou 22 anos, passou por uma situação complicada por conta do jogo Lineage 2, outro MMORPG bastante popular no Brasil.

Rafael chegou a trancar a faculdade por causa do jogo.

“Eu tinha depressão e o game ‘me aliviava’, mas no final só estava piorando minha situação”.

Dentro do universo do jogo, Rafael era uma figura conhecida. Líder de um clã, recebia pedidos de outros jogadores para que jogasse com eles, já que seu personagem no jogo era muito poderoso e conseguia enfrentar os desafios para quem está nos níveis avançados.

A situação complicou quando ele começou a deixar de sair aos fins de semana para jogar. “De sexta a domingo nem saia do quarto direito”, conta.

“O jogo sempre foi uma área de escape sabe? Quando eu não tinha pra onde ir, eu ia pros jogos. Acho que ao invés de traçar objetivos na vida real, era muito mais fácil traçar esses objetivos no jogo… e aí eu não dormia, comia ou bebia até alcançar o objetivo.”

A relação com a família, com o tempo, foi se deteriorando. Brigas constantes com a mãe e com a irmã se tornaram parte da rotina por conta do problema. Sua relação com a namorada começou a se deteriorar também, afinal, ele não saía de casa.

“Minha namorada na época e atual esposa já morava comigo na casa da minha mãe quando bateu a crise. Enquanto eu ficava jogando, ela via televisão, saía e eu lá no meu quarto fechado.”

O estopim da crise foi quando a namorada decidiu se mudar. Rafael recebeu um ultimato: ou ele buscava tratamento, ou os dois terminavam.

Esse choque de realidade foi muito grande, pois, até então, ele não achava que tinha um problema.

“Pra mim eu não tinha problema, mas percebi que os meus amigos estavam se afastando de mim. Eu só fui procurar ajuda mesmo quando a minha namorada tentou terminar comigo”

Depois disso, Rafael conversou com seus familiares, mais especificamente a mãe, e reconheceu que tinha um problema. Com a ajuda dela, ele começou a frequentar o psicólogo. Consultou-se 2 vezes por semana durante 6 meses, até que percebeu que a sua agressividade e a ansiedade por jogar tinham diminuído.

Hoje, vive uma relação saudável e feliz com sua mãe, esposa e 2 filhos. Ao contrário do que podem imaginar, ele não deixou de jogar. Desenvolveu autocontrole e até joga o seu Playstation 4 de vez em quando.

“O que mais me frustrava na época era saber que eu só era alguém de fato no mundo do game. Fora dele, eu tinha a sensação de que não valia nada. Acho que era por isso que tinha pouca vontade de interagir com as pessoas fora do computador.”

Apesar de continuar jogando ocasionalmente, afinal, hoje tem muitas outras responsabilidades, Rafael é categórico ao afirmar que agora só joga por diversão. Quando o perguntei sobre os MMORPGs, ele simplesmente me respondeu:

“MMO? Nunca mais”.

Complicações

A falta de um tratamento adequado pode trazer uma série de complicações para a vida do paciente que tem de conviver com o vício em jogos eletrônicos.

Existem diversas complicações sociais, físicas e psicológicas que podem ser sentidas na pele de quem não busca o tratamento adequado.

Do ponto de vista social, por exemplo, o paciente que não trata do próprio problema pode experienciar:

  • Afastamento dos amigos;
  • Piora no rendimento escolar ou no trabalho;
  • Perda do emprego;
  • Brigas com os familiares;
  • Perdas de relacionamento;
  • Preferência pela vida virtual à vida real.

Por outro lado, do ponto de vista psicológico, o paciente pode sofrer de prejuízos cognitivos. Por exemplo, ao deixar de dormir para jogar, ele estará afetando todo o ciclo circadiano do próprio corpo e ficará mais disposto a sofrer de estresse e distúrbios do sono, como a insônia.

Além disso, se não tomar cuidado, o paciente pode acabar desenvolvendo dificuldade para regular as próprias emoções.

Outros problemas que podem surgir em decorrência do vício em games são:

Transtorno de ansiedade

Ao ficar longe do videogame, o paciente pode começar a se sentir mais ansioso. Se essa ansiedade não for controlada direito e o paciente não aprender a lidar com ela, é possível que isso se desenvolva para algo mais sério a ponto de ser necessário iniciar um tratamento medicamentoso.

Depressão

Por não sair de casa e ter suas relações pessoais comprometidas pelo hábito vicioso, o paciente pode desenvolver depressão e, nesses casos, também vai ser necessário o acompanhamento psiquiátrico e o uso de medicação controlada.

Sedentarismo

Ao passar a maior parte do dia jogando, o paciente pode deixar de lado as atividades físicas e desenvolver comportamento sedentário.

Dores no pescoço e coluna

Por ficar muito tempo na mesma posição em frente ao computador ou televisão, o paciente pode desenvolver dores no corpo.

Lesões nas mãos e braços

O esforço repetitivo dessas partes do corpo pode acarretar no surgimento de lesões.

Má-nutrição

Muitos pacientes que têm de conviver com o vício em jogos podem acabar se alimentando mal e desenvolver problemas nutricionais.

Como prevenir?

Ainda não existe um consenso na comunidade científica sobre qual seria a melhor forma de prevenir o vício em games, mas há uma crença de que a redução da exposição aos jogos possa ser uma saída.

Isso não significa que as crianças devem ser proibidas de jogar, muito pelo contrário. O que os especialistas sugerem é que haja cautela, isto é, que se imponham limites bem claros para a jogatina.

O tempo de jogo, por exemplo, vai variar de pessoa para pessoa. Por exemplo, a criança pode jogar, mas no máximo 2 horas seguidas, então tem de fazer outra atividade, como brincar com os amigos, ler um livro ou gibi etc. O importante é que o game não se torne uma obsessão.

A mesma coisa vale para os adultos, que podem intercalar as horas de jogatina com os estudos, conversas com amigos ou trabalho. Esse tipo de medida é mais proveitosa do que a abstinência total, pois ensina a prática do consumo saudável e sustentável.

Perguntas frequentes

Como diferenciar alguém que está com vício em games de alguém que simplesmente joga bastante?

Não é porque uma pessoa gosta muito de jogar videogames que ela necessariamente apresenta um vício. Na realidade, a parcela de jogadores que acaba desenvolvendo algum transtorno como o vício é muito pequena se comparada ao número total de pessoas que jogam diariamente.

Entretanto, o principal sintoma de quem está com um problema é quando a pessoa deixa de realizar atividades básicas, como se alimentar, ir ao banheiro ou tomar banho para ficar jogando.

Nos casos em que a jogatina está afetando alguma área importante da vida da pessoa, como a sua saúde física ou o seu desempenho na escola ou no trabalho, é uma boa ideia buscar por ajuda profissional.

Além disso, vale lembrar que existem pessoas que trabalham jogando, os jogadores de e-Sports. Nesses casos, haverá épocas em que a pessoa joga mais, com mais foco e atenção, pois está sendo exigida dela jogar, por conta de uma competição ou torneio.

Nesses casos, a fase tende a passar assim que a competição ou torneio termina também.

Como os amigos e familiares podem ajudar alguém que está com vício em games?

No caso dos pais de crianças e adolescentes, é muito importante que haja um diálogo aberto sobre os games com os filhos, além de atenção para perceber mudanças de atitude que perdurem por muito tempo.

Quando a criança ou adolescente deixa de sair com os amigos, apresenta comportamento agressivo ou ansioso pode ser um sinal de que ela está precisando de ajuda.

Entretanto, é muito importante perceber se não há outra questão, como bullying ou isolamento social, que está afetando a vida do filho. Muitas vezes, nesses casos, o jogos não são necessariamente o problema, mas sim uma válvula de escape.

Na maior parte dos casos, é a família que toma a iniciativa de buscar por ajuda, seja ela criança, adolescente ou adulto. É muito importante que a família converse bastante antes de tentar qualquer tipo de intervenção mais radical.

Durante essa conversa, tente entender o lado da pessoa e tente fazer com que ela entenda o seu também, sempre se colocando como alguém que está lá para apoiá-la, não para julgá-la.

Depois dessa conversa, é possível sugerir que ela busque por ajuda.

Teste: você deve procurar ajuda?

Faça o teste a seguir e confira se existe a possibilidade de você ter algum grau de problemas com os jogos e se deve procurar ajuda. Some os pontos correspondentes a sua resposta e confira o resultado.

1 – Você se sente culpado por gastar tempo demais jogando video games?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

2 – Você fica excessivamente irritado quando o game dá problema ou trava?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

3 – Você deixa de passar tempo com sua família e amigos para jogar?

  1. Frequentemente [10 pontos]
  2. Já fiz algumas vezes [5 pontos]
  3. Não, os games não são uma prioridade para mim [0 pontos]

4 – Você atrasa as refeições ou não quer sair para comer antes de uma partida acabar com frequência?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

5 – Você tentou diminuir o hábito ou parar de jogar completamente e não conseguiu?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

6 – Você deixou de aproveitar alguma atividade social que você gostaria de ter ido, como sair com os amigos, para ficar jogando?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

7 – Você sente que só conversa sobre videogame com os outros?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

8 – Você chega a sonhar com os jogos?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

9 – As pessoas ao seu redor se preocupam com a quantidade de tempo que você passa jogando?

  1. Sim [5 pontos]
  2. Não [0 pontos]

10 – Quando você senta para jogar, quanto tempo, em média, você fica jogando?

  1. De 30 minutos a 2 horas [0 pontos]
  2. De 2 a 5 horas [5 pontos]
  3. 6 horas ou mais [10 pontos]

11 – Você costuma ficar muito irritado quando alguém te interrompe jogando?

  1. As vezes chego a xingar a pessoa que está me atrapalhando. [10 pontos]
  2. Só se se trata de uma partida muito importante. [5 pontos]
  3. Não, é só um jogo. [0 pontos]

Resultados

De 0 a 25 pontos

Você provavelmente não tem problemas com games. Continue jogando com responsabilidade.

De 30 a 50 pontos

Cuidado! Fique atento aos seus hábitos de jogo, pois isso pode se desenvolver para algo pior.

55 ou mais pontos

Existe uma grande possibilidade de você ter um problema com games. Procure ajuda.


O vício em games é oficialmente um problema. Compartilhe este texto com seus amigos e familiares para que a disseminar a informação e tentar ajudar o máximo de pessoas possível!

E você? Já teve algum problema com games ou conhece alguém que teve? Conte pra gente nos comentários!

Referências

https://icd.who.int/dev11/l-m/en#/http%3A%2F%2Fid.who.int%2Ficd%2Fentity%2F1448597234

13/07/2018 11:32

Victor (Minuto Saudável)

Redator e revisor, estudou ciências biológicas na Universidade Federal do Paraná e é jornalista pela UniBrasil. Produz matérias sobre transtornos psicológicos, substâncias e medicamentos.

Ver comentários

  • Gostaria de relatar o fato de que gamers online com bom status precisam comprar diamantes virtuais e isso tem um custo. Não é raro adolescentes deixar de comprar o lanche na escola ou ainda guardar a mesada somente para isso. Pode até ser que enquanto não tenham o suficiente, procuram dinheiro por toda a casa e tenho certeza que como dependentes podem fazer coisas ilícitas como os demais viciados.

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