Redação (Minuto Saudável)
15/12/2018 08:00

Música melhora a comunicação de crianças com autismo

A música faz parte do que é ser humano. Nenhum outro animal compreende e domina completamente todos os aspectos da música, como ritmo, melodia e harmonia.

De fato, a música está presente há muitas gerações. O instrumento mais antigo encontrado foram flautas que datam de 43 mil a 82 mil anos atrás.

Ainda assim, é possível supor que, antes desse momento, humanos primitivos já tocavam instrumentos de percussão. Afinal, basta que se bata uma pedra na outra em um padrão para que se tenha ritmo, um dos componentes da música.

Essa relação entre os seres humanos e a música tem se mostrado cada vez mais profunda e, incrivelmente, benéfica para a saúde.

Através da musicoterapia, uma técnica desenvolvida nos hospitais militares da 2ª guerra mundial, é possível ajudar pacientes com transtornos neurológicos, doenças cardíacas, demência e muitas outras condições.

Uma delas, é o autismo.

Como a música pode ajudar crianças dentro do espectro?

Engajar-se em atividades musicais, como cantar e tocar instrumentos em terapias individuais pode melhorar as habilidades de comunicação sociais das crianças autistas, melhorar sua qualidade de vida e de sua família, além de aumentar a conectividade cerebral em locais importantes.

Essa foi a conclusão do estudo feito por pesquisadores da Universidade de Montreal e da Universidade McGill, publicado na revista Translational Psychiatry.

Para chegar até essas conclusões, os pesquisadores do Laboratório Internacional de Pesquisa de Cérebro, Música e Som da Universidade de Montreal e da Escola de Distúrbios e Ciências da Comunicação da Universidade McGill recrutaram 51 crianças com autismo, com idades entre 6 e 12 anos, para participar de um ensaio clínico envolvendo 3 meses de sessões de musicoterapia.

Primeiro, os pais responderam questionários a respeito das habilidades de comunicação social da criança e a qualidade de vida da família, bem como a gravidade dos sintomas dos filhos.

As crianças, então, foram submetidas à exames de ressonância magnética para estabelecer uma linha base da atividade cerebral de cada uma. Em seguida, foram aleatoriamente separadas em dois grupos: um que faria sessões de musicoterapia e outro não.

No grupo de música, as crianças participavam de sessões de 45 minutos em que cantavam e tocavam diferentes instrumentos musicais, trabalhando com um terapeuta para se engajar em uma interação recíproca.

O grupo controle, aquele que não se envolveu com música, trabalhou com o mesmo terapeuta e também se envolveu com brincadeiras recíprocas, só que sem nenhuma atividade musical.

Após os 3 meses de sessões, os pais das crianças do grupo de música relataram um número significativamente maior de melhorias nas habilidades de comunicação das crianças quando comparadas ao grupo controle.

Os dados coletados na ressonância magnética sugerem que melhorar as habilidades de comunicação em crianças que sofreram intervenção musical pode ser resultado de uma maior conectividade entre as regiões auditivas e motoras do cérebro, bem como a diminuição da conectividade entre as regiões auditivas e visuais.

Ou seja, como a criança é estimulada a tocar um instrumento, acaba utilizando as áreas motoras e auditivas do cérebro ao mesmo tempo.

E a conectividade entre essas regiões é crucial para integrar estímulos sensoriais no ambiente, sendo também essencial para interação social.

Por exemplo, quando estamos nos comunicando com outra pessoa, precisamos prestar atenção no que ela está dizendo, planejar com certa antecedência o que vamos falar e ignorar os ruídos irrelevantes para conversa.

Para pessoas com autismo, essa pode ser uma tarefa desafiadora.

Entenda o autismo

O autismo, que também pode ser chamado de Transtorno do Espectro Autista (TEA), é um transtorno que causa problemas no desenvolvimento da linguagem, nos processos de comunicação e na interação e comportamento social.

As causas do autismo ainda são desconhecidas, porém, a hipótese mais aceita hoje é de que o TEA acontece por uma combinação de fatores como predisposição genética e a influência de fatores ambientais.

Os sintomas do transtorno normalmente começam a aparecer por volta dos 2 anos de idade, e fazem com que as crianças autistas nessa fase tenham dificuldade para brincar de faz de conta, interagir com outras pessoas e se comunicar, verbalmente ou não.

Além disso, muitos autistas têm visão, audição, paladar, tato ou olfato altamente sensíveis, o que os leva a experienciar o mundo de uma maneira completamente diferente.

Para elas, por exemplo, um ruído normal pode ser doloroso, levando-a a cobrir os ouvidos com as mãos.

Isso, muitas vezes, pode fazer com que eles sejam emocionalmente instáveis em alguns momentos, apresentando alterações emocionais exageradas ou anormais às mais simples mudanças na rotina.

É possível que ocorra acessos de raiva, baixa capacidade de atenção, hiperatividade ou passividade em excesso, comportamento agressivo com outras pessoas e consigo mesmo etc.

Vale lembrar que os sintomas variam bastante de pessoa para pessoa, sendo mais graves em uns e mais brandos em outros.

As pessoas dentro do espectro ainda podem apresentar problemas de comunicação, como:

  • Não conseguir iniciar ou manter uma conversa;
  • Comunicar-se através de gestos ao invés de palavras;
  • Desenvolver linguagem lentamente ou não desenvolvê-la;
  • Não ajustar a visão para olhar para objetos que as outras pessoas estão olhando;
  • Não se referir a si mesmo da maneira correta — a criança pode dizer “você quer água”, quando queria dizer “eu quero água”;
  • Repetir palavras ou trechos memorizados, como comerciais;
  • Usar rimas sem sentido.

Apesar de não ter cura, existe uma série de tratamentos que podem ajudar a pessoa dentro do espectro a se desenvolver plenamente e com qualidade de vida.

Esses tratamentos envolvem terapia, uso de medicamentos, terapia ocupacional e terapia de comunicação e comportamento. E agora, por que não, a musicoterapia?

Musicoterapia no Brasil

A musicoterapia é bastante utilizada no Brasil. Por se tratar de um híbrido entre arte e saúde, os profissionais da área, os musicoterapeutas, se formam em cursos superiores oferecidos em escolas de arte, tendo em vista que, para praticar a profissão, é necessário ter um domínio avançado de instrumentos musicais como o piano e o violão.

Os musicoterapeutas trabalham em clínicas, hospitais psiquiátricos, instalações de reabilitação, ambulatórios, centros de tratamento de creche, agências que atendem pessoas com problemas de desenvolvimento, centros de saúde mental, centros de idosos, instalações correcionais, escolas e diversos outros lugares.

Além disso, a musicoterapia é ofertada gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) desde janeiro de 2017. A adoção da técnica visa oferecer um tratamento mais humanizado, sendo que o Ministério da Saúde também passou a oferecer sessões de arteterapia, meditação, quiropraxia e outras técnicas alternativas.


O autismo é um transtorno que traz inúmeros desafios para os seus portadores. Entretanto, às vezes, algo simples, como a música, pode se tornar um grande aliado na melhora da qualidade de vida das pessoas dentro do espectro.

Este estudo foi o primeiro ensaio clínico a demonstrar que a intervenção musical para crianças em idade escolar com autismo pode trazer grandes benefícios para sua comunicação e desenvolvimento.

Fique de olho no Minuto Saudável para saber mais novidades na área da saúde!

Fonte consultada

Music improves social communication in autistic children – Translational Psychiatry

17/04/2019 16:43

Redação (Minuto Saudável)

Somos um time de especialistas em conteúdo para marketing digital, dispostos a falar sobre saúde, beleza e bem-estar de maneira clara e responsável. Confira mais na nossa página de quem somos.

Ver comentários

  • Boa noite,gostei muito do conteúdo, parabéns.!

    Cancelar resposta

    Deixe uma resposta

    Seu endereço de e-mail não será publicado Campos obrigatórios estão marcados*

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado Campos obrigatórios estão marcados*