Você já recebeu vídeos, mensagens e textos falando sobre o flúor fazer mal para saúde?

Se sim, saiba que muitas delas podem conter informações falsas ou imprecisas sobre essa substância.

A verdade é que existem, sim, riscos relacionados ao consumo excessivo de flúor, mas, ao contrário do que muita gente acredita, nenhum deles tem a ver com a redução do QI ou efeitos sobre a memória e cognição.

Leia o texto a seguir para entender mais sobre o flúor, como ele começou a ser usado e o que sabemos até agora sobre os benefícios e malefícios do seu consumo.

Índice – neste artigo você vai encontrar as seguintes informações

  1. O que é o flúor?
  2. Por que começaram a adicionar flúor na água?
  3. Como o flúor combate as cáries?
  4. Argumentos a favor da fluoretação
  5. Argumentos contrários à fluoretação
  6. Flúor faz bem ou faz mal?
  7. O que podemos concluir?

O que é o flúor?

O flúor nada mais é do que um mineral natural encontrado em diversas regiões do planeta Terra. É encontrado em abundância no mar e em minerais, dentre os quais podemos destacar a fluorita (CaF2), a fluorapatita (Ca5(PO4)3F) e a criolita (Na3AIF6).

Ele pode ser encontrado naturalmente:

  • Na água;
  • No solo;
  • Em plantas;
  • Em pedras;
  • No ar.

A substância pode ser utilizada no controle de cáries e está presente tanto na água tratada de diversas regiões do Brasil como em produtos como a pasta de dente.

Por que começaram a adicionar flúor na água?

Na década de 1930 e no início da década de 1940, o Instituto Nacional de Saúde dos EUA publicou diversos estudos epidemiológicos sugerindo que uma concentração de flúor de cerca de 1mg/L poderia diminuir substancialmente o número de cáries nos moradores.

Até aquele momento, não havia outros estudos que demonstravam efeitos negativos do flúor, mesmo em áreas em que a concentração dessa substância na água era tão alta quanto 8mg/L.

Por essa razão, decidiu-se testar a hipótese de que a adição de flúor na água reduziria o número de cáries na população.

Dessa forma, a substância começou a ser adicionada à água de forma experimental em 1945, em Grand Rapids, Michigan, nos Estados Unidos.

Os resultados, publicados em 1950, mostraram que a incidência de cáries na população diminuiu significativamente.

Por conta desses resultados, a fluoretação da água se tornou uma política oficial dos EUA, sendo adotada em boa parte do país.

Segundo a Bioquímica e Gerente de Avaliação de Conformidades da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Cynthia Correia Malaghini, no Brasil, a primeira capital do país a receber o benefício da fluoretação foi Curitiba.

“Aqui começou em 20 de outubro de 1958, na estação de tratamento do Tarumã, que foi a primeira do Paraná. A partir disso, nos anos 1960, mais 5 cidades começaram a ter fluoretação da água. Começou em Cornélio Procópio, depois em União da Vitória, Jacarezinho e Umuarama.”

Foi só em 1974, durante o governo de Ernesto Geisel, que a fluoretação das águas de abastecimento público se tornou obrigatória.

Como o flúor combate as cáries

Segundo o Dr. Eduardo Karam, cirurgião dentista, especialista e mestre em odontopediatria e doutor em estomatologia, membro da Associação Paranaense de Odontologia e Professor da PUC-PR, o flúor age de maneira tópica, não sistêmica.

Isso significa que, para fazer efeito, a substância precisa simplesmente entrar em contato com os dentes, ao contrário de outros medicamentos, que precisam entrar na corrente sanguínea.

“Existem alguns colegas médicos que falam que o flúor mata as bactérias. Não. Esse não é o objetivo do flúor, ele não é um agente antibacteriano. O flúor age num processo de remineralização, é uma ação puramente bioquímica.

Segundo Dr Eduardo, para que o flúor tivesse ação antibacteriana, ele teria de ser usado em altas concentrações, somente em casos muito específicos e com uso tópico, o que definitivamente não é o caso da água de abastecimento.

Ao explicar como o flúor age, o Dr. Eduardo define a cárie como a perda de minerais dos dentes.

“Assim, o flúor sequestra esses minerais perdidos, como o cálcio, ‘atrapalhando’ o processo de desmineralização promovido pela cárie. Inclusive, nós podemos dizer que ele faz um processo de remineralização.”

O doutor explica que até lesões causadas por cáries em estágios iniciais podem ser inativadas pelo efeito do flúor, independente da bactéria e ela vai ser removida por outros meios, pela escova de dente, pelo fio dental, mas não pelo flúor.

Leia mais: O que é saúde bucal? Saiba sua importância e dicas de cuidados

Argumentos a favor da fluoretação

Desde que foi implementada, a fluoretação vem sendo defendida pela comunidade científica e por órgãos oficiais do governo. Veja a seguir algumas entidades ao redor do mundo que são a favor da fluoretação da água:

  • Academia de Odontologia Geral (Academy of General Dentistry);
  • Academia Americana de Medicina Familiar (American Academy of Family Physicians);
  • Associação Odontológica Americana (American Dental Association);
  • Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics);
  • Associação Americana de Saúde Pública (American Association of Public Health);
  • Conselho de Ciência e Saúde Americano (American Council of Science and Health);
  • Federação de Professores Americanos (American Federation of Teachers);
  • Associação Médica Americana (American Medical Association);
  • Associação de Saúde Pública Americana (American Public Health Association);
  • Sociedade de Nutrição Clínica Americana (American Society for Clinical Nutrition);
  • Associação Odontológica Australiana (Australian Dental Association);
  • Fundação da Saúde Dental Britânica (British Dental Health Foundation);
  • Associação Médica Britânica (British Medical Association);
  • Associação Odontológica Canadense (Canadian Dental Association);
  • Associação de Saúde Pública Canadense (Canadian Public Health Association);
  • Centro de Controle e Prevenção de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention – CDC).

Todas essas associações, fundações e coletivos possuem diversos argumentos favoráveis à prática. Confira alguns deles:

Previne a deterioração dos dentes

Os defensores da fluoretação da água argumentam que essa é a maneira mais efetiva de prevenir a deterioração dos dentes.

Até mesmo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) já elegeu a fluoretação da água comunitária como a décima maior conquista em saúde pública do século 20.

Protege a população das cáries

Estudos feitos pela Associação Odontológica Americana mostraram que a fluoretação da água nas comunidades previne ao menos 25% das cáries em crianças e adultos.

Isso ocorre mesmo em áreas em que o acesso a outras fontes de flúor é mais fácil (lugares onde a pasta de dente é amplamente utilizada).

É seguro e efetivo

Mais de 100 organizações de saúde nos Estados Unidos, muitas delas citadas acima, reconhecem a eficácia e segurança da fluoretação para a prevenção de cáries e problemas dentais.

É econômico

Tratar a população através da fluoretação é mais barato do que oferecer tratamentos dentários para cada pessoa que tiver problemas que podem ser evitados com a falta de flúor.

A estimativa é de que, na maioria das cidades dos EUA, cada 1 dólar investido na prática economiza, em média, 38 dólares em custos de tratamento odontológico.

É natural

O flúor está presente naturalmente em rios, lagos, lençóis freáticos e nos oceanos. A fluoretação somente ajusta as quantidades da substância presentes na água a ser consumida para que se previna o surgimento de cáries.

Para quem é a favor da fluoretação, a prática é similar a de adicionar vitaminas e outros nutrientes em comidas e bebidas — um exemplo é a adição de vitamina D no leite, a adição de cálcio ao suco de laranja e a adição de ácido fólico ao pão.

Argumentos contrários à fluoretação

Ainda que órgãos oficiais, como o CDC, reconheçam que a fluoretação é importante para manter a saúde bucal das populações, existem diversos grupos que resistem à ideia de se adicionar flúor à água.

Para tocar no assunto de maneira mais organizada, vamos nos concentrar nos argumentos utilizados pela Fluoride Action Network (FAN), uma organização estadunidense que contesta a eficácia e a segurança da fluoretação da água.

A FAN elenca, em seu site, várias razões para que a fluoretação da água pare de ser feita pelos órgãos governamentais. Confira:

A fluoretação causa fluorose dentária e óssea

A fluorose dentária é uma descoloração dos dentes causada pela ingestão excessiva de flúor. Essa afirmação é reiterada por um estudo feito em 2006 pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA (NRC).

A fluoretação pode aumentar o risco de fraturas ósseas

De acordo com o mesmo estudo feito pelo NRC, a fluoretação da água pode aumentar, nos adultos, o risco de fraturas ósseas e, possivelmente, de fluorose esqueletal, uma doença que provoca o enrijecimento das articulações.

O excesso de flúor no organismo pode causar problemas sérios de saúde

O mesmo relatório da NRC também constatou que o excesso de flúor no organismo pode ser prejudicial à saúde, podendo causar problemas como câncer ósseo, além de danos ao cérebro e à tireóide.

Flúor faz bem ou faz mal?

Assim como para todas as outras substâncias presentes no planeta Terra, a resposta é: depende.

Segundo o odontopediatra, Dr. Eduardo Karam, tudo depende da dose.

O flúor é um elemento químico e todos os elementos químicos podem ser ‘do bem’ ou não. A verdade é que a diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem. O mesmo elemento pode ser um remédio ou um veneno. E o flúor não é diferente disso.

A mesma opinião é dividida por Cynthia Magahlini, que dia que o flúor só é bom dentro do limites. Se você passar do limite permitido [pelas normas técnicas internacionais definidas pela OMS] ele pode causar sobrecarga”.

A bioquímica explica que há todo um cálculo levando em conta as outras fontes de flúor, como a pasta de dente e alimentos (como a bolacha), feito nas estações de tratamento antes do processo ser iniciado justamente para evitar sobrecargas.

“Fazemos análises diárias nas estações de tratamento. Dependendo da situação, essas análises são feitas de hora em hora para verificar se esse flúor está em uma condição mínima.”

O controle é tão minucioso, explica Cynthia, que a concentração de flúor na água deve variar dependendo da temperatura do ambiente.

No Paraná, por exemplo, se trabalha com uma concentração de 0,6mg/L ou 1,1mg/L a depender da temperatura ambiente. No nordeste, por outro lado, as concentrações utilizadas são menores, pois as pessoas tendem a beber mais água.

Segundo a gerente da Sanepar, isso é feito para evitar problemas de saúde, pois o consumo prolongado de água com uma concentração acima de 2mg/L pode causar fluorose, que é o acúmulo do flúor nos ossos e nos dentes.

Talvez seja por essa razão que a polêmica envolvendo o flúor exista a tanto tempo.

O próprio Dr. Eduardo Karam revela que ouve “conversas estranhas” sobre o flúor desde a sua formação acadêmica. “Desde que eu fiz odontologia, há mais de 30 anos, já se falava dessa questão.”

Mesmo assim, o cirurgião dentista se mantém otimista. “Quanto mais polêmica houver, eu acho uma melhor oportunidade para que a gente possa esclarecer à população.”

Esse otimismo, entretanto, não o exime de ser categórico ao afirmar que “o flúor é benéfico na água de abastecimento. Eu diria que é o melhor agente preventivo. Ele é melhor até que os próprios dentistas, porque sozinho reduz a prevalência de cárie em mais de 50%.”

O que podemos concluir?

Após pesquisar sobre o assunto e consultar especialistas, podemos afirmar que o flúor na água de abastecimento não faz mal, exceto em casos em que há uma concentração superior à recomendada por órgãos internacionais.

As afirmações de que o flúor na água de abastecimento seria um risco, então, não se sustentam. Afinal, é como me disse o Dr. Eduardo Karam:

“Você acha que as principais entidades responsáveis pela saúde, dentre elas a OMS, não teriam todas tomado uma atitude se houvesse problemas na utilização do flúor na odontologia?”

É uma pergunta válida e deve ser feita por aqueles que, mesmo com todas as explicações, ainda não se convenceram da segurança do flúor.

Mas, ainda assim, é possível que surjam dúvidas a respeito da ciência por trás da utilização do flúor. Para aqueles que levantam essa questão, vale novamente a fala do Dr. Eduardo:

“A ciência vai evoluindo. Ela é dinâmica. Pode ser que daqui a 15 anos a gente mude de posicionamento, mas hoje a gente pode afirmar com segurança que o flúor traz benefícios com relação à prevalência e incidência da cárie em todos os lugares onde ele é bem administrado.”


Hoje você aprendeu mais sobre o flúor e tirou suas dúvidas com relação à segurança dessa substância nas águas de abastecimento públicas.

Caso tenha gostado, mande esse texto para aquele amigo que está espalhando notícias falsas a respeito desse assunto.

Mais textos investigando a veracidade de afirmações sobre saúde você encontra no quadro Minuto Investiga, do Minuto Saudável!

Fontes consultadas

Minuto Saudável: Somos um time de especialistas em conteúdo para marketing digital, dispostos a falar sobre saúde, beleza e bem-estar de maneira clara e responsável.

Editor Médico

Dr. Paulo Caproni

CRM/PR 27.679

Graduado em Medicina pela PUCPR. Residência Médica em Medicina Preventiva e Social pela USP. MBA em Gestão Hospitalar e de Sistemas de Saúde pela FGV.

Farmacêutica Responsável

Dra. Francielle Mathias

CRF/PR 24612

Farmacêutica generalista, com Mestrado em Ciências Farmacêuticas, ambos pela Unicentro. Doutorado em Farmacologia pela UFPR.

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