Tomar aspirina todos os dias ajuda a prevenir doenças cardíacas?

Segundo pesquisa, o consumo diário provoca um aumento de 38% no risco de hemorragia cerebral em pacientes saudáveis

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Segundo dados divulgados pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), as doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morte no mundo. Somente em 2017, o número de pacientes que sofreram complicações como ataques cardíacos e derrames foi de 17 milhões.

Esses números alarmantes também refletem no país. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, no Brasil, as doenças cardiovasculares representam mais de 30% dos óbitos registrados no país.

Para reduzir essas estimativas, a prevenção contra essas doenças é um dos caminhos mais buscados e promovidos por instituições como a Organização Mundial da Saúde e Ministério da Saúde.

No cerne da discussão está o uso do ácido acetilsalicílico, conhecido como aspirina ou AAS.

Normalmente, o medicamento é usado para o tratamento de sintomas de quadros gripais, resfriados, cólicas menstruais, dores nas articulações e musculares.

Mas, como medida preventiva, o medicamento também tem sido usado no combate à doenças cardíacas.

O que dizem os pesquisadores?

A ciência já chegou à conclusão de que a aspirina, em doses diárias baixas, serve como opção para prevenção secundária da DCV. Ou seja, a substância pode ser usada em pacientes que já sofreram complicações cardiovasculares, como um acidente vascular cerebral (AVC) ou ataque cardíaco.

De modo geral, em pacientes nessas condições, os benefícios do uso da aspirina são considerados superiores aos riscos. No entanto, só devem ser feitos quando há orientação médica, pois a automedicação pode trazer sérios riscos à saúde.

Mas, em relação a prevenção primária, isto é, em pessoas que nunca tiveram nenhuma doença cardiovascular, não há estudos que comprovem o benefício.

Pelo contrário, de acordo com uma pesquisa divulgada pela Harvard Health Publishing, o uso de aspirina nesses casos pode ser ainda mais perigoso para a saúde, podendo provocar complicações como sangramento gastrointestinal e cerebral.

O estudo ARRIVE, apresentado na conferência European Society of Cardiology (um dos maiores encontros sobre cardiologia do mundo), mostrou resultados importantes acerca da relação da aspirina e a prevenção primária de DCV.

O estudo foi feito a partir da avaliação de mais de 19 mil pessoas saudáveis, misturando-as entre as que fizeram uso de 100 mg de aspirina diariamente e as que receberam placebo (substância sem propriedades terapêuticas).

Após 5 anos de acompanhamento, o estudo não mostrou que o uso de aspirina seja benéfico em relação aos riscos, pois houve um aumento expressivo de complicações como sangramento gastrointestinal. Em relação a ataques cardíacos, derrames e mortes, não houve mudança significativa nas taxas.

Portanto, não é certo afirmar que a aspirina pode prevenir complicações cardíacas em pessoas saudáveis, que nunca tiveram derrame cerebral, ataque cardíaco ou outras complicações.

Em estudos anteriores a esse e de acordo com a  Food and Drugs Administration (FDA), nos EUA, a conclusão é de que os dados são insuficientes para confirmar os benefícios no uso da aspirina por pessoas saudáveis.

Dessa forma, o recomendado, por enquanto, é de que as pessoas sem histórico de doenças cardíacas não devem tomar uma aspirina ao dia como prevenção, pois a relação risco-benefício é ainda inconclusiva.

O que deve ser levado em conta são as orientações médicas e uma mudança de hábitos para reduzir os fatores de risco.

Como a aspirina ajuda na prevenção secundária de doenças cardiovasculares

De acordo com a farmacêutica e doutora em farmacologia Francielle Tatiana Mathias, as pessoas que já tiveram algum episódio de problemas cardiovasculares, como AVC ou infarto, possuem  chances maiores de uma reincidência. Por isso, a aspirina (AAS) pode ser utilizada para prevenção.

A aspirina é um medicamento que pertence a classe dos AINES (anti-inflamatórios não esteroidais), feito a partir do princípio ativo ácido acetilsalicílico.

É um remédio que atua inibindo uma enzima chamada COX (cicloxigenase), responsável por converter a molécula ácido araquidônico em prostaglandinas, mediadores presentes em processos inflamatórios como a febre e a dor. Por isso, ao inibir a ação do COX, a aspirina ajuda no tratamento de processos inflamatórios.

Mas, o COX também converte o ácido araquidônico em tromboxanos, sendo esses os mediadores responsáveis por provocar vasoconstrição e formação de placas (agregação plaquetária).

“Nessas pessoas, o AAS é uma boa estratégia,  pois se difere dos outros AINEs por causar uma inibição irreversível da COX, uma vez que para os outros AINES a inibição é reversível”, explica.

Nesse sentido, a aspirina pode contribuir na prevenção secundária de DCV ao impedir essa conversão de ácido araquidônico em tromboxanos e evitar a formação de coágulos, um dos fatores de risco para doenças como infartos, acidente vascular cerebral e outras complicações cardiovasculares.

Como prevenção primária em pessoas saudáveis ou que não apresentam fatores de risco, o uso não é indicado justamente por não ser necessário prevenir coágulos na corrente sanguínea.

“Pessoas que não apresentam nenhum tipo de disfunção cardiovascular não devem ter o processo de coagulação alterado, isso só irá predispor sangramentos desnecessários”, alerta a farmacêutica.

Afinal, devo tomar aspirina todos os dias?

De modo geral, a resposta é não. O uso de medicamentos, seja para uso pontual ou contínuo, não deve ser feito sem orientação médica.

Como apresenta o estudo, o uso diário da aspirina só deve acontecer quando o médico do paciente, que deve conhecer previamente seu histórico e avaliar a relação risco-benefício, entende que é necessário, pois existem pacientes saudáveis que apresentam um risco maior de desenvolver alguma doença cardiovascular e por isso podem se beneficiar.

Mas, isso inclui pessoas com histórico familiar de ataques cardíacos prematuros, colesterol muito alto, que sejam fumantes e outros fatores de risco, por exemplo. Entretanto, o uso não deve ser feito por iniciativa do paciente.

Em pessoas saudáveis que não possuem algum fator de risco associado ao desenvolvimento de DCV, o melhor é optar por outras alternativas de prevenção, pois a aspirina pode provocar efeitos colaterais graves, como hemorragias.

Como se prevenir de doenças cardiovasculares?

Alguns fatores de risco, como genética, idade e sexo, são considerados irreversíveis e fogem do controle do paciente. Mas, é possível se prevenir de doenças cardiovasculares controlando os fatores de risco relacionados aos hábitos.

Os principais fatores de risco envolvem níveis altos de colesterol e triglicerídeos, diabetes, obesidade, hipertensão e sedentarismo, por exemplo.

Para ajudar a manter o coração saudável é importante praticar exercícios físicos, se alimentar melhor, manter sob controle os níveis de colesterol, reduzir o consumo de açúcar, controlar o peso, ter cuidado com a pressão arterial, deixar de fumar e reduzir o estresse.

Pessoas que apresentam histórico familiar, especialmente, devem seguir esses cuidados e passarem pelo acompanhamento médico regular.


Para reduzir os índices de mortes causadas por doenças cardiovasculares, algo precisa ser feito. No entanto, segundo os estudos presentes, usar medicamentos como a aspirina para prevenção primária ainda não é o melhor caminho a ser seguido, nem o mais seguro.

Por isso, escolha um estilo de vida mais saudável e mantenha uma rotina preventiva de idas ao médico. Compartilhe essa matéria para que mais pessoas saibam como cuidar melhor do coração!

Para mais dicas sobre saúde e bem-estar, acompanhe os outros artigos do Minuto Saudável.

Fontes consultadas

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