O que é a doação de órgãos e tecidos?

A doação de órgãos é o ato de doar, em vida ou após a morte, órgãos e tecidos para ajudar as pessoas que precisam de um transplante como recurso de tratamento.

Em vida, as pessoas podem doar medula óssea e partes do rim, fígado e, em casos específicos, parte do pulmão.

Para a doação de órgãos de pessoas falecidas, é necessário a confirmação da morte encefálica. Doa-se, nesses casos, órgãos (coração, pulmão, rim, fígado e pâncreas) e tecidos (pele, ossos, válvulas cardíacas, medula óssea e córneas).

Além da morte encefálica, há também a possibilidade de doação quando a causa da morte é uma parada cardíaca. Nesses casos, no entanto, somente os tecidos são doados.

Um único doador é capaz de beneficiar vários pacientes que estão na fila de espera, sendo essa fila uma lista única e nacional.

Para ser um doador, não é necessário deixar nenhum documento ou registro oficial. O que é levado em conta é a autorização familiar.  Por isso, informar os entes queridos desse desejo é o mais importante.

A doação de órgãos e tecidos é um gesto transformador na vida de quem recebe o transplante e também para quem doa. Pode parecer estranho pensar assim, pois muitas vezes nos esquecemos da doação em vida, mas essa possibilidade existe.

Sendo uma doação enquanto vivo ou após o falecimento, o que importa é que, certamente, essa é uma ação capaz de mudar a história de muitas pessoas.

No texto a seguir, descreveremos como funciona a doação de órgãos e tecidos.

Índice – neste artigo você encontrará as seguintes informações:

  1. O que é a doação de órgãos e tecidos?
  2. Como funciona?
  3. O que é a morte encefálica?
  4. Quem pode doar?
  5. Doação de órgãos em vida
  6. Quem não pode doar?
  7. Quais órgãos e tecidos podem ser doados?
  8. Por que doar?
  9. Como funciona a Lista de Espera?
  10. Tempo de isquemia de cada órgão
  11. Relato: como é receber um transplante?
  12. Campanhas
  13. Perguntas frequentes

Como funciona?

A doação de órgãos funciona a partir de algumas etapas. Podemos considerar que a primeira iniciativa para ser um doador é manifestar essa vontade para os familiares, pois este será o fator determinante para que esse desejo seja concretizado.

A partir disso, considerando os casos de doação após morte encefálica (potencial doador), os passos são os seguintes:

Diagnóstico da morte encefálica

O diagnóstico da morte encefálica é considerado o primeiro passo para a doação de órgãos, pois, a princípio, todo paciente com diagnóstico de morte encefálica confirmado pode ser um doador.

Nessa condição, mesmo com a falência cerebral, o coração continua batendo, mantendo a circulação sanguínea para os órgãos. É essa condição que torna viável a doação de praticamente todos os órgãos.

Após a série de exames realizados, normalmente feitos por mais de um médico, o diagnóstico é estabelecido e essa circulação é preservada de forma artificial, com o uso de medicamentos e aparelhos.

Essa circulação artificial é mantida enquanto os hospitais entram em contato com a família do paciente e com a Central de Transplantes.

Essa notificação para a Central de Transplantes deve ser feita obrigatoriamente, mesmo quando não acontece a doação.

Autorização da família

Após o diagnóstico da morte encefálica, a comunicação com a família do paciente deve ser feita, para que a possibilidade de doação seja informada e esclarecida. As dúvidas sobre a morte encefálica devem ser esclarecidas e a família é questionada sobre o desejo de doar os órgãos.

Como no Brasil não há obrigatoriedade de nenhum documento ou registro oficial para ser um doador, a autorização da família é o que determinará a doação. Por isso, é importante ressaltar que esse desejo de ser um doador deve ser conversado e respeitado.

Entrevista familiar

Com a autorização da família, uma entrevista deve ser realizada para que um histórico clínico possa ser traçado. Isso é feito para investigar hábitos do doador que podem ser considerados de risco para o desenvolvimento de doenças e infecções, o que impediria a doação para o receptor.

A descoberta de infecções, consumo de drogas injetáveis e doenças crônicas, por exemplo, são impeditivos para a doação, pois são condições que podem comprometer o órgão a ser doado.

Além da entrevista e do questionário, exames devem ser feitos para avaliar a compatibilidade do órgão doado com os pacientes na fila de espera.

Retirada de órgãos

A retirada dos órgãos é feita através de uma cirurgia comum, que não deve deixar o corpo do doador desconfigurado.

São vários órgãos que podem ser doados de um mesmo doador, o que beneficia muitos pacientes na fila de espera.

A ordem de retirada dos órgãos deve ser feita de acordo com o tempo que o órgão durará sem a circulação sanguínea adequada, condição chamada de tempo de isquemia.

Nessas cirurgias, são retirados, normalmente, coração, pâncreas, fígado, intestino, pulmões, rins, vasos, pele, ossos, tendões e córneas.

Centros de Transplante

Nesse momento, os Centros de Transplante, que são integrados, devem avaliar os dados do doador cruzando com as informações das pessoas que estão na fila de espera, para que o paciente ideal seja notificado, de acordo com todos os requisitos de urgência e tempo de espera.

Transporte

Todo o processo de doação de órgãos é considerado uma corrida contra o tempo para que tudo dê certo, principalmente quando se trata da logística de transporte.

A forma como é transportado depende também da distância entre o doador e o receptor, podendo ser por via aérea ou por transportes terrestres.

Quando se trata de uma doação entre pessoas de estados diferentes, o manejo do órgão deve ser feito através de um transporte aéreo disponibilizado pelo Ministério da Saúde.

Há também a colaboração de companhias aéreas para que empresas transportem os órgãos de forma gratuita em voos comerciais, além da Força Aérea Brasileira (FAB), que também deve ajudar quando há uma solicitação pela Central Nacional de Transplantes.

Recuperação

A recuperação após o transplante exige cuidados, como em qualquer processo pós-operatório. No caso de pacientes transplantados, o que deve ser um cuidado a mais é o uso de remédios imunossupressores durante a vida toda, para evitar a rejeição do novo órgão pelo organismo.

O que é a morte encefálica?

Quando se fala de doação de órgãos discute-se também sobre a morte encefálica, ou morte cerebral. Esse é, normalmente, um tema que gera bastante dúvida nas pessoas e que pode ser difícil de entender, principalmente no momento da perda de um ente querido.

A morte encefálica é declarada quando o indivíduo apresenta uma parada completa e irreversível das funções cerebrais. Quando isso acontece, o paciente só é mantido “vivo” com a ajuda de aparelhos, por isso o coração continua batendo e as doações são possíveis.

A confirmação da morte cerebral acontece apenas quando se há uma série de exames médicos que confirmem esse diagnóstico. Normalmente, os testes são refeitos com intervalos de tempo, para a confirmação exata.

Os testes devem comprovar que o paciente não está mais reagindo a nenhum reflexo cerebral, assim como certificar de que o paciente não é mais capaz de respirar por conta própria.

Exames como o eletroencefalograma e o angiograma cerebral podem ser feitos para confirmar ausência de fluxo sanguíneo e das atividades cerebrais. Em alguns casos, mesmo com o cérebro inativo, pode ocorrer espasmos ou contração muscular, devido aos impulsos elétricos que podem permanecer na coluna vertebral.

A morte cerebral só é notificada quando o diagnóstico é confirmado. Então, o indivíduo é declarado legalmente morto, sendo a hora de óbito registrada nesse momento e não no momento de retirada dos aparelhos.

É importante saber que, quando a morte encefálica é declarada, significa que não há mais nada que possa ser feito para recuperar o paciente.

Por fim, quando um diagnóstico de morte encefálica é confirmado, os hospitais devem notificar às Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos. Deve-se informar a idade, nome e causa da morte, além do hospital em que o paciente está internado.

Mesmo quando não há o consentimento familiar ou quando a condição do paciente não é favorável para a doação, essa notificação é obrigatória.

Quando o paciente é um possível doador, a decisão pertence a família, por isso é importante que durante a vida o paciente avise seus familiares desse desejo.

A morte encefálica pode ser causada por diferentes causas como traumatismo craniano, parada cardiorrespiratória, acidente vascular cerebral (AVC), inchaço no cérebro, aumento de pressão intracraniana, tumores, overdose e falta de glicose no sangue.

Quem pode doar?

Não existem grandes restrições para ser um doador. Pessoas saudáveis que estejam dentro dos critérios estabelecidos podem ser considerados doadores em potencial, mesmo que não sejam de todos os órgãos e tecidos.

Além disso, é possível ser também um doador em vida, como no caso de transplante de medula óssea e parte de órgãos como rim e fígado, por exemplo.

Entre os critérios para doação se tem também a necessidade de documentação, ter mais de 18 anos de idade ou apresentar autorização dos responsáveis.

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, deve se considerar como potencial doador todas as pessoas diagnosticadas com morte encefálica.

Em algumas condições, a doação é mais comum ou exige alguns cuidados diferentes:

Morte encefálica

A morte encefálica, ou morte cerebral, é a causa de morte mais mencionada quando se trata de doação de órgãos, pois nesses casos todos os órgãos e tecidos saudáveis podem ser doados.

Parada cardíaca

Nesses casos, a doação de órgãos como rins e coração não pode ser feita, devido a falta de circulação ocorrente. No entanto, ainda é possível a doação de tecidos como córnea, vasos, pele, tendões e ossos.

Morte em casa

Nestes casos, as córneas podem ser doadas dentro do prazo de 6 horas após a morte, devido a falta de circulação.

No entanto, a doação de outros órgãos não pode ser feita, devido aos danos que a falta de circulação sanguínea provoca, oferecendo maior risco de morte aos receptores.

Doação de órgãos em vida

Para ser um doador em vida é necessário cumprir alguns requisitos:

  • Apresentar uma condição boa de saúde, em que a doação do órgão ou tecido não o comprometa;
  • Ser maior de 18 anos ou menor de idade emancipado (cidadão juridicamente capaz);
  • O receptor precisa apresentar indicação terapêutica indispensável de transplante;
  • Com exceção dos casos de doação de medula óssea, para ser um doador em vida, o receptor deve ser cônjuge ou apresentar parentesco de até quarto grau (pais, irmãos, filhos, avós, tios e primos).

Quando se trata de uma doação para pessoas que não se encaixam nesse requisito de parentesco, ela só pode ser realizada quando há uma autorização judicial.

Quem não pode doar?

Em algumas condições, a doação de órgãos ou tecidos não pode ser feita, devido aos riscos que traria para a saúde do receptor. Entre os impeditivos, estão:

  • Doenças que comprometem as funções dos órgãos ou tecidos, tais como insuficiência dos rins, coração, pulmões, medula óssea e fígado;
  • Doenças transmissíveis como portadores com HIV/AIDS, hepatite B e C e outras restrições colocadas para a doação de sangue;
  • Infecção generalizada que não possa ser curada;
  • Tumores malignos, exceto àqueles que acometem restritamente ao sistema nervoso central, pele e útero;
  • Insuficiência de órgãos e sistemas;
  • Doenças degenerativas crônicas, como reumatismo, esclerose múltipla, câncer, Alzheimer etc.

Quais órgãos e tecidos podem ser doados?

A doação de órgãos pode ser dividida entre os órgãos que podem ser doados após a morte e em vida.

Após a morte

A doação após a morte acontece, normalmente, em casos de morte encefálica e parada cardíaca.

Em casos de morte encefálica, o número de receptores que podem ser beneficiados é maior, pois a maioria dos órgãos e tecidos podem ser doados. No caso de mortes por parada cardíaca, a doação se restringe apenas aos tecidos.

Segundo o Ministério da Saúde, os órgãos e tecidos que podem ser doados, quando há o consentimento familiar, são:

Órgãos

  • Coração;
  • Pulmões;
  • Rins;
  • Fígado;
  • Pâncreas;
  • Intestino.

Tecidos

  • Valvas cardíacas;
  • Córneas;
  • Medula óssea;
  • Pele;
  • Cartilagem;
  • Ossos;
  • Sangue.

Em vida

Em vida, as pessoas podem ser doadores dos seguintes órgãos e tecidos:

Órgãos

  • Rim;
  • Pâncreas (parcialmente);
  • Parte do fígado;
  • Parte do pulmão (em situações excepcionais);

Tecidos

  • Medula óssea;
  • Sangue.

Por que doar?

A doação de órgãos e tecidos é uma forma de salvar vidas e de ajudar no tratamento de milhares de pessoas que estão na fila para o transplante. Um doador somente pode ajudar muitos outros pacientes, fazendo não só um bem para o receptor, mas também para as pessoas próximas a ele.

Entenda um pouco mais como funciona a doação de cada órgão ou tecido e quem precisa dessas doações:

Coração

A doação do coração é destinada a pacientes com doenças graves que comprometem o seu funcionamento, como um edema ou insuficiência cardíaca, que podem alterar o tamanho e força do órgão.

O transplante é recomendado quando o paciente já não responde bem aos demais tratamentos ou cirurgias. Nesses casos, o transplante só pode ser realizado a partir de um doador com morte encefálica.

Válvulas cardíacas

Em determinadas condições, nem mesmo em casos de morte encefálica a doação do coração pode acontecer. No entanto, as válvulas podem ser retiradas e levadas a bancos de válvulas, onde podem ser mantidas por anos.

A partir disso, podem ser doadas para pessoas que apresentam alguma patologia associada a função dessas estruturas (direcionamento do sangue nas câmaras do coração). Ao todo, são quatro válvulas no coração: mitral (bicúspide), tricúspide, aórtica e pulmonar.

Fígado

Os receptores são aqueles que possuem alguma doença hepática grave, como portadores de tumores no fígado ou cirrose hepática causada por álcool ou hepatite, por exemplo.

Como o fígado é um órgão capaz de se regenerar, a doação de parte dele pode ser feita em vida.

Pulmão

O transplante de pulmão é realizado em pacientes com o diagnóstico de doenças pulmonares graves, que não respondem mais aos outros tratamentos disponíveis.

Algumas das doenças que podem levar o paciente a precisar de um transplante incluem fibrose pulmonar, fibrose cística, hipertensão pulmonar e enfisema.

A doação desse órgão acontece, geralmente, em casos de morte encefálica. No entanto, em casos excepcionais, a doação de parte do pulmão pode ser feita de um doador vivo. Nesses casos, existe a necessidade de dois doadores para que um receptor possa receber o transplante.

Pâncreas

Esse é um órgão importante no processo de digestão e também na produção da insulina, responsável pelo controle da glicemia.

O transplante do pâncreas, normalmente, é realizado junto ao transplante de rim, quando o paciente apresenta algum problema renal associado ou em pacientes com diabetes Mellitus tipo 1. A doação ocorre a partir de doadores falecidos ou de forma parcial em doadores vivos.

Rim

O transplante de rim é realizado em pacientes que apresentam doenças como diabetes, insuficiência renal crônica com indicação de hemodiálise (filtragem do sangue), hipertensão e outras patologias que comprometem a funcionalidade desse órgão. A doação pode ocorrer em vida ou após o falecimento, devido a presença de dois rins.

Intestino

O intestino pode ser transplantado em pacientes que apresentam alguma disfunção grave de má absorção, que podem acontecer por variados tipos de distúrbios gastrointestinais ou sistêmicos, e também em pacientes com a Síndrome do Intestino Curto.

Córneas

Esse transplante é realizado quando o paciente apresenta determinada condição que compromete a córnea, que prejudica a visão, a anatomia e funcionalidade do olho.

Várias condições podem levar ao comprometimento desse tecido, como úlceras, traumas, infecções, cirurgias, alergias e doenças como ceratocone.

Em alguns casos, há tratamento para essas complicações, mas quando o paciente não apresenta melhora e sua visão é colocada em risco, o transplante é uma chance de normalizar o quadro.

A doação das córneas, tecido fino que controla a passagem de luz para a retina e nos permite enxergar com maior nitidez, pode ser feita apenas a partir de doadores falecidos.

Medula óssea

A medula óssea é um tecido presente no interior dos ossos que atua na formação dos glóbulos vermelhos (hemácias), glóbulos brancos (leucócitos), plaquetas e células-tronco.

A doação pode ser feita em vida, até mesmo por crianças e gestantes. O interesse em ser um doador de medula óssea deve ser feito a partir de um cadastro nos hemocentros. Cada estado possui um e eles podem ser consultados pelo site do Inca.

Durante o cadastro, o doador passa pela coleta de uma quantidade pequena de sangue e preenche uma ficha com informações pessoais. O sangue deve passar por uma análise para identificar características que possam interferir no transplante. Esse exame é chamado de histocompatibilidade (HLA).

As informações do HLA devem ser mantidas no Redome, Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea.

É a partir do Redome que acontece um cruzamento dos dados do paciente em espera do transplante com os dados do doador. Quando há uma compatibilidade, o doador é notificado.

Essa doação pode ajudar pacientes com leucemia,anemia aplástica, linfoma e outras doenças que prejudicam a funcionalidade do tecido, como doenças autoimunes e hematológicas.

Pele

Esse tipo de doação ajuda no tratamento de pessoas que sofreram queimaduras graves e em uma região extensa do corpo. Também é importante para pacientes com doenças dermatológicas graves que comprometem a pele.

A doação de pele é realizada em doadores falecidos ou em pessoas que passaram por cirurgias estéticas com retirada de partes da pele.

Osso

O transplante ósseo é um recurso importante para pacientes que precisam de implantes dentários, próteses e transplantes da coluna, devido a presença de tumores ou traumas.

Como funciona a Lista de Espera?

A fila de espera por transplantes, no Brasil, é dividida de acordo com o órgão em específico, como é previsto pela Lei nº 9.434/1997.

Quem deve organizar a relação dos pacientes com as filas é o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), que faz parte do Ministério da Saúde.

Embora seja uma fila, o que determina quem deve ser priorizado no transplante não é apenas a ordem de chegada. Existem três critérios analisados: a compatibilidade sanguínea, tempo de espera e gravidade do caso.

Leia mais: Quais são os tipos sanguíneos, tipos raros e doador universal

Por isso, pessoas que estão na fila e apresentam maior risco de morte devem ser priorizadas no transplante.

Da mesma forma, se o primeiro paciente na fila apresentar um tipo sanguíneo diferente do doador, ele não receberá o transplante, “passando a vez” para o próximo paciente que se encaixa melhor nos critérios.

Há também casos mais específicos, em que a fila de espera é organizada de acordo com uma pontuação, como no caso de transplantes de rim e de fígado.

No caso de transplantes de fígado, por exemplo, a prioridade da fila também leva em consideração um índice matemático denominado Modelo para a Doença Hepática em Estágio Terminal — tradução para Model for End-stage Liver Disease (Meld).

Esse índice se baseia nos exames laboratoriais do paciente, aplicando os valores dos testes em uma fórmula matemática. De acordo com o resultado, há também uma porcentagem correspondente, que indica o risco de mortalidade do paciente.

Quanto maior o resultado do Meld, mais avançado é o posicionamento do paciente na fila pelo transplante de fígado.

No caso de transplantes de rins, os exames são feitos através do órgão do doador. Assim, os médicos conseguem verificar a porcentagem de compatibilidade do órgão com os pacientes na fila de espera.

Os pacientes mais compatíveis ganham pontos e se tornam melhores posicionados na fila de espera. Os outros critérios também são considerados nesses casos. Essa atualização da fila de espera, no caso do transplante do rim, é atualizada sempre quando há uma nova doação.

Sobre a fila de espera, é importante saber também como acontece a distribuição. Ainda que a fila de doação de órgãos e o sistema de transplantes sejam de abrangência nacional, as distribuições são realizadas por regiões.

Normalmente, o órgão do doador é destinado para pacientes na fila de espera do mesmo estado, por uma questão de logística de transporte e devido ao prazo entre a retirada do órgão do doador até o momento do transplante (tempo de isquemia).

O número de pessoas na lista de espera pode ser consultado, de acordo com a região e o órgão esperado, no site do Ministério da Saúde.

Como está a fila de espera no Brasil?

O Brasil possui um sistema de doação de órgãos bastante consolidado, sendo o programa público de transplantes um dos maiores do mundo. No entanto, por mais que exista um crescimento no número de doadores, ainda há muito para melhorar e filas de espera para serem zeradas ou reduzidas.

Segundo dados levantados pelo Governo do Brasil, o país bateu seu recorde em 2017 em número de transplantes realizados, sendo a melhor estatística de doações em 20 anos.

Em 2016, por exemplo, estima-se que cerca de 25 mil transplantes foram realizados, enquanto em 2017 foram aproximadamente 26,2 mil.

No entanto, apesar desse acréscimo, as filas ainda são grandes.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em agosto de 2018, mostram que ainda há uma fila de mais de 33 mil pessoas, sendo a soma de pacientes em espera por um órgão igual a 24.664 e para córnea 9.051. O rim, órgão com maior número de pacientes ativos no aguardo, representa 22.446 dos pacientes.

Tempo de isquemia de cada órgão

A isquemia é a falta ou diminuição de irrigação sanguínea em um órgão ou tecido. O tempo de isquemia, no caso dos transplantes, determina o período necessário entre a retirada do órgão do doador até o momento do transplante.

Esse tempo é diferente para cada órgão e é importante para que a retirada e o transporte seja feito no período adequado, preservando o órgão do doador para que o transplante seja viável.

Os prazos estimados, de acordo com cada órgão, são os seguintes:

  • Coração: deve ser retirado antes da parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de 4 a 6 horas;
  • Pulmões: deve ser retirado antes da parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de 4 a 6 horas;
  • Rins: até 30 minutos após parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de até 48 horas;
  • Pâncreas: deve ser retirado antes da parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de 12 a 24 horas;
  • Fígado: deve ser retirado antes da parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de 12 a 24 horas;
  • Córneas: até 6h após a parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de 7 dias;
  • Ossos: até 6 horas após a parada cardíaca. O tempo máximo de preservação extracorpórea é de até 5 anos.

Em relação ao tempo de isquemia de tecidos como vasos e tendões, por exemplo, o que deve determinar o prazo é a forma como foram armazenados. Após a retirada desses tecidos, eles devem ser encaminhados aos bancos de processamento, que devem ficar responsáveis pela preservação.

Relato: como é receber um transplante?

Ainda existem muitas pessoas na fila aguardando por uma doação, mas, felizmente, muitas vidas já foram transformadas pelo transplante, como foi a de Marcia Maluf, que há 22 anos recebeu um coração.

Quando estava com 35 anos, a agora tradutora aposentada, descobriu que estava com um edema no coração, condição em que ocorre um inchaço causado pelo excesso de líquido.

Na primeira consulta com o cardiologista, já não voltou para casa de imediato. Por dois meses permaneceu internada e saiu somente após esse período, já com um marcapasso.

“Vivi de 1988 a 1996 com o marcapasso, tive uma vida normal e até me casei novamente” conta Marcia. No entanto, apesar de ter vivido bem com esse tratamento durante esse período, ao final de 1995 sentia que já não estava funcionando.

“Ele cresceu tanto, encheu de água como uma bexiga de festa que, ao invés de ar, tinha água. Ele não batia mais, era pesado. Eu vivia com um marcapasso implantado que uma hora já não adiantaria mais”, relembra.

Com a condição de saúde mais complicada, em fevereiro de 1996 entrou para a fila do transplante de coração. Em uma época em que as campanhas de doação não eram tão presentes, Marcia acredita ter sido privilegiada. Após 12 dias na fila, recebeu o transplante.

“Tenho gravada em mim a sensação mais linda desse mundo: a de acordar deitada respirando normalmente, porque até uns 6 meses antes disso eu só dormia sentada na cama, se não pararia de respirar”.

Hoje Marcia acredita que é responsável por cuidar de 2 vidas: a própria e a do doador. Sobre o doador, ela tem poucas informações, até porque a identidade não deve ser anunciada pelo médico, ao menos que todas as partes envolvidas estejam de acordo.

“Sei de algumas informações, menos a identidade que é proibido. Sei que ele era um atleta de 23 anos, que faleceu assassinado em um assalto em um caixa eletrônico”.

O doador em questão teve morte cerebral e foi levado ao hospital. Como havia deixado uma carta dizendo que gostaria de doar os órgãos, e por meio do consentimento da família, a doação foi possível.

A partir disso, Marcia vive bem e feliz, graças a doação de órgãos. Acredita que o transplante teve até mesmo um papel rejuvenescedor em sua vida, ao comparar as fotos de si antes e depois da cirurgia.

O procedimento foi realizado pelo SUS e os medicamentos para que não houvesse rejeição, que apresentam um custo alto, também foram disponibilizados gratuitamente.

Mesmo com as dificuldades e com os cuidados mais rigorosos no primeiro ano após o transplante, se sente agradecida e continua se cuidando todos os dias como se tivesse recém-operado. “Sou quase fanática pelos Beatles (beatlemaníaca), vou a shows, adoro uma balada e celebro a vida todos os dias”.

Para que mais pessoas tenham suas vidas transformadas, assim como teve a sua, Marcia acredita que as campanhas são fundamentais para isso, pois as pessoas não têm acesso às informações sobre como funciona a doação.

“A falta de informação começa também quando o assunto é morte cerebral. Além disso, não há religião que impeça a doação, só falta de informação e isso as campanhas procuram sanar”, comenta.

Hoje, com 65 anos, ministra palestras incentivando a doação, mostrando para as pessoas o que o transplante significa para os pacientes que estão na fila de espera.

Campanhas

Com o intuito de conscientizar a população e incentivar a prática da doação de órgãos e tecidos, existem algumas campanhas que são veiculadas no país. Saiba mais:

Dia Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos

Comemorado no dia 27 de setembro, o dia Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos reforça a importância das doações e como esse gesto pode salvar muitas vidas.

A data faz parte de uma campanha lançada pelo Ministério da Saúde.

Além de conscientização da sociedade, a data também é utilizada para atingir a comunidade médica, para que as mortes encefálicas sejam anunciadas para as Centrais de Transplantes, de acordo com a lei obrigatória.

Ter um dia para reforçar a importância desse gesto é importante para que as filas de espera sejam reduzidas. Esclarecer como funciona a doação de órgãos é uma das medidas para que isso seja possível, pois há ainda muita falta de informação sobre os procedimentos.

Além disso, a campanha também tem o intuito de lembrar que em vida também é possível ser um doador, e que apenas uma conversa com os familiares é capaz de mudar o destino de muitos pacientes que esperam por uma doação.

Para os familiares, a campanha também é importante. Respeitar a vontade do ente querido é uma forma de doar vida para outras pessoas.

Setembro verde

Setembro é um mês importante quando falamos de valorização da vida. Além do Setembro Amarelo, campanha que traz uma discussão sobre o suicídio, existe também o Setembro Verde, que incentiva a doação de órgãos.

Em razão ao Dia Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos, comemorado em setembro, todo o mês é considerado um momento propício para intensificar as campanhas e levar ainda mais informação sobre como ser um doador.

Essa é uma campanha criada em parceria entre a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais de saúde.

O objetivo é promover durante esse período ações que conscientizem as pessoas sobre a importância e necessidade da doação de órgãos e tecidos, para que mais vidas possam ser salvas.

Perguntas frequentes

Existe idade limite para ser doador de órgãos?

Não. Quando se trata de doação de órgãos e tecidos, o que deve ser levado em consideração é a condição de saúde do paciente. Por isso, não existe requisito de idade. Ninguém é novo ou velho demais para ser um doador.

O que os médicos devem avaliar é a condição de saúde do doador no momento da morte e verificar quais tecidos ou órgãos podem ser doados em cada caso específico.

Como é a cirurgia para a retirada dos órgãos?

A retirada dos órgãos acontece através de um procedimento cirúrgico comum, como qualquer outro tipo de cirurgia. De acordo com a Lei n° 9.434/1987, os médicos devem seguir os mesmos cuidados de reconstituição do corpo do doador.

Dessa forma, não é necessário nenhuma preocupação em relação ao sepultamento, pois o doador não deve ficar com deformidades, podendo ser velado normalmente.

É necessário deixar registrado em algum documento o desejo de ser um doador de órgãos?

Não. No Brasil, não há nenhuma obrigatoriedade de documento ou registro de que se quer ser um doador. O que é levado em conta é a autorização da família em relação ao desejo do ente falecido, por isso é tão importante informar os familiares desta vontade e, principalmente, pedir que esse desejo seja respeitado.

Entretanto, apesar da decisão final ser o consentimento familiar, existem algumas iniciativas que registram a intenção de ser um doador.

Uma dessas iniciativas é o projeto Doar é Legal, do Conselho Nacional de Justiça, em que é possível declarar a vontade de ser um doador e imprimir uma certidão, mesmo que ela não possua validade jurídica.

Como acontece o transporte dos órgãos doados?

O manejo do órgão transportado depende de alguns fatores. O transporte, geralmente, ocorre por avião ou por carro. A urgência do transporte depende também de órgão para órgão, pois para isso é considerado o tempo de isquemia, processo em que o órgão ou tecido passa por uma suspensão da irrigação sanguínea.

Conta-se também, nesses casos, com a Força Aérea Brasileira (FAB), que deve sempre manter à disposição uma aeronave para o transporte de órgãos que serão transplantados e que são casos de urgência.

Outro apoio acontece através do controle de tráfego aéreo, em que os voos em que se tem o transporte de órgãos devem ser priorizados.

Quais fatores impedem que o número de doadores seja maior?

Um dos motivos que ainda limitam o número de doação de órgãos é a questão da autorização familiar por parte do doador. Segundo o Ministério da Saúde, estima-se que metade das famílias entrevistadas discordam da ação e não permitem a retirada dos órgãos e tecidos.

Os números de mortes encefálicas registradas em 2014, de acordo com o Ministério da Saúde, foram acima de 36 mil, por exemplo, superior ao número de pacientes na fila de espera para o transplante de órgão, estimado em 27 mil, e de córnea, 11 mil.

Como funciona quando o doador morre em casa e a família deseja doar os órgãos?

Quando o doador morre em casa, apenas as córneas podem ser retiradas para doação, pois os outros tecidos, como pele e ossos, exigem um ambiente hospitalar propício.

Ainda assim, a doação das córneas só é possível quando realizada em até seis horas após a parada circulatória.

Por isso, a notificação da morte à Central Estadual de Transplantes precisa ser feita de forma imediata. Essa comunicação pode ser feita através dos números de telefone disponibilizados no site da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Assim, eles poderão comunicar o Banco de Tecidos Oculares, acionando os profissionais para que o procedimento da retirada da córnea possa ser feita.

Quando a causa da morte não é natural, o corpo deve ir para o IML, para necropsia.

Outros tecidos, como ossos e peles, não podem ser doados devido a necessidade da retirada em um ambiente hospitalar.

O doador pode escolher o receptor?

Quando se trata da doação em vida, sim, contanto que as restrições para esse tipo de doação estejam de acordo com a legislação.

Na doação após a morte, essa escolha não é possível. Nem o doador e nem a família podem escolher para quem deve ser destinado o órgão ou tecido, pois essa é uma decisão tomada de acordo com os critérios da lista única de espera, decisão pertencente a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos e Tecidos (CNCDO) do local em que o doador faleceu.

Portanto, por uma questão ética, as informações sobre a identidade do doador e do receptor são preservadas.

Entre as razões para o sigilo, está a possibilidade do transplante não ser bem-sucedida, no sentido de algum órgão precisar ser descartado devido a possibilidade de provocar um risco para o paciente, por exemplo.

Existe algum custo para a família do doador ou para o receptor?

Não. A doação de órgãos ou tecidos, quando realizada pelo Sistema Único de Saúde, não tem nenhum valor para a família do doador ou para o doador, da mesma forma que é para o receptor.

Além disso, a família do doador não deve também receber nenhum pagamento para a doação, um gesto que deve ser realizado sempre pela solidariedade e pelo bem ao próximo, sem apresentar envolvimento financeiro, assim como distinção entre raça, sexo ou credo.

Os planos de saúde cobrem a cirurgia do transplante?

Depende. Existem contratos de cobertura que garantem a cobertura e outros não. Em contratos feitos até 1998, por exemplo, não existia obrigatoriedade por parte dos planos de saúde a cobertura de transplantes.

No entanto, devido às considerações do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que julgam esses contratos como uma prática ilegal, existem também decisões judiciais que ajudam o paciente nessas situações.

Em 1999, os contratos passaram a incluir a cobertura de transplantes de rim, córnea e medula óssea, além de prestarem assistência hospitalar, com o acompanhamento após a cirurgia e medicamentos durante a internação.

Em relação aos transplantes de outros órgãos e tecidos, não existe uma obrigatoriedade de cobertura, de acordo com as resoluções da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

No entanto, mesmo quando não há cobertura do plano de saúde, a cirurgia pode ser feita pelo Sistema Único de Saúde, de forma gratuita.

Vale lembrar que a fila de espera é única, portanto, é a mesma utilizada no SUS.

Como é identificado um possível doador nos hospitais?

A identificação de um possível doador acontece a partir do trabalho das Centrais Estaduais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDOs), responsáveis pela inscrição e classificação dos pacientes na fila de espera.

As Centrais também atendem as notificações de morte encefálica repassadas pelos hospitais, cuidando do encaminhamento e transporte dos tecidos e órgãos.

Esse encaminhamento é feito de acordo com os critérios de prioridade estabelecidos, como quadro clínico de risco, tempo na fila e compatibilidade sanguínea.

Quando não há um encaminhamento do órgão ou tecido doado para dentro do estado, devem notificar a Central Nacional, para que seja feito um redirecionamento para outros estados.


A doação de órgãos é um gesto a favor da vida e a Campanha Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos tem o objetivo de lembrar, incentivar e alertar as pessoas sobre a importância dessa ação, em vida ou após a morte.

Quem possui esse desejo deve se lembrar do quanto é fundamental informar os familiares sobre essa vontade, assim como os familiares devem acolher e respeitar essa iniciativa do bem.

Se você é um doador ou se já recebeu alguma doação, fique à vontade para nos contar a sua história em nossos comentários. Obrigada pela leitura!

Fontes consultadas

Minuto Saudável: Somos um time de especialistas em conteúdo para marketing digital, dispostos a falar sobre saúde, beleza e bem-estar de maneira clara e responsável.

Editor Médico

Dr. Paulo Caproni

CRM/PR 27.679

Graduado em Medicina pela PUCPR. Residência Médica em Medicina Preventiva e Social pela USP. MBA em Gestão Hospitalar e de Sistemas de Saúde pela FGV.

Farmacêutica Responsável

Dra. Francielle Mathias

CRF/PR 24612

Farmacêutica generalista, com Mestrado em Ciências Farmacêuticas, ambos pela Unicentro. Doutorado em Farmacologia pela UFPR.

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