Victor (Minuto Saudável)
02/01/2019 08:00

Minuto Investiga: já inventaram a cura do câncer?

A suposição de que a cura do câncer já foi descoberta não é nada incomum. Ela está presente em conversas de bar, mensagens via aplicativo, correntes, vídeos na internet e até mesmo em sites de notícia.

O principal argumento utilizado pelas pessoas que defendem a tese de que a cura do câncer já foi descoberta é a de que seria financeiramente mais vantajoso para a indústria farmacêutica continuar fazendo o tratamento convencional, que pode ser custoso e demorado.

Nesse caso, se existisse uma cura do câncer, ela seria muito menos rentável, pois o paciente precisaria ser curado apenas uma vez e não haveria a necessidade de gastar dinheiro por tempo indeterminado com remédios e tratamentos, o que, por sua vez, colocaria os lucros da indústria farmacêutica no chão.

Afirmar que a cura do câncer já existe é uma afirmação ousada. Isso porque o câncer é um problema complexo que atinge o corpo humano.

Então, para saber se a cura já existe e se ela está sendo escondida do grande público, é preciso entender mais da doença em si.

O que é o câncer?

O câncer pode ser definido como o crescimento anormal, acelerado e descontrolado de um tecido ou célula do corpo. Esse descontrole no crescimento gera um tumor, que nada mais é do que um aglomerado dessas células.

Ao contrário do que as pessoas imaginam, o câncer não é uma doença, mas várias doenças, que apresentam diferenças, particularidades e que, mais importante, são tratadas de maneiras diferentes.

Isso porque os tumores podem acontecer em diferentes áreas do corpo. Dessa forma, cada tipo de câncer apresenta sintomas, velocidade de crescimento e estratégias de tratamento diferentes.

Um câncer no cérebro é muito diferente de um câncer na pele.

No caso do câncer do cérebro, o paciente pode sentir sintomas como dor de cabeça, mudanças na visão, síncope (desmaio) e alterações na memória e cognição. O câncer de pele é outra doença completamente diferente, causando aparecimento de pintas ou manchas e sinais de pele.

O que as duas doenças têm em comum é o tumor, o aglomerado de células se multiplicando. Os seus efeitos no corpo humano e a maneira de tratar cada um, entretanto, difere bastante.

Para se ter uma ideia, existem mais de 100 tipos de câncer e eles podem se desenvolver em qualquer lugar do corpo, causando sintomas diferentes e exigindo tratamentos diversos.

Vamos usar novamente o exemplo do tumor no cérebro e o tumor na pele. Recorrer ao mesmo tratamento para as duas doenças não é uma boa ideia.

Um tumor simples na pele do braço pode ser facilmente retirado através de uma cirurgia não invasiva. Um tumor no cérebro por outro lado, dependo do seu tamanho e do local onde está, exige outras estratégias, como o uso da quimio e radioterapia.

A verdade por trás supostas curas do câncer

Existem diversas histórias envolvendo a cura do câncer. Muitas delas entram em detalhes sobre a vida do pesquisador e como ele foi calado pela indústria farmacêutica.

O grande problema é que as histórias contadas nos vídeos e textos perdidos pela internet variam bastante entre si e contam detalhes imprecisos, incorretos ou então manipulam toda a história.

Por isso, decidimos analisar as principais alegações de cura do câncer e esclarecer melhor o que é verdade e o que não é.

Rife e sua máquina revolucionária

Royal Raymond Rife e o microscópio que patenteou

No início do século XX, um cientista americano chamado Royal Raymond Rife inventou uma máquina batizada com seu nome que seria capaz de enviar impulsos magnéticos para dentro do corpo e matar as células cancerígenas, bem como outras doenças causadas por vírus e bactérias.

Rife se baseou no trabalho do Dr. Albert Abrams, um conhecido médico americano, famoso por suas invenções e por ter criado uma máquina que supostamente seria capaz de diagnosticar e curar todas as doenças — alegações que foram questionadas desde o início por toda a comunidade científica.

Abrams acreditava que toda doença possuía sua própria frequência eletromagnética. Dessa forma, os médicos seriam capazes de matar doenças ou células cancerosas através de impulsos elétricos idênticos aos da doença, dando à essa “teoria” o nome de “Teoria Radiônica” (tradução livre de Radionics Theory).

Usamos a palavra “teoria” entre aspas, pois a verdade é que não podemos chamar a técnica radiônica de teoria.

Do ponto de vista científico, para que uma hipótese alcance o status de teoria, ela deve ser bem fundamentada, ou seja, possuir uma série de evidências que apontam para a sua veracidade, o que não é o caso da máquina de Rife.

Em 1920, a renomada revista Scientific American criou um comitê para investigar as alegações do Dr. Abrams a respeito da “Teoria Radiônica” e concluiu que os resultados do médico não eram substanciais.

Ao longo dos anos, a máquina de Rife caiu em descrédito, já que não havia comprovação científica das alegações do cientista. Entretanto, em meados dos anos 1980, Barry Lynes, um autor americano, reacendeu o interesse nas máquinas de Rife.

Lynes alegou que a Associação Médica Americana (AMA, na sigla em inglês), em conjunto com agências governamentais, estaria escondendo as evidências de que a máquina de Rife, na verdade, funcionava.

Muitas pessoas acreditaram e acreditam nas afirmações de Lynes até hoje. O interessante a ser relatado é que, na década seguinte, nos anos 1990, máquinas de Rife começaram a ser vendidas em um esquema de marketing multinível, o famoso esquema de pirâmide.

Os vendedores da época utilizavam testemunhos e evidências anedóticas (histórias isoladas) para embasar as alegações de que a máquina curava o câncer.

A verdade é que as máquinas de Rife não passaram pelos mesmos testes que os outros tratamentos para o câncer passaram e, por essa razão, não possuem base científica que comprove sua eficácia.

Recentemente, alguns pesquisadores começaram a fazer experimentos com radiofrequência e frequência eletromagnética para o tratamento de câncer.

As pesquisas concluíram que ondas eletromagnéticas de baixa frequência podem afetar o tumor e não impactar células não cancerígenas.

Esses estudos ainda estão em estágios iniciais e não houve nenhum teste em humanos até o momento. É válido ressaltar, também, que esses pesquisadores conseguiram tais resultados usando radiofrequências diferentes do que aquelas geradas pela máquina de Rife.

A conclusão que podemos tirar é que não há evidência de que as máquinas de Rife sejam efetivas no tratamento de câncer.

Ainda assim, existem tratamentos alternativos que podem ajudar a amenizar os efeitos colaterais e os sintomas da doença.

Fosfoetanolamina sintética

A fosfoetanolamina é um tópico recente e bastante polêmico. Por essa razão, é importante expor o que é verdade e o que não é verdade a respeito dessa substância.

Toda a história da fosfoetanolamina começa na década de 1980, quando o químico Gilberto Orivaldo Chierice, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP), começou a produzir e a distribuir o composto gratuitamente pela universidade à pacientes que buscavam por tratamentos complementares ou alternativos.

O químico seguiu com suas atividades normalmente até que, em junho de 2015, a Universidade de São Paulo (USP), interrompeu a distribuição da fosfoetanolamina, o que fez com que os pacientes que utilizavam a substância entrassem na justiça para solicitar acesso às cápsulas.

Em outubro de 2015, o Supremo Tribunal Federal autorizou a distribuição da substância para as pessoas que entraram com o pedido na justiça, o que levou a USP, na mesma época, a se manifestar através de comunicado oficial.

No documento, a universidade alegava que a substância não poderia ser caracterizada como remédio, pois foi estudada na USP como produto químico e que, portanto, não haveria demonstração de que tivesse efeito contra o câncer.

O Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), como resposta, fez uma parceria com seis laboratórios farmacêuticos para aprofundar os estudos da fosfoetanolamina.

Na mesma época, a revista científica Nature lançou um editorial alertando para os perigos da distribuição desse composto.

Mesmo assim, cinco hospitais da rede estadual de São Paulo, dentre eles o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, anunciaram que começaram a realizar testes clínicos para comprovar a eficácia da fosfoetanolamina.

Em março de 2016, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que permite a fabricação, distribuição e uso da fosfoetanolamina em território nacional.

Pelo projeto de lei, todos aqueles que têm laudo médico que comprove o diagnóstico de câncer podem fazer uso do medicamento. Além disso, a proposta também permitiu a fabricação do composto mesmo em locais sem registro sanitário.

No mesmo mês, pesquisadores responsáveis por realizar os primeiros testes clínicos com a fosfoetanolamina divulgaram um parecer informando que a medicação apresentou baixo grau de pureza e que demonstrou pouco ou nenhum efeito sobre as células tumorais.

Também foi divulgado um comparativo entre a fosfo e as outras substâncias mais tradicionais, e o desempenho do composto foi insatisfatório.

Isso não impediu que o projeto de lei que regulamenta a produção e distribuição da fosfoetanolamina fosse aprovado no senado e, posteriormente, sancionado.

Como reação, a Associação Médica Brasileira (AMB), protocolou uma ação direta de inconstitucionalidade (ADI) ao Supremo Tribunal Federal, contestando a lei que permite o uso da fosfoetanolamina sintética.

De acordo com a AMB, a pílula não havia passado pelos testes clínicos em seres humanos, o que viola as diretrizes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em maio do mesmo ano, o STF suspendeu a lei referida em abril, além de suspender as decisões judiciais que obrigavam o governo a fornecer a substância. Um mês depois, em Junho, o Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP) concluiu novos testes com a fosfoetanolamina sintética.

O órgão realizou análises em células do pâncreas, pulmão e pele, no intuito de checar a capacidade da substância no combate ao câncer.

Os testes concluíram que a fosfoetanolamina não possuía eficácia contra tumor de pâncreas ou de pele, mas que no pulmão, a substância conseguiu reduzir a viabilidade celular em 10,8% e a proliferação do tumor em 36,1%.

Esse resultado aparentemente positivo, entretanto, para os cientistas, parece estar mais relacionado à mudança de pH produzida pelo acréscimo da substância, o que coloca mais uma dúvida sobre a eficácia da fosfoetanolamina.

Dieta cetogênica

A dieta cetogênica se propõe a eliminar o câncer através da alimentação. Toda a ideia gira em torno do fato das células cancerígenas precisarem de carboidratos simples e açúcares em abundância para crescer.

Dessa forma, ao adotar uma dieta cetogênica, o paciente estaria retirando o “alimento” das células cancerígenas, matando-as de fome.

A dieta é composta por 10% a 15% de carboidratos, 50% de gorduras e 30% de proteínas, e nela é proibida a ingestão de carboidratos simples (de fácil digestão), como arroz branco, pão branco e açúcar.

O grande problema é que essa dieta envolve alguns riscos. Uma dieta pobre em carboidratos e rica em gordura e proteínas pode ter efeitos indesejáveis, como problemas cardíacos e a obesidade.

A verdade é que esse método foi muito estudado como um tratamento coadjuvante no controle de crises convulsivas em crianças com epilepsia e já é estudado desde 1990 com enfoque em pacientes que têm câncer.

Até o momento, os estudos feitos para comprovar ou desaprovar a eficácia dessa dieta, entretanto, são muito restritos. Em sua maioria, foram analisados apenas pacientes com tumores de Sistema Nervoso Central (SNC) e as pesquisas se limitam à descrições e relatos de casos.

Para que a hipótese da dieta cetogênica seja confirmada ou desmentida, é necessário conduzir um grande estudo comparando uma população que fez a dieta com um grupo controle, que não fez a dieta.

Nesse estudo, seria necessário ainda acompanhar os pacientes durante vários anos para que se tenha a real noção do impacto dessa prática no tratamento do câncer.

Ou seja, mesmo que exista potencial anticancerígeno nessa técnica, é necessário incorporá-la aos poucos, primeiramente como tratamento coadjuvante ao tratamento padrão, sem jamais substituí-lo, pois as consequências podem ser perigosas.

A opinião dos especialistas

Os especialistas da área médica normalmente são categóricos com relação à cura do câncer. Uma única cura funcional para todos os tipos de câncer é cientificamente impossível.

Conversamos com dois especialistas na área sobre cada uma das questões levantadas no texto.

Um deles é o diretor técnico do Hospital Erasto Gaertner, centro paranaense que é referência em oncologia, Dr. William Itikawa. Também falamos com a oncologista do Hospital Marcelino Champagnat, Dra. Maria Cristina Figueroa Magalhães. Confira:

A indústria farmacêutica está escondendo a cura?

Para os dois especialistas, a resposta é categórica: não!

Dr. Itikawa explica que “não é possível haver um medicamento único capaz de curar todos os tipos de câncer, já que os tumores são extremamente variáveis e de comportamentos distintos”.

Para o médico, as alegações de que a cura do câncer está sendo escondida da sociedade é infundada, já que “anualmente, bilhões de dólares são investidos em pesquisas em busca de novos tratamentos para o câncer” e isso demonstra, para o Dr., “todo um investimento por trás do desenvolvimento desses medicamentos”.

Ou seja, a alegação não faz sentido, afinal, para quê a indústria farmacêutica continuaria investindo tanto dinheiro em possíveis curas, se ela já existe e deve ser mantida em segredo a sete chaves?

Para o Dr. Itikawa, não faz sentido falar uma cura para o câncer, mas nas diferentes curas desta classe de doenças. “Atualmente, se fala cada vez mais em terapia alvo, ou seja, tratamento desenvolvido para uma determinada mutação genética da célula tumoral.”

Então, ao mesmo tempo que não faz sentido em falar em uma única cura do câncer, também é errado dizer que não existe cura alguma para o câncer.

Existem mais de 100 tipos de câncer, acometendo variados tipos de células e diversas áreas do corpo, sendo assim uma patologia de difícil manejo e cura. [Por isso] a cura do câncer é possível em muitas situações, mas, para isso, o diagnóstico precoce é fundamental. Quanto mais cedo for realizado o diagnóstico, maiores são as possibilidades de cura”, defende Itikawa.

A Dra. Maria Cristina Figueroa Magalhães, por outro lado, argumenta que “[o câncer] não é algo único, tão matemático para gente ir lá e simplesmente matar. Existem diversas formas do tumor ficar resistente a um tratamento e crescer a despeito do que a gente acha essencial para uma célula se proliferar. É por conta disso que tão difícil encontrar uma cura.”

A ideia de que a cura estaria sendo escondida pela indústria farmacêutica também não passa na mente da médica, que diz que “a oncologia se renova a cada ano os protocolos se renovam a cada ano. (…) Não é algo que está escondido a sete chaves, porque os tumores têm uma certa ‘inteligência’ e dependendo do meio eles conseguem se estruturar ou se reestruturar para voltar a crescer”.

A máquina de Rife tem fundamento científico?

Sobre a Máquina de Rife, ele, Dr. Itikawa diz que “essa teoria nunca foi cientificamente validada, não havendo nenhuma evidência científica a favor do uso da máquina de Rife.

A Dra. Maria Cristina sustenta uma opinião similar, argumentando que “existem pouquíssimos estudos que mostram que a máquina de Rife vai fazer algum benefício em relação a matar células cancerígenas”.

A fosfoetanolamina tem potencial anticâncer?

Em relação à fosfoetanolamina, Dr. Itikawa diz que “não há qualquer evidência significativa que justifique o uso da fosfoetanolamina como medicamento contra o câncer”, além de ter críticas à maneira como a história dessa substância no Brasil se desenvolveu.

O episódio da fosfoetanolamina serviu para que o país demonstrasse a [sua] fragilidade na regulação de medicamentos, assim como nas questões éticas envolvendo testes clínicos em seres humanos. O desenvolvimento adequado de uma substância (…) passa por diversas fases, as quais não foram respeitadas no episódio da fosfoetanolamina”, argumenta.

A Dra. Maria Cristina ressaltou que, mesmo no momento em que esse assunto estava em alta, não haviam estudos sérios que comprovassem a eficácia da substância. Tais estudos precisam atender diversos critérios, como uma população randomizada e submetida a um duplo cego.

Ou seja, seria necessário dividir os pacientes em dois grupos, sortear quais deles iriam receber e quais não iriam receber a fosfoetanolamina. Além disso, o profissional de saúde que administra o medicamento ao paciente não pode saber se o medicamento é a fosfoetanolamina ou um placebo.

“Nós tivemos um estudo feito pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo sendo realizado para comprovar ou não a eficácia dessa medicação e foi comprovado que não, ela não é eficaz, não é um tratamento milagroso para o câncer e não deve ser utilizada até que se prove o contrário”, explica.

Ela ainda conta que o grande problema de administrar a fosfoetanolamina sem ter com base estudos como esse pode ser perigoso, pois “a gente não sabe o quanto ela (a fosfo) pode ter de interação medicamentosa com quimioterápicos padrão (…), que tem grande respaldo na literatura”.

Ou seja, administrar a fosfoetanolamina sem ter como base estudos sérios pode ser perigoso, pois a substância pode diminuir a eficácia dos tratamentos já consolidados.

A dieta cetogênica mata células tumorais?

Dr. Itikawa é categórico com relação à dieta cetogênica e quanto a quais devem ser as medidas e a postura dos pacientes:

A melhor dieta [para um paciente com câncer] deve ser sempre orientada pelo médico oncologista e equipe multidisciplinar, que acompanha o doente, podendo verificar a real necessidade do paciente, a depender de vários fatores pessoais, assim como do tipo de câncer que o paciente apresenta”.

Quanto às evidências científicas desse tipo de dieta, ele argumenta dizendo que, de fato, “existem pesquisas em ratos que demonstram associação da dieta cetogênica com a diminuição do crescimento de alguns tumores, mas isso não deve ser encarado como uma realidade para os seres humanos”.

Se fosse simples assim, não haveria evidências que mostram que outras dietas também podem ter efeitos positivos, afinal, como diz o próprio médico, “alguns estudos demonstram que dietas pobres em gordura reduzem o risco de recidiva de alguns tipos de câncer de mama.”

A Dra. Maria Cristina argumenta que é complicado se chegar a uma resposta de qual a melhor dieta para pacientes com câncer, pois “é muito difícil ter uma população homogênea o suficiente no quesito dieta para que se possa avaliar se alimento A, B ou C pode fazer diferença em na prevenção ou tratamento do câncer”.

Segundo a médica, o que as evidências de hoje mostram é que o método que mais se aproxima de uma dieta com potencial de proteção ao câncer e de redução nas recidivas é a dieta do mediterrâneo, que é baseada na ingestão de carnes magras e no alto teor de frutas e verduras (fibras).

Isso porque os estudos mostram que “o que faz diferença é o paciente não ganhar peso e realizar atividade física”.

A médica ainda faz um adendo para que se tome cuidado com os alimentos que são comprovadamente cancerígenos, como os embutidos (salsicha, mortadela etc) e carnes com alto teor de gordura.

Ao mesmo tempo, também mostra que existem alimentos que podem ajudar os pacientes a se proteger do câncer. “Existem alguns alimentos que se mostram protetores, como as oleaginosas (nozes, castanhas etc). A gente viu num estudo publicado em janeiro deste ano (2018) que se uma pessoa ingerir uma porção por dia de uma oleaginosa ela consegue reduzir as chances de câncer no intestino”.

Por que é tão difícil encontrar a cura do câncer?

Como vimos anteriormente, câncer não se refere somente a uma doença, mas a um conjunto de doenças, que se manifestam de maneiras diferentes, em tecidos diferentes causando sintomas diferentes.

Por esse motivo, não faz sentido falarmos sobre a cura do câncer, mas sim sobre as curas do câncer.

O que todos os cânceres têm em comum é justamente a divisão celular incontrolável, causada por uma mutação genética repentina. Acontece que cada câncer é causado por um conjunto diferente de mutações genéticas.

Os genes nada mais são do que uma sequência de DNA, e cada sequência é um conjunto de bases químicas chamadas de nucleotídeos, que são organizados de um jeito muito específico. Juntos eles dizem à célula como produzir proteínas.

As mutações mudam essas instruções e é aí que o câncer pode surgir. Atualmente, sabe-se que o câncer normalmente é causado por mutações de dois tipos de gene, chamados de oncogenes e supressores tumorais.

Um oncogene normalmente é um gene normal, que codifica proteínas que manda sinais para que a célula cresça. Na maior parte do tempo eles ficam inativos, pois o crescimento celular nem sempre é necessário.

Entretanto, uma única mutação em um desses genes é suficiente para acelerá-lo, e o problema é que, quando isso ocorre, não é possível inativá-lo.

Dessa forma, esse gene, antes normal, se transforma em um oncogene e continuamente manda instruções para a célula continuar crescendo e se dividindo indefinidamente.

Alguns dos oncogenes mais conhecidos são o RAS e o MYC. Eles são genes de crescimento poderosos que aparecem em muitos tipos de câncer.

Na maior parte das vezes, é o gene RAS que sofre uma mutação que muda o formato da proteína que ele produz. A proteína alterada fica presa em uma posição em que sempre sinaliza para a célula de que ela precisa crescer.

Por conta do seu novo formato, as proteínas que anteriormente desativavam a RAS não a reconhecem mais, fazendo com que a célula nunca pare de receber o sinal para crescer e se dividir, o que leva ao surgimento do tumor.

Os supressores tumorais, por outro lado, são o oposto do oncogene. Como o próprio nome já diz, supressores tumorais têm a função de impedir que a célula cresça e se multiplique incontrolavelmente.

Esses genes “anti-tumor” também podem sofrer mutações, que podem levar ao surgimento do câncer.

O problema é que essas mutações podem acontecer de milhões de maneiras diferentes, o que faz com que cada caso de câncer se desenvolva de maneira única.

Outro fator a ser adicionado é o fato de que, quando se tornam cancerosas, as células ainda sofrem mais e mais mutações, uma em cima da outra. Essas mutações em cadeira podem acabar deixando o câncer mais agressivo, dificultando o tratamento.

Por esses motivos, um tratamento que funcionou em uma pessoa pode não funcionar em outra, mesmo se o câncer for parecido e afetar a mesma região do corpo. Dessa forma, fica muito difícil surgir com uma cura que trate todos os cânceres.

Falso ou verdadeiro?

Depois de entender o que exatamente é o câncer, dizer categoricamente que a resposta para a pergunta “Já inventaram a cura do câncer?” é falsa ou verdadeira é uma tarefa complicada.

Não é possível dizer que a cura do câncer já foi descoberta, simplesmente porque existem muitos tipos de câncer (mais de 100) e uma única cura não funcionaria para todos eles.

Alguns tipos de câncer, entretanto, têm cura. O câncer de próstata, de tireoide, o melanoma e o câncer de mama são alguns exemplos. Mas, novamente, isso não é verdade para todos os outros tipos de câncer.

Então, se por um lado podemos dizer que a afirmação de que já inventaram a cura do câncer é falsa, pois não existe só um tipo de câncer, por outro lado não podemos excluir o fato de que muitos cânceres são curáveis.

Se o paciente estiver atento à própria saúde, realizar consultas regulares com o médico e, com isso, descobrir o câncer em um estágio inicial, suas chances de cura são ainda maiores.

Em resumo, quanto mais cedo se descobre um câncer, maiores são as chances de cura. Isso, é claro, se o paciente seguir as recomendações médicas e não adotar medidas alternativas sem o conhecimento desse profissional, pois algumas delas podem trazer prejuízos para saúde e, consequentemente, para o tratamento.

Porém, supostas curas como a Máquina de Rife, a fosfoetanolamina e a dieta cetogênica não se comprovaram como verdadeiras, então podem sim ser consideradas falsas.

A afirmação de que a indústria farmacêutica estaria escondendo a cura da população para lucrar com os tratamentos convencionais também é falsa.


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Se você conhece alguma notícia suspeita, se recebeu algum conteúdo duvidoso pelos aplicativos de mensagem, mande um e-mail para redacao@minutosaudavel.com.br com mais detalhes e nós vamos investigar se o conteúdo é falso ou verdadeiro!

Fontes consultadas

24/01/2019 14:08

Victor (Minuto Saudável)

Redator e revisor, estudou ciências biológicas na Universidade Federal do Paraná e é jornalista pela UniBrasil. Produz matérias sobre transtornos psicológicos, substâncias e medicamentos.

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