Um estudo em larga escala publicado em dezembro de 2018 pelo periódico JAMA Psychiatry associa infecções tratadas na infância com um risco maior para o desenvolvimento de transtornos mentais nas fases seguintes da vida.

O estudo, feito na Dinamarca, utilizou como base os registros de saúde da população dinamarquesa, que conta com detalhes como hospitalizações, prescrições de medicamentos e diagnósticos de saúde mental.

Dessa forma, foi possível observar o histórico médico de cerca de 1,1 milhão de crianças nascidas entre 1º de janeiro de 1995 a 30 de junho de 2012.

Os pesquisadores também usaram dados do Registro de Prescrição Nacional Dinamarquês, que contém informações de todas as farmácias do país, o que lhes permitiu observar, em detalhes, quais medicamentos eram mais ou menos receitados desde 1995.

Cruzando todos esses dados com outros obtidos da Central de Pesquisa e Registros Psiquiátricos da Dinamarca, os pesquisadores conseguiram chegar à conclusão de que infecções na infância podem aumentar as chances de se desenvolver transtornos mentais antes da idade adulta.

Segundo os dados da pesquisa, dentre as aproximadamente 1 milhão de crianças que fizeram parte do estudo, aquelas que foram hospitalizadas por conta de infecções graves tiveram um aumento de 84% no risco de serem diagnosticadas com transtornos mentais antes dos 18 anos e 42% mais chances de precisar de alguma medicação psicotrópica.

O uso de antibióticos também foi relatado como um problema. Aquelas que receberam esse tipo de medicamento como forma de tratamento também apresentaram risco aumentado para o desenvolvimento de transtornos mentais.

Crianças que foram tratadas com antivirais, entretanto, não demonstraram essa relação.

Os transtornos mentais associados

Segundo os pesquisadores, as infecções tratadas durante a infância podem elevar o risco principalmente para doenças como o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), retardo mental e tiques.

Outros distúrbios com alto risco incluem transtornos do espectro da esquizofrenia, transtornos de personalidade e comportamento, transtorno do espectro autista, TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), transtorno desafiador de oposição e transtorno de conduta.

Vale lembrar que os resultados desse estudo não são uma comprovação de causalidade, ou seja, não é porque uma criança teve uma infecção grave que ela necessariamente vai desenvolver algum desses transtornos.

As descobertas feitas pelos pesquisadores dinamarqueses só oferecem evidências que relacionam infecções e o sistema imune com uma gama enorme de transtornos mentais em crianças e adolescentes.

Essa ressalva está contida na própria conclusão do artigo, o que nos mostra que mais estudos são necessários para dar aval a essas descobertas e aumentar o nosso entendimento a respeito dos transtornos mentais.

O que os antibióticos têm a ver com isso?

Os antibióticos são medicamentos usados para combater bactérias que infectam o organismo e que são a causa de uma doença.

Só que existe um problema no uso de antibióticos: esses medicamentos atacam todas as bactérias do corpo, não somente aquelas que estão causando os sintomas.

Nosso corpo possui milhões de bactérias e elas ficam localizadas, normalmente, no intestino. São as bactérias “do bem”. Muitas delas auxiliam o processo digestivo e desempenham uma intricada relação com o sistema digestivo e imune.

Depois do cérebro, o intestino é a parte do corpo que abriga a maior quantidade de neurônios.

Eles são responsáveis pelas funções autônomas do sistema digestivo — ou seja, são eles que fazem o intestino se movimentar, transportando e absorvendo o que comemos — e também por boa parte da produção de hormônios como a serotonina, uma substância importante para diversas funções, dentre elas o controle do humor.

Quando tomamos o antibiótico, não é somente a bactéria causadora dos sintomas que é afetada, mas todas as bactérias que vivem no nosso corpo, incluindo aquelas que estão no intestino.

Isso faz com que todo o sistema digestivo fique desregulado, pois muitas bactérias “do bem” acabam sendo destruídas no tratamento da infecção.

A hipótese levantada pelos pesquisadores é a de que a flora intestinal fica danificada por conta da ação dos antibióticos e isso, de alguma forma, tem efeito na produção hormonal dos neurônios presentes no intestino.

Essa desregulação hormonal pode ter efeitos sobre o cérebro, levando as crianças a ter problemas no desenvolvimento do cérebro, o que seria uma possível causa para os transtornos mentais.

Isso significa que eu não devo dar antibióticos para o meu filho?

Definitivamente, não! Os antibióticos são medicamentos revolucionários. Para se ter uma ideia, a expectativa de vida antes de começarmos a usar a penicilina (o primeiro antibiótico descoberto) era de míseros 47 anos.

É graças a essa classe de medicamentos e às outras descobertas da ciência médica que conseguimos aumentar esse número para 75 anos no Brasil.

A verdade é que é preciso ter cuidado com uso de antibióticos, pois ainda não sabemos de todos os prós e contras a respeito dessa medicamento.

O uso equivocado e indiscriminado, por exemplo, está levando ao surgimento de superbactérias, mais mortais e mais difíceis de ser exterminadas.

Saiba mais: Mau uso de antibióticos cria superbactérias que podem matar

Portanto, o mais correto a se fazer é não tomar antibióticos por conta própria, mas somente quando o médico receitar. E, quando ele receitar, seguir à risca o tratamento, respeitando os horários e as restrições que vêm com o uso deste medicamento.


O corpo humano é muito mais complexo do que parece e ainda há muito a ser investigado. Mesmo essa relação entre infecções na infância, antibióticos e transtornos mentais ainda precisa ser avaliada e validada em pesquisas futuras.

Mais textos como este, você encontra no Minuto Saudável!

Fonte consultada

A Nationwide Study in Denmark of the Association Between Treated Infections and the Subsequent Risk of Treated Mental Disorders in Children and Adolescents – JAMA Psychiatry

Minuto Saudável: Somos um time de especialistas em conteúdo para marketing digital, dispostos a falar sobre saúde, beleza e bem-estar de maneira clara e responsável.

Editor Médico

Dr. Paulo Caproni

CRM/PR 27.679

Graduado em Medicina pela PUCPR. Residência Médica em Medicina Preventiva e Social pela USP. MBA em Gestão Hospitalar e de Sistemas de Saúde pela FGV.

Farmacêutica Responsável

Dra. Francielle Mathias

CRF/PR 24612

Farmacêutica generalista, com Mestrado em Ciências Farmacêuticas, ambos pela Unicentro. Doutorado em Farmacologia pela UFPR.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *